segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Parem, por favor.

Recentemente a Tri Sport  postou na sua timeline a foto de uma triatleta deficiente pedalando com o seguinte título: "Sem desculpas!"

A foto teve exatos 3.298 curtidas, 395 compartilhamentos e dezenas de comentários na linha do título  - ou coisas do tipo  "Quando tenho o privilégio de ver uma foto assim, me motiva muito mais".

Um sucesso.

Uma vez o MundoTri me pediu um texto sobre o esporte paralímpico.

Mas notei logo que precisava dar um passo para trás antes de dar dois para frente, isto é, tinha que entender como as pessoas "com deficiência" ( coloco entre aspas porque esse termo é discutível) entendiam a sua própria condição.

Como poderia falar delas sem ouvi-las?

Pesquisei alguns Blogs, textos, pedi entrevistas (aliás, não fui atendido por ninguém) e assisti alguns videos,  entre os quais destaco o da jornalista e comediante Stella Young.

O titulo da palestra fala por si mesmo: "Eu não sou sua inspiração, muito obrigado".



Vou repetir o que disse um blogueiro citado no texto do MundoTri.

“A sociedade vê os deficientes como pessoas que dispõe de menos ou para quem falta algo. O que se espera de nós é um potencial de realização menor, como se oferecêssemos ao mundo menos de nós mesmos. Eu não quero ser corajoso, porque eu fui para o hospital e sobrevivi a uma cirurgia. Eu quero ser bravo porque fiz algo digno de bravura”.

Nós construimos uma visão da deficiência baseada em um modelo de baixa autoestima e o utilizamos para passarmos mensagens motivacionais em redes sociais.

E quem autorizou o uso dessas imagens?

E o que leva mais de três mil pessoas a curtirem e outras centenas a replicarem uma foto achando que estão exaltando uma triatleta quando, na verdade, se enfronham em mensagens cravadas de preconceito?

Na falta de motivo para levantar da cama para treinar, a resposta é simples: pare de procurar motivação em esteriótipos e procure outra coisa para fazer na vida.

A única coisa realmente "sem desculpa" é a nossa falta de tato, a nossa triste inclinação para sermos piegas e, o pior, a nossa profunda incapacidade de nos colocarmos no lugar do outro.




quarta-feira, 23 de setembro de 2015

O crime não compensa. Mas o doping....

Uma das coisas que acho uma tortura no Facebook é merchandise de triatleta amador.

Não coloco tudo no mesmo saco - conforme já escrevi por essas bandas, creio existem triatletas que vinculam sua imagem a um certo estilo de vida e isso lhes agregam apoios e patrocínios.

São veganos, diabéticos ou celíacos.

É uma lógica associada ao bem-estar que se valida comercialmente por um vínculo coerente entre patrocinado e patrocinador.

Mas em geral a realidade é bem outra.

Com raras exceções, as empresas oferecem um mercado de pulgas com caixas de tênis, uniformes ou amostras de suplementos com data de vencimento perto do prazo.

Profissionais que não conseguem nenhum outro apelo que não seja "somos profissionais" ficam emparelhados por um amplo espectro de triatletas amadores que disputam os parcos recursos que os tais "apoiadores" estão dispostos a oferecer.

E o que ganham esses amadores?

Como não consigo ver benefício econômico em brindes, a única explicação que encontro é a diferenciação por status - o desejo por um lugar no imaginário dos triatletas.

A invenção dos hashtags abriu uma avenida para quem adora aparecer e, em que pese de gosto bastante duvidoso, é um puleiro danado para quem quer estar em todo lugar ao mesmo tempo.

Mas há coisas que na minha profunda miopia não sou capaz de ver.

Dopados cantam em uníssono em relação às mesmas assessorias, nutricionistas, médicos e lojas de manipulação. E os casos que hora e meia são divulgados não esvaziam esses lugares que, ao contrário, antes parecem cada vez mais cheios com clientes que adoram um selfie com o dono do recinto.

Isso foge a  qualquer expectativa racional descrita em um manual de marketing, mesmo desses que se vendem em livraria de aeroporto.

Outra coisa: qual a lógica de marcas serem promotoras de atletas amadores associados ao doping?

Recentemente, um atleta que está suspenso por uso de EPO no 70.3 de Brasília fazia promoção da Specialized e suplementos, com as hashtags #imspecialized  #specialized # specializedbr  e outras piruetas verbais um tanto cínicas como #foco, #determinação, #objetivo etc etc etc.

Muito do que se fala sobre o tema é visto como uma repreensão moralista por alguns e há pessoas que sabem o que dizem alegando que tornar o assunto caso de policia deve ser melhor discutido. Olhando friamente, certamente o doping como crime contra a saúde ou corrupção esportiva é horrível, mas não está no mesmo patamar que outras infrações bem mais graves.

Agora, é feio um sujeito tomar uma suspensão por uso de EPO e passar assobiando em redes sociais como se o assunto não fosse com ele. Recursos escassos que deveriam estar nas mãos de quem precisa e faz do triathlon um meio de vida estão voando por ai com atletas que foram pegos em clara ação antidesportiva.

Quando a Nike rompeu o contrato de patrocínio com Lance Armstrong,  apontou claramente que não tolerava o uso de drogas ilegais para melhorar o desempenho em competições esportivas e se disse enganada pelo ciclista. Fizeram mesmo a Oakley e a Trek.

É impossível dizer se foram realmente enganados ou optaram pelo cinismo.

Mas a Specialized e todos os demais envolvidos com o atleta não têm essa opção.








quarta-feira, 16 de setembro de 2015

O Elefante no Ponto Cego

Esses dias o Ulisses Franceschi postou o seguinte comentário no Facebook,

Era uma vez um esporte onde existiam algumas verdades:
- Quem não sair no primeiro pelotão da natação não ganha mundial.
- A bike é só uma preparação para a corrida.
- Para ganhar Kona tem que ser um atleta pequeno.
- O segredo é sair da água no primeiro grupo, fazer o jogo com esse grupo no ciclismo e correr bem.
- Medidores de potência são fundamentais na bike para se correr bem.
Aí, veio um cara e pulverizou tudo. O nome dele: Sebastian Kienle.
Fim.

Várias pessoas curtiram e comentaram esse post - e fiquei com a pulga atrás da orelha com o tamanho do elefante que se esconde no ponto cego do texto, mas nós não notamos.

Outro dia um amigo postou uma foto de um triatleta que ganhou uma prova na sua categoria e lá aparecia o rapaz com capacete vazado e roda comum.

Daí a pergunta inevitável: quem disse que precisamos de capacete aero e rodas aerodinâmicas para ganharmos uma prova?

Vou fazer uso de um argumento do Daniel Kahneman com uma leve adaptação para tentar fazer com que se visualize o elefante.

Pense em Ana.

Ana reside e trabalho aqui no Estado de São Paulo e tem uma personalidade que pode ser descrita como simpática, embora com pouca desenvoltura para contatos sociais, e que necessita de ordem e estrutura em tudo que faz. Além disso, tem uma grande paixão pela leitura desde criança, o que pode estar associado ao fato de que seu pai tenha sido professor.

Se ao acaso encontrássemos Ana na rua você diria que existe maior probabilidade de estarmos diante de uma bibliotecária ou uma recepcionista?

Sua mente está dizendo que se trata de uma bibliotecária, mas resiste a responder assim porque eu não teria motivos para fazer uma pergunta cuja resposta parece tão óbvia.

Mas, como diz aquele comentarista de ciclismo, piriri-pororó, é provável que você crave em bibliotecária.

Entretanto, deixe-me expor dois dados.

Em São Paulo existem cerca de quatro mil bibliotecárias.

E mais de 154 mil recepcionistas.

(verdade, eu fiz esse levantamento)

Mudou de idéia?

Os mais atentos certamente já devem estar vendo a tromba do elefante.

É muito comum fazermos julgamentos ignorando dados em troca de esteriótipos.

Não se trata de um problema decorrente da sua habilidade no trato com os números – quando testes como esses são aplicados a estudantes de estatística, eles caem no mesmo viés.

Os argumentos por esteriótipos insistem em histórias simples e bem contadas, tais como aquelas ilustradas com fotos de um triatleta segurando um troféu, um capacete vazado e que diz nunca ter usado um medidor de potência.

Mas, supondo-se que todos os outros triatletas que venceram nas suas respectivas categorias dispusessem desses equipamentos, não é de se supor que capacetes aerodinâmicos e powermeters podem ser de eficácia maior porque estão associadas a um número maior de vencedores?

Por que achamos que 1% dos casos têm maior poder explicativo do que aquilo que acontece em 99% das ocasiões?

Se Sebastian Kienle é de fato uma exceção, ele não invalida as verdades citadas no post, antes as reafirma ainda mais.

Mas, também é possível que o alemão não seja de fato uma exceção e o Ulisses esteja correto.

E ai reside o problema mais grave: não temos como saber.

Pois alguém já sentou e colocou na ponta do lápis se Kona é realmente para atletas pequenos? Se medidores de potência são realmente importantes para uma boa corrida? Se uma boa performance no pedal pressupõe sair da água com o grupo da frente?

Temos idéia do montante de "verdades" cuja comprovação é apenas resultado de esteriótipos? Ou de argumentos de autoridade, tal qual aqueles que começam uma sentenças do tipo “Mas o Brett Sutton....” e para a qual não se pode afirmar absolutamente nada fora dos estudos de caso?

E se boa parte das idéias tidas como sólidas no triathlon é apenas o resultado ampliado das nossas intuições coletivas? Das nossas especulações de Facebook? 

E nossos técnicos? Não são suscetíveis eles também a esses viéses tanto quanto qualquer outro?

E o mais importante: o elefante apareceu para você?





terça-feira, 30 de junho de 2015

Ironman Florianópolis 2015

Depois que finalizou o relato sobre o IM de Florianópolis esse ano, o Rafael Pina escreveu algo como "ufá, agora sim a prova acabou".

Demorou uma semana. Eu já vou para um mês.

O problema é não ter ninguém esperando na linha de chegada...

A Logistica e Alimentação

Esse ano fiquei novamente em Jurerê Tradicional, pois uma pousada com cozinha, supermercados e restaurantes próximos mais que compensam a relativa distância da Expo - cujas visitas se limitaram a entrega dos kits e o bike checkin.

A possibilidade de preparar minha comida foi bastante tranquila e não houve descontinuidade em relação a minha alimentação: lá encontrei café, manteiga, nata e gordura de coco; ovo, queijo prato, bacon e aipo; como carboidrato, batata doce e um bolo sem gosto; salada dos restaurantes e manteiga de amendoim levei de São Paulo.

Tento testado uma baixíssima ingestão de carboidratos no IM de Fortaleza e no Challenge de Florianópolis, resolvi fazer um Carbload durante a prova ou, como entendem outros, Train Low, Race High.

Eu estava curioso para esse teste.

Realizei todos os longos de três horas de corrida e as cinco horas e trinta de bike de jejum e sem ingestão de carbo. Outro ponto interessante foi que a necessidade de ingestão de líquidos diminui bruscamente - em todos os longos de corrida, apenas sentia sente no quilômetro 25 ou pouco depois. Invariavelmente, fechava os 30km com a ingestão de mais ou menos 700 mls de água.

Para a prova preparei duas caramanholas com UCAN e quatro saches de GU Roctane, das quais ingeri três. Além disso, oito capsulas de sal.

Na área de transição, três pedaços de bolo com guaraná foram suficientes para a maratona, embora eu tenha levado gel de reserva e mais capsulas de sal. Mas o que usei, e sempre uso mesmo, é o que apanho nos postos de hidratação - refrigerante ou gatorade.

E gostei da experiência, sobretudo quando comecei a usar um pouco mais de intensidade na segunda perna do pedal. Não senti qualquer "apagão" e em momento algum me senti fraco.

A Prova

Não há dúvida que o fato mais importante dessa prova começou muito antes dela: na penúltima semana que antecedeu a largada tive um estiramento/ou ruptura na panturrilha.

Embora tenha fortalecido e realizado exercícios de alongamento, treinos com a musculatura cansada com doses de intensidade são altamente arriscados.

Com o meu histórico, eu sei.

Mas às vezes pessoas disciplinadas não fazem a diferença entre o bom senso e espasmos mentais suicidas que as fazem cumprir a planilha até o fim, custe o que custar.

Até a prova, decidi apenas por treinos de bike e natação e evitei pensar na lesão  - como se o problema se resolvesse evitando-se o assunto ou me levasse a procurar um médico que me desse um diagnóstico que eu não queri ouvir.

Apenas um dia antes da prova, depois de um trabalho de soltura, fui arriscar uma corrida em Jurerê.

 Depois de vinte minutos correndo notei que a lesão estava onde estava a duas semanas.

Todo período que se seguiu foi de dúvida se valeria a pena ou não largar. Aos amigos que mandavam mensagem de boa prova ou que diziam que iriam acompanhar, eu colocava dúvidas se iria para participar.

Todos eram unanimes que seria melhor tentar. Marcão, Cíntia, Chico, Deise, Yeda, Curado, Kleber, Augusto....quem mais?

O Marcão escreveu uma coisa bacana, que veio do coração dele: "vai dormir e, quem sabe, amanhã você acorda com a panturrilha nova?".

Me apeguei a isso mas, para reforçar a fé, pela primeira vez me convenci a tomar anti-inflamatório.

Ao levantar no dia seguinte e colocar o pé no chão, as coisas não tinham mudado.

Em uma cena um tanto ridícula, me coloquei a dar corridinhas em torno da mesa procurando me convencer que a dor não estava lá ou que iria passar de repente.

Entre pegar a sacola e ir para a largada, ou deixar tudo no apartamento e passar o dia assistindo a prova, fiquei quase paralisado.

Nem no melhor cenário seria possível correr uma maratona. E andar 42k é um sofrimento que eu já conheço para querer repetir a experiência.

Sem saber como, fui.

Entrei na transição e procurei a organização para informar que havia tomado anti-inflamatório a noite e pela manhã.

Saindo de lá, encontrei o Orlandinho que madruga para acompanhar os atletas dele.

Em 2011 estava cismado que o meu pneu iria furar. Era um pressentimento tão pesado que me deixava mal.

E furou antes da prova, enquanto eu testava a bike em Jurerê.

O Orlandinho estava por ali e fomos na casa onde estavam os atletas dele para pegar uma câmera nova. Ele tira a furada e disse algo do tipo "Primeiro, não adianta ter pneu continental e usar câmera chingling; segundo, joga o Mr. Tuff fora."

Oi? Jogar o Mr. Tuff fora?

Ai começou um,

Vai furar, não vai furar, vai furar, não vai furar, vai furar, não vai furar...

Vendo que os dois estavam empacados, resolvemos por na mesa argumentos mais sofisticados,

Vai furar, não vai furar, vai furar, não vai furar, vai furar, não vai furar...

Quando fui ver, ele já tinha trocado a câmera e jogado o Mr. Tuff fora.

"Tó, vai pra prova."

Sai de lá totalmente aliviado, pois ele ali tirava o peso dos meus ombros e passava a responsabilidade para ele.

Tem que ter coragem.

Pois é mais comum o inverso.  "Você está treinado e agora tudo depende de você" ou "Você está pronto para pegar a vaga" são exemplos de atitudes que, na intenção genuína de incentivar e criar confiança, deslizam a responsabilidade da prova do colo do treinador para o atleta e o deixa sozinho com as suas expectativas.

E, sabe, ao final das contas a porra do pneu não furou.

Nunca mais furou.

Do lado de fora da transição, ele me disse "Vai lá que essa panturrilha esquenta no pedal e você vai correr".

Fiquei com a voz embargada.

Vesti a roupa de borracha e fui logo para a praia. Passei um pouco de frio, aqueci na água quando ficou claro e fiquei sozinho até encontrar o Felipe, que eu não via a décadas.

O dia estava estonteante. O sol nascendo, o mar uma piscina e tão hiper-mega-super-blaster sinalizado que gerou até uma certa confusão -  era a primeira, a segunda ou a terceira bóia a do retorno?

A adrenalina da largada me fez esquecer a dor.

Aperto daqui, aperto dali, tapa acolá mas, tirando isso, a natação foi fácil como sempre é fácil em Floripa. Nadei com um ritmo bom de braçadas, evitando me sentir afogado ou com os braços cansados.

Fiz a transição para a segunda perna andando na areia para não sentir a perna e consegui fechar a natação sem sufoco para 1:12.

Na transição para T2, que é longa, fui correndo devagarinho e sem sequer um incomodo!

Será que passou?

Comecei o pedal com disposto a varrer as péssimas recordações do ano passado, quando quebrei ao final dos primeiros 90 km e completei o pedal restante bastante desanimado.

Comecei com a cadência pesada e deixei a bike ir me levando em voo de cruzeiro, sem preocupação com os que me passavam.

Não vi muitos pelotes e marquei alguns amigos que fizeram um tempo bom ano passado para me certificar que não faria uma primeira perna muito lenta, apesar da prioridade ser não forçar o ritmo.

Valeu a pena. Na segunda perna me sentia pensei "agora eu vou"  - passei muita gente e a prova em nada se parecia com a do ano passado. Minha confiança estava nas alturas.

Não sentia nenhuma dor e pensava que poderia estar no melhor pedal que já fiz. Só perdi ritmo nos últimos dez quilômetros, embora minha sensação indicasse, na pior das hipóteses, algo em torno 5:20. Sendo otimista sem esforço, coisa em torno de 5:10.

Deu 5:32 - o mesmo do ano anterior.

Cáspita!

Cadê aquele povo que fala sempre sobre a "boa e velha percepção" mesmo?

Este ano corri com um medidor de potência, não para me orientar, apenas para checar o desempenho.

Segundo a tabela com algumas estimativas que o Max disponibilizou na página do Kona Bikes do Facebook, com os meus 200 Watts (potência normalizada) o tempo de pedal esperado seria 5:04.

Se tivesse 74, não 86 kg.

Depois que comecei com uma dieta bastante restritiva de carboidratos, minha musculatura ganhou volume além do esperado - talvez pelo fato de trabalhar muito o aspecto força nos treinos, principalmente na natação e no pedal. Isso tem um preço.

Como disse um triatleta enquanto eu fazia fisioterapia lá em Jurerê com o pessoal da BR, "nunca vi tanto cara grande em uma prova para gente com perfil mignon".

Terminei o pedal sem a sensação de fome ou desidratação - também pela primeira vez não precisei ir ao banheiro, saindo direto para a corrida.

A panturrilha incomodava, mas não doía - sai bastante otimista pois, quem sabe, o Orlandinho estivesse certo?

Em certos momentos, no plano, o incomodo desaparecia completamente.  Com cautela, entrei e sai de todas as subidas de Canavieiras andando e me sentia bem com o pace variando entre 5:15/5:30  - tudo o mais constante, seria possível fazer os 21k em menos de duas horas e mirar a maratona abaixo de quatro.

Mas de volta a Jurerê não era mais possível lidar com os aclives e, no último quilômetro antes de completar a primeira perna da maratona, comecei a caminhar.

Não dava mais.

Refletindo depois, só conseguia explicar o fato de ter ido tão longe em razão do anti-inflamatório, cujo efeito chegara ao fim.

Passar no meio da multidão que estava na avenida era um misto de emoção e constrangimento, pois não conseguia responder a todo o incentivo para continuar correndo. Sem conseguir me explicar, apenas olhava para as pessoas e dizia obrigado segurando a vontade chorar.

Aquilo é uma energia indescritível.

Comecei a levar a perna um pouco esticada para acertar o passo sem contrair a panturrilha. Calculei que dez minutos o pace seria o ideal, mas nunca conseguia menos que onze.

Fechei a maratona em exatas seis horas e passei pelo pórtico as 12:59:30 (os resultados do Garmin, estão aqui)

Alguns me perguntaram por que continuei.

Vaidade para não admitir um DNF?

Primeiro, acho que persistir não foi tão difícil. Não sentia dor e, mentalmente, já entrei na prova com expectativas muito baixas.

Em segundo,  o convívio com as pessoas que estavam no meu entorno facilitava tudo.

No sábado, uma dia antes da prova, encontrei o Wagner Araújo fazendo o trabalho dele e comentei que talvez não largasse. Sem mostrar nenhum sinal de espanto ou condolência, disse "Bem, quando se treina para ir além isso acontece".

E naturalmente mudamos de assunto.

A reação dele poderia ser interpretada como fria, mas o mesmo se seguiu com outras pessoas - inclusive on line.

E isso ajudou. Pacas.

Porque era ambiente que eu precisava para não alimentar a minha autopiedade.

"Bessinha, tá precisando de um abraço?????",  gritava o Focá enquanto passava de bike; "Não é para parar não Bessa", do Ludão sentado em um ponto de ônibus quando eu estava amolecendo; "escuta, tem que passar aqui de novo porque eu não te dispensei, viu?" mandava uma pessoa da organização na área do special needs quando eu estava para pegar pulseira verde para dar mais uma volta.

Outra aspecto importante foi o que me disse o Alexandre Vasconcelos, "Não olha para o chão, olha para dentro".

Esse balanço não é trivial.

No seu primeiro Ironman você acha que "tudo é possível".

A partir do terceiro, você repensa.

Trata-se de um aprendizado sobre almejar o final do que teve um começo e não se mortificar quando as coisas não podem ser como foram planejadas.

Veja, obviamente a persistência é uma qualidade desejável e necessária.

Mas ela não subentende que "tudo é possível".

Slogans como "só depende de nós", "basta acreditar", "basta querer", "tudo depende de você" são apenas modalidades de uma ilusão - uma ilusão de propaganda de tênis.

Ela tem um apelo que nos infantiliza, no sentido de que apenas as crianças entendem a realidade com um ato de pura vontade,  pois em certas fases não conseguem diferenciar o mundo interno do mundo externo.

Só quando o universo é visto como uma extensão do ego, só nesse contexto, "tudo é possível".

Jetsuma Tenzin Palmo nos diz que, quando não temos bem claro essa fronteira, não conseguimos lidar com o pesar, tal como as crianças também não conseguem.

"No momento que algo sai errado elas não lidam com suas emoções. Elas gritam e choram, como se alguém as tivesse desmembrando com piças de brasa quente. Mas é só porque elas derrubaram o doce no chão. Elas não conseguem conter o seu pesar como também a sua felicidade e a sua raiva. Suas emoções são despidas de disfarce. E, para nós, a tragédia é que crescemos externamente e por dentro permanecemos com quatro anos de idade."

A pedagogia da vida é também uma pedagogia sobre limites.

Amadurecer significa não permitir que os sentimentos da infância organizem a forma como interpretamos nossas experiências. Significa que temos que aceitar as coisas como elas são e transitar entre nossas frustrações com uma perspectiva mais serena, menos dramática.

Quando se diz que precisamos terminar algo que começamos e nos mantermos firmes em um determinado propósito, isso nada tem a ver com aprovação, aplauso, pódio, ranking e recorde.

A perseverança é um traço de valor intrínseco. Uma assinatura que não pede resultado.

Apenas atitude.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Pedido de Desculpas

Como todo mundo sabe, corre muita eletricidade nas redes sociais depois de um Ironman.

Invariavelmente, o tema é vácuo ou doping.

No último domingo, essas questões vieram a tona novamente.

Um texto de agradecimento do Fellipe Santos no Instagram provocou uma discussão sobre o assunto no Ironbrothers.

O Fellipe escreveu "(...) fiquei entre os líderes até o km 90 onde tive que parar pois tive um problema com minha lente de contato e troquei para seguir na prova, nessa parada um grande grupo perseguir alcançou, entrei nesse grupo e fui até o fim do ciclismo.""

Em um tópico que  o Max criou na sua página do Facebook,  o mesmo Fellipe afirmava que não tinha se dopado ou entrado no vácuo de nenhum triatleta.

Assim,

"Max posso também passar aqui para vcs que eu e o Luis Ohde (segundo e primeiro amador) fomos pro exame antidoping e que o vácuo também não esteve presente"

No Ironbrothers, um grupo fechado, fiz um comentário sobre os dois textos em meio a uma discussão sobre o assunto.

Escrevi eu "Estava lá no Max e esse menino ai de cima disse que não se dopou e não pegou vácuo. Como ele consegue escrever duas coisas contraditórias quase ao mesmo tempo? No idea."

Ao apontar uma suposta contradição do discurso do Fellipe em dois momentos diferentes, na junção das  coisas sugeri doping. 

Em seguida, ele entrou em contato comigo e mostrou uma atitude que vejo em poucos.

Fazendo apenas uso da boa educação, me fez ver como meu comentário foi ligeiro e leviano - não importa se intencional ou não.

Foi uma enquadrada dura e merecida.

Não gosto de morrer abraçado aos meus erros e peço desculpas ao Fellipe da forma mais pública que alcanço - se pudesse, pagava um anúncio no Mundotri.

Pois se é correto dar publicidade quando se acerta, não vale esconder os erros quando eles aparecem - mesmo nas redes fechadas, apenas porque ali ficariam a boca pequena.

Em tempo: ao dizer que "entrou no grupo" ele me esclareceu que se referia apenas ao fato de ter acompanhado o pace triatletas que passaram por ele quando retomou a prova. Todos foram acompanhados por uma moto da fiscalização.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Doping: vale a pena denunciar?


Essa semana circulou pelas redes sociais a foto de um pote de Oxandrolona, cujo rótulo expunha o nome de um famoso médico especializado em esportes que atende vários triatletas profissionais e amadores em uma clínica em São Paulo, assim como a farmácia de manipulação que produziu o medicamento.

Para quem não sabe, tal como eu não sabia, a Oxandrolona é um esteróides anabólico utilizado em basicamente três situações: síndromes catabólicas, osteoporóticas ou queimaduras, mas que quando utilizada fora desses contexto tem a função de promover o aumento da massa muscular, potência e força - em suma, doping.

Não é possível identificar o proprietário, mas a farmácia de manipulação que produziu o medicamento se diz especializada em medicina e nutrição esportiva, além de citar um catálogo de convênios com vários entidades e clubes importantes. 

O que levaria um profissional da área de medicina esportiva a receitar um anabolizante para um cliente e este realizar a encomenda em uma farmácia de manipulação especializada na mesma área? 
Por que o site da farmácia foi retirado do ar tão logo o assunto ganhou corpo?

Questões como essa poderiam ser desanuviadas por meio de um procedimento muito simples. A venda de anabolizantes é controlada e a legislação obriga o emitente a fazer duas vias carimbadas da receita com nome e CRM. Uma via fica com o paciente, outra com a farmácia.

Bastaria ao médico comprovar a falsificação da prescrição ou justificá-la, apontando a necessidade do medicamento indicado ao atleta por meio de exames. 

Assunto encerrado.

Mas estamos longe disso.

Casos como esses têm enorme repercussão frente a fortes indícios do crescimento do doping no triathlon, sobretudo entre os amadores. 

Uma pesquisa  realizada com cerca de três mil triatletas inscritos no Ironman de Frankfurt, Regensburg e o 70.3 Wiesbaden deram resultados alarmantes: 13% dos inscritos admitiram o uso de esteróides, EPO e hormônio do crescimento e outros 15% consumiram o consumo de anti-depressivos, beta-bloqueadores entre outros.

E não parece haver solução de curto e médio prazo. O controle de doping é raro e seletivo fora das modalidades olímpicas, voltado para os profissionais e quase inexistente entre os amadores.

Nesse contexto, parte das informações sobre doping têm origem em denúncias divulgadas em redes sociais abertas e fechadas, mas sobretudo nessas últimas. O caráter sigiloso ou anônimo da denúncia, mesmo que nem sempre possa ser justificada, é de fácil entendimento.

Aqueles que dispõem de informação e se propõe a enfrentar o problema podem sofrer as consequências da "judicialização da censura", isto é, uma ameaça que se impõe a liberdade de expressão por meio da intimidação judicial. Para muitos, o medo de ser processado acaba levando a autocensura, mesmo que frente a necessidade de que todos tenham conhecimento sobre o comportamento de atletas, técnicos, nutricionistas e médicos que fazem uso desses recursos. 

Essa situação não se limita apenas aos indivíduos. Há os que argumentam que  atletas pegos em exames de anti-doping não têm seus nomes divulgadas por receio de organizadores arcarem com os custos de processos judiciais. As Revistas Eletrônicas apenas repercutem casos comprovados pela mesma razão.

De fato, frente a justiça a relação denunciadores-denunciados não é simétrica, pois se denunciadores podem incorrer nos chamados "crimes contra a honra" e sofrerem as consequências de processos penais e civis que incluem calunia, injúria e difamação, por outro lado o doping não é um ato passível de uma ação criminal.

Como o doping exige um processo complexo de comprovação, opera-se uma inversão de valores: a justiça é utilizada para blindar infratores ao mesmo tempo que intimida pessoas que mostram preocupação com erradicação do uso de substâncias ilícitas.

O resultado é uma situação de conforto para que médicos e nutricionistas suspeitos transitem em meio ao triathlon com grande desenvoltura. 

Não raro, apresentam-se em conjunto com seus clientes mais conhecidos, mostrados como "cases de sucesso", e investem na imagem de promotores saúde e bem estar. 

Só que não causa espanto a você que indivíduos sadios sejam habitués de consultórios médicos a procura de tratamento hormonal? 

Mas novas abordagens sugerem que os envolvidos com doping podem ser enquadrados em crimes contra a saúde pública quando em situações tipificadas como estelionato, fraude ou o uso de drogas ilícitas. Segundo seus defensores, o doping extrapola a dimensão da ética e da concorrência esportiva, já que a saúde é um direito humano que deve ser resguardado e protegido pelo Estado.

O cidadão que dispõem de indícios ou sofre com as consequências do doping deve acionar a Delegacia de Repressão contra a Saúde Pública nos estados onde ela existe, e abrir inquérito criminal no caso de falsificação ou venda ilegal de suplementos, substâncias ou falsificação de exames antidoping. Em São Paulo, há o Departamento de Policia de Proteção a Cidadania, que opera por meio de duas delegacias especializadas.

Caso as investigações gerem documentação consistente, os delegados encaminham os inquéritos para o Ministério Público ou o Poder Judiciário.

É necessário dizer que o cenário de uma queixa explicita seria mais justo com aqueles que são denunciados nas redes sociais,  pois a ausência de uma denúncia formal não lhes dá meios de se defender. A reputação é um direito a ser protegido  - e não apenas a dele, pois tanto seus clientes como as entidades com as quais esse profissional se relaciona passam a ter a chaga da desconfiança pública.

Do ponto de vista dos consumidores, ainda que as políticas anti-doping possam ter caráter punitivo, tais medidas visam proteger esses mesmos atletas, amadores ou profissionais, de situações de risco. 

Conforme aponta Fernando Mussa, Professor de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina de São Paulo, trata-se de uma questão mais geral. Diz ele, "Essa corda bamba entre o risco pessoal e a glória desportiva, inerente ao esporte, deve ser cuidadosamente trilhada. Isso sob pena de condenarmos nossos atletas a servirem de verdadeiras cobaias humanas para os mais diversificados experimentos farmacêuticos e nutricionais voltadas à melhoria da performance humana nos diversos tipos de esportes".




terça-feira, 7 de abril de 2015

70.3 de Brasília

Ano após ano, não é muito novidade uma prova longa antes do Ironman.

Mas esse foi diferente.

Primeiro, porque "estamos sob nova direção" e optei pelo Sergio Borges como novo técnico. A escolha foi coerente com a minha história com o Ironguides, já que ele é da mesma escola e tem alguns valores que eu gostaria de manter.

De outro lado, gosto da perspectiva que o Sergio agrega no que tange ao trabalho fora das três modalidades do triathlon e que me parecem importantes a cada momento que fico mais velho: mobilidade, força, integridade e alongamento.

Essa adaptação tem sido difícil. Tive que incorporar mudanças de hábitos e passei várias semanas pagando o preço pela musculatura fraca e desequilibrada com recorrentes dores pelo corpo. Uma leve seção de fortalecimento ou funcional pela manhã me impedia de treinar a noite ou no dia seguinte.

Em segundo lugar, depois de cinco anos consecutivos troquei o Longo de Caiobá pelo 70.3 de Brasília.

Ano passado Caiobá era uma prova melhor por conta do calendário, já que ficava um pouco mais distante do IM de Florianópolis e, em tese, era uma prova menos dura (em tese).

E sou fã de Caiobá. Fã.

Mas vou dizer: também gostei de Brasília, viu?

A corrida é desafiadora, o Lago Paranoá é perfeito para nadar e o pedal tem as referências urbanísticas da cidade no trajeto.

A sensação é de que você está pedalando dentro de um cartão postal.

Alimentação

Cheguei em Brasília pesado, mas sem a sensação de que estava acima do peso.

Não costumo subir na balança, mas dois dias depois da prova eu estava com quase 88 quilos - quatro a mais do que o IM de Fortaleza, em novembro passado.

Em nada mudou a alimentação nesse período e estou quebrando a cabeça para entender o ganho de massa muscular nessa proporção.

Acredito que a maior ingestão de proteína e os treinos um pouco mais carregados em intensidade e força explicam alguma coisa, mas vamos ver se o mesmo peso se mantém na etapa final de preparação para o IM de Florianópolis.

Meu ritual para essa prova foi idêntico ao Challenge no que tange aos dias que antecederam a prova, isto é, apenas açai  e um pouco de batata doce na véspera.

Já na prova, na ponta do lápis foi assim: um gel, alguns goles de bebida esportiva fornecida pela organização nos postos de abastecimento no pedal (que continua a ser repassada em garrafas fechadas) e dois outros goles de refrigerante na corrida.

A Prova

Lendo alguns relatos e lembrando dos toques do Daniel Blóis, eu já esperava uma certa pancadaria no início da natação.

Não entra na minha cabeça porque o Ironman não implementa, assim como fez o Challenge em Florianópolis, a saída por ondas.

O Lago Paranoá é perfeito em extensão e largura, mas não tem como esperar mais de mil pessoas se dirigindo para uma mesma bóia sem se esbofetearem - pelo menos se forem triatletas.

Tenho convicção de que, tirando-se encontrões e braçadas involuntárias, 90% dos contatos que ocorrem na água poderiam ser evitados.

O problema poderia minimizado, se:

As pessoas não nadassem com a cabeça enfiada na água cruzando a frente de todos várias vezes; não parassem no meio do turbilhão perto da bóia e, ao sair, dessem aquele coice típico de nado de peito; não estacionassem a cada 50 metros para ver se localizam a bóia.

Eu entendo a angústia de se perder, mas você já viu algum peixe parando no meio de um cardume para ficar procurando o caminho?

O inicio da natação de um triathlon é assim.

Tal como a experiência de pegar metrô ou trem em horário de pico, a multidão na plataforma te leva para dentro vagão.

Caso não esteja na esteira de outro nadador e se sinta inseguro no meio daquele povo todo, marque alguém que está nadando ao seu lado a alguns metros de distância.

Caso os dois comecem a se aproximar, ou ele ou você estão se desalinhando. Se for você, olhe para frente para se reposicionar um pouco.

A partir do retorno, quando aumenta a dispersão, ai sim é necessário ter mais cuidado porque arrisca-se entrar em um grupo que errou a rota - e isso realmente pode acontecer.

Na natação, por motivos que desconheço, meu braço direito derreteu antes de alcançar a primeira bóia. Mesmo considerando que a água estava "mais pesada", não era para ter acontecido isso, já que estou treinando muito com palmar.

Completei a natação com 38 minutos e sai cansado para a transição - que por sua vez durou mais do que eu queria.

Porque também cometi um erro bobo.

Deixa eu te falar sem medo de ser sexista - quando a prova tiver Wet Strippers, aquelas pessoas que te ajudam a tirar a roupa da borracha, vai em cima dos manos e foge das minas.

Foge.

Ah, mas e se for uma gata?

Foge.

Se for a Dani Bolina

Foge.

E se for a Giovanna Ewbank

Ai você pára e pensa....

A menina que ia tirar a minha ficou preocupada com o cara que ela tinha ajudado porque o sujeito começou a ter cãibras. Tudo bem que foram apenas alguns segundos, mas sabe quando você faz uma chamada pelo celular e já coloca no ouvido, só que ele ainda tá fazendo a discagem?

Parece uma eternidade.

Quando se voltou para mim, aconteceu o que eu já esperava: ela não tinha força para puxar a calça e nem jeito.

Mas a culpa foi minha.

Eu ainda não cortei a calça pouco acima do tendão, o que deixa as coisas bem difíceis. Ai é necessário enfiar o dedo e puxar pelo calcanhar.

Com a molecada você nem precisa explicar: os caras te dão um sarrafo, você cai no chão e nem percebe quando a roupa está na mão deles....

O Pedal e a "Inevitabilidade" dos Pelotões

A natação azedou a minha prova. E não foi pelo tempo perdido na água.

O fato é que fiquei com medo continuar sofrendo em cima do selim.

Na estratégia de prova, o Sergio tinha me pedido ritmo progressivo. Então decidi ir tateando o percurso aos poucos porque não me senti na obrigação de ir com tudo.

Fechei com o tempo de 2:43, mas seria possível ser coisa de dez minutos mais rápido se eu tivesse me arriscado mais.

Mesmo assim, ficaria bem abaixo dos caras da frente - muitos dos quais se embrenharam em pelotões.

Em Penha, para usar um "titês fatalista", a desculpa era a inevitabilidade da falta de espaço.

E agora? Alguém vai me dizer que faltou espaço naquelas vias gigantes de Brasília?

Tirei os tempos de alguns enfiados em pelotões ou fazendo jogo de duplas em fotos que não são minhas (e, portanto, não posso disponibilizar) - a  maioria pedalou na casa dos 2:20.

Triathlon é um esporte estranho. Você imagina os organizadores da Maratona de São Paulo contratando fiscais para punir corredores que cortam caminho?

A Latin coloca fiscais cujo custo está embutido no preço da inscrição e diz que a responsabilidade é dos atletas.

Algo como se você contratasse juiz e bandeirinha, mas dissesse que a palavra final é dos jogadores que cometem falta.

O 70.3 Brasília virou campeonato Latino-Americano e não pega bem a malemolência com o assunto.

Até o momento a Latin mas não distribuiu lista ou qualquer estatística sobre punições.

E, para minha angústia,  não tem panelaço sobre o assunto.

Outro dado é eu estava louco para ver a potência, mas na hora o Garmin mandou a seguinte mensagem: "erro 102" e travou. Tive que fazer o percurso de Bike como se estivesse na T2.

Quando cheguei em casa o monitor apontou uma atualização critica do software.

Tudo bem.

Já passei por isso antes e três voltas nos dão referências mais que suficientes para trabalhar com a percepção.

Mas, pô, atualização justo no dia da prova?

A Corrida

Sair correndo depois do pedal não é um problema - ou não tem sido nas últimas provas.

Acho que é tanto treino de transição que tem uma hora que é tudo um troço só e não sei mais se estou nadando, pedalando, correndo....

Você parte da transição em sentido contrário a saída para o pedal e dá de cara com uma ladeira que vai inclinando, inclinando, inclinando...

Depois você desce e, óbvio, tudo que você desceu sobe de novo até entrar em um parque (eu acho que era parque) cheio de falsos planos.

E se faz isso três vezes.

Foi um bom teste. Estou fazendo treinos em subidas a fim de correr com o tronco relaxado e usar o core, a musculatura do posterior e do glúteo.

Apesar da vontade de desistir quando se olha aquelas malditas placas que marcam a quilometragem da segunda e terceira voltas e a gente está ainda na primeira, consegui  ir em frente e correr forte nos últimos 3K.

Deu para fazer 1:55, mas se não tivesse entrado uma chuva leve, sei não....

Fechei a prova para 5:24.

Quem tiver interesse nos dados, os dados são esses:

https://connect.garmin.com/modern/activity/738413809

Em resumo....

Não são poucas às vezes que um 70.3 dá o que pensar.

Para alguns, trata-se da primeira vez em que se arrisca na conquista da distância, enquanto para outros o que está em jogo é uma vaga do mundial - e para poucos são as duas coisas ao mesmo tempo.

Para quem está perto do Ironman, trata-se de um pré-teste para acertar a alimentação, o pace ou mesmo detalhes do bike-fit.

Tudo isso, claro, na teoria.

Porque lá dentro ninguém quer saber quem quer o quê ou quem é quem e todo mundo faz força do começo ao fim.

Mas, pelo menos no meu caso, bom ou mal desempenho nessa etapa não têm qualquer relação com o resultado posterior do Ironman.

Só que sempre sou assombrado pelo medo de sofrer.

Entenda-se por isso o receio de quebrar muito cedo e fazer o restante da prova penando para dar braçadas, empurrar o pedal ou continuar correndo.

E em Brasília isso rolou - ter saído da água do jeito que eu sai me empapuçou da prova quando ela estava apenas no inicio.

E no Ironman as distâncias, que já são cavalares, parecem duplicadas quando a mente se esforça por perseverar e não consegue.

Não é a primeira vez que falo sobre isso - e acho que nem será a última.

Porque a gente convive com um paradoxo: não há dúvida que, ceterius paribus e tudo nos conforme, podemos dar conta da distância em velocidade de cruzeiro - e ao mesmo tempo isso não basta.

Não doeu? Então dava para ter sido mais rápido ou ido mais longe.

O limiar entre a dor que é medida do empenho máximo e a dor que te faz desistir é o aprendizado mais difícil de ser alcançado pra mim.

E eu ainda não me sinto nem perto de chegar lá.


sábado, 14 de março de 2015

Precisamos de profissionais?

No momento em que a WTC suprime a disputa entre profissionais em algumas etapas do Ironman e organizadores americanos cancelam prêmios para a categoria na distância olímpica, a Triathlon Magazine Canadá levanta a seguinte lebre Do Wee Need Pro Athletes?.

Bem, se lá fora a questão para os pro não tem resposta pronta, aqui as pessoas engatam o câmbio automático e trocam de marcha sem pensar.

Em uma dessas discussões em fóruns sobre a demora em que algumas provas sofriam para completar a lista de inscrição, não foram poucos os que levantaram que o fato tinha explicação na presença de poucos profissionais.

Será?

Não conheço ninguém que deixou de reclamar do preço da inscrição olhando para a elite que estaria no evento; acho raro alguém comprar acessórios ou equipamentos simplesmente porque viu um pró usando; não tenho amigos que procuraram um profissional porque "aquele" ou "aquela" pro frequenta o consultório.

E quantas vezes os pro dão entrevistas falando que a prova "foi maravilhosa" quando atletas amadores relatam casos de atropelamento?

De onde vem essa alienação em relação a evento como um todo?

Talvez por isso, a aceitação de uma pessoa da elite está muito mais associada a forma como ela interage socialmente do que por ser atleta que disputa os prêmios nas provas oficiais.

Mas faz falta uma maior interação?

Faz.

Um dia uma amiga, nova e muito talentosa, estava em falando da angústia de escolher um quadro - pensei imediatamente que ela poderia falar com uma profissional que sempre está presente nas redes e coisa e tal.

Só que ai me dei conta que esses canais são construídos pelo convívio e ela não tinha ainda o seu círculo de amizade no triathlon.

Ou seja, os atletas de elite são vistos como pessoas acessíveis apenas para quem dá sorte de frequentar esses circuitos ou pertencer a certas panelas.

Não é a toa que as vezes a pessoa se arrisca escrever para a Chrissie Wellington do que para algum brasileiro que largou na elite no IM de Florianópolis.

E vou dizer: os gringos respondem.

É provável que muitos sejam pessoas tímidas. Outros, preferem um grupo de discussão mais reservado e há ainda aqueles dispõem de pouco tempo para terem uma interação mais frequente por serem donos de assessorias e atletas competitivos ao mesmo tempo.

Mas a competência de se comunicar é importante para alguém que almeja a construção de uma imagem.

E se comunicar não é só uma questão de empatia natural - isso se aprende.

O risco é as pessoas lerem mais blogs como o meu por não encontrarem relatos de prós contando a experiência que só eles possuem.

Pior: há o risco da elite perder a importância.

E isso de alguma forma já acontece - pelo menos do ponto de vista econômico.

Um dos argumentos que contariam a favor de uma elite seria a exposição que esses proporcionam para as empresas de material esportivo.

Mas o roda já girou e as empresas já arrumaram formas de aparecer sem meter a mão no bolso.

Não que sejam lá grande coisa. Vender equipamentos a preço de custo e dar pares de tênis avulsos como cota de patrocínio é como se você fosse professor e ganhasse giz como salário.

As empresas usam a raspa do tacho dos produtos de prateleira e distribuem entre os amadores - cedem produtos como a tênis, uniforme, suplemento, capacetes e um mundo de coisas com cara de amostra grátis que nada, nada....não é nada mesmo.

E a Internet é um prato cheio para isso e várias pessoas perceberam essa oportunidade  - e, vale dizer, alguns conseguem fazer coisas com muita competência.

Já tomei aula dada por amadores em porta de loja sobre estratégia de marketing nas redes que não tem nada de "amadora". Fazem relatórios com estatísticas de "likes" contabilizadas diariamente para certos grupos de apoiadores, o que lhes franqueiam suplementos ou mensalidades gratuitas em academias.

Já outros são da categoria "amador celebridade" que vive, basicamente, de tietagem.

É o caso típico daquela figura do Instagram cujo número fotos e de seguidoras é inversamente proporcional ao número de provas realizadas e tem uma linha de comentários que se resume a coisas do tipo "Sua linda!".

Um dia, uma amiga vendo as manifestações sobre politica na Internet olhou para mim e disse "Você viu quantos jovens? As Paquitas cresceram....""

Cresceram e algumas delas foram fazer triatlhon.

Preenchem a Internet com alguns flashs da sua rotina de treinos,  como fotos de toquinha no vestiário da academia, selfies no elevador com hastgs #nãodesistadoseusonho e caretas estranhas em cima do rolo ou de frente para o espelho.

A princípio, tirando o inchaço do merchandise de rede social, esses dois tipos não fazem mal a ninguém.

Só que também não trazem benefício nenhum.

Caso você precise ver uma foto para se motivar a correr no Ibirapuera, vá lá.

Mas se tem a necessidade de discutir se compra um medidor de potência ou um quadro específico, não é ali que você vai achar informação sobre o assunto.

Outra questão que emparelha os profissionais contra o muro é que os amadores têm mudado o foco do pódio para a valorização dos novos estilos de vida.

Em razão da falência das entidades em coibirem o vácuo e o doping, muitos triatletas estão desembarcando do "sonho de Kona" e elegendo novas referências.

Hoje veganos estão mais interessados em triatletas veganos do que o primeiro colocado no Ironman ou os cinco classificados para o campeonato mundial da faixa-etária. Outros ficam de olho em atletas diabéticos ou que apresentam intolerância ao glúten porque se identificam com esses grupos.

Ao cuidarem melhor de si, esses atletas estão descobrindo um novo padrão de alimentação e construindo uma nova cultura do bem-estar, com benefícios generalizados para todos, mesmo para aqueles que não apresentam qualquer tipo de deficiência.

Por tratar-se de um movimento recente, a interação é mais intensa e muito bacana, pois o entusiasmo leva ao desejo por mais mais interlocução. Além de estarem interessados nos treinos, sugerem livros, discutem textos e indicam sites especializados.

No exterior essa tendência já é nítida entre triatletas e ultramaratonistas, seguidos por milhares de pessoas e patrocinados por uma indústria de pequenos empreendimentos com foco em produtos e serviços para esse segmento.

No Brasil vale citar a percepção e o esforço pioneiro do projeto "Triathlon sem Glúten", do Wladimir Azevedo.

Diferentemente de triatletas que falam sobre nutrição para fazer propaganda disfarçada de produtos e lojas de suplementos, o Wlad explora de forma transparente um nicho com uma mensagem clara - ser celíaco não significa que sua vida acabou e está ele ai, um Ironman, para mostrar isso.

São essas pessoas que levam mais gente ao esporte, que catalisam a empatia de um público mais amplo e contribuem para o crescimento do triathlon.

Ao que surge, não tenho resposta para a pergunta do título do texto - mas sei que há coisas novas por ai e a gente precisa estar atento para se reinventar.




quarta-feira, 4 de março de 2015

Duas palavras sobre os Preços das Bikes

Existem certas discussões em que apenas passo os olhos para não ter que tomar antiácido depois.

São aquelas com dois pontos ligando nada a lugar nenhum: começa com um raciocínio falso de tiro curto e fecha com um arrazoado que tenta dizer o que já foi dito antes, só que de outro jeito.

No amontado de posts que se reverberam mutuamente, todos têm a impressão de estarem assentados sobre uma verdade consolidada e bem conhecida - mas na verdade é só um monte de gente falando a mesma coisa.

Tema encardido como preço de bike é assim.

Só que piora quando o assunto gira em torno das facilidades que o governo dá para as pessoas terem carros e as dificuldades que ele cria para terem bicicletas.

A palavra impostos entra nesse escaninho, já que se pressupõe que no cômputo geral o preço da bicicleta é uma conta alta e que culpado mesmo é o governo - sei lá qual, mas "o governo".

Coloco duas questões para você.

Os impostos que incidem sobre a produção e venda de bicicletas é realmente maior que o incentivo dado para a compra de automóveis?

Isso, um.

Dois,

O preço da bicicleta é a variável mais importante para que as pessoas possam adquirir a sua?

Os impostos

É muito comum as pessoas comentarem sobre impostos mimetizando o que veem na imprensa. É de lá que vou pegar o seguinte trecho,

"A falta de incentivo fica claro na comparação do IPI: a alíquota do tributo federal é de 3,5% para os carros populares, contra 10% para as bicicletas produzidas fora da Zona Franca de Manaus (ZFM, onde a há isenção, mas que produz apenas 21% do total do pais).

Com isso, o Brasil tem uma das bicicletas mais caras do mundo".

O Brasil é o terceiro produtor mundial de bicicletas e com um parque de 60 milhões de unidades - contra coisa de 40 milhões de veículos.

Uma imagem das "Bicicletas mais caras do mundo"


Sendo tão caras, como se vê tanta bicicleta na mão de pessoas pobres que não têm transporte público ou carro?

O pessoal da foto ao lado tem cara de rico?

Ou são os meus olhos?

Os dados da Pesquisa de Origem e Destino do Metrô diz seguinte: no município de São Paulo, 60% das viagens de bike na cidade são realizadas por pessoas que ganham até três salários mínimos.

Há outras coisas que me deixam intrigado.

Que contabilidade é essa que pula IPI para os preço final sem falar sobre lucro de quem produz, transporta e comercializa as bicicletas?

Imposto e....pá: a bike mais cara do mundo!

É fácil ganhar leitores falando mal de impostos.

Imposto e banheiro químico é coisa que não se discute.

Mas vejamos se pelo menos nisso o material que temos em mãos é coerente.

Chama a atenção o motivo pela qual a comparação se faz com os carros populares e deixa-se de lado outras categorias cujas alíquotas são bastante superiores, variando entre 9% e 13%.

Pensei, "Provavelmente porque os populares compõe a maior parte da frota no pais".

Todavia, pesquisando, vi que os carros populares não são tão "populares" quanto se imagina e correspondem a apenas 26% das vendas.

Por que cáspite a matéria relativiza a importância das bikes da Zona Franca de Manaus por representar 21% da produção nacional e destaca os carros populares se esses abocanham nada muito superior?

E você mesmo pode ter notado que existem outras coisas estranhas.

Onde foram parar outros tributos que proprietários de automóveis pagam, como o IPVA, taxa de licenciamento e DPVAT?

Tô sendo muito chato?

Talvez essa comparação tenha a mão boba do jornalista, alguns lapsos e, noves fora, não há de haver dúvidas que o núcleo da reportagem esteja certo. Não importa a comparação com os carros populares, o IPI é ainda assim alto.

O que aconteceria se mudássemos as alíquotas do nosso malvado preferido?

Pouco.

Na média, os tributos que incidem na formação dos preço das bicicletas tem a seguintes distribuição:

ICMS: 18,0%

IPI: 10,0%

Contribuição Financeira sobre Contribuição Social: 8,6%

Contribuição do PIS/PASEP - Importação: 1,6%

IPI pra cá, IPI pra lá, ninguém parou para verificar que esse imposto representa cerca de 1/4 dos tributos.

Para o leitor que ainda não me deixou falando sozinho, cabe ainda se perguntar os motivos pelas quais os empresários não se mandam todos para para Manaus, onde a produção é subsidiada.

Porque contabilidade criativa não é apenas coisa do governo.

No Brasil, as alíquotas para a venda de componentes são mais baixas que as de bicicletas montadas.

O que fazem as empresas?

Elas comercializam as ditas cujas prontas, só que informam a receita que estão vendendo partes.

Ou seja - o sujeito te cobra o que ele sonegou.

Isso corresponde a 40% da produção de bikes fora da Zona Franca.

Tá com dó dos empresários? Leva para casa....

Bikes e Importação

Adoro esses quadros, pois você olha e está tudo lá: os impostos de importação têm alíquotas de 35% para a compra de bikes.

Só que antes de fazer carnaval, um alerta: isso não significa nada.

Falta outro dado nesse quadro: 97% das bicicletas no pais não pagam imposto de importação porque são produzidas aqui.


Bike importada só aparece assunto relevante em rede social porque triatleta e ciclista fazem muito barulho em torno do assunto.

E por que o imposto de importação é o que é?

Ao contrário do que os consumidores mimados pensam, o objetivo não é impedir que o sujeito compre uma bike do estêites porque o governo  gosta de fazer maldades gratuitamente.

A governo busca a preferência do Mercosul frente a China nesse mercado (disparado, o maior produtor mundial de magrelas) ao mesmo tempo que tenta frear a entrada de componentes da indústria desse pais no Brasil (ver o caso das resoluções antidumping no caso das pedivelas em 2013 e pneus para bikes em 2014).

Vale lembrar que o Brasil é o terceiro maior produtor mundial de bicicletas e tem certas ambições nessa área.

Como quem opera a política está de olho em uma escala que envolve, por baixo, 60 milhões de bicicletas, é ingenuidade achar que a política dessa área vai mudar porque queremos fazer o IM de Fortaleza como uma bike nova ou comprar pneus específicos para triathlon.

Deixa eu te dizer porque eu esqueci - bikes de competição, essas que nós usamos, representam apenas 1% do total de bicicletas no país.

E aqui se coloca o seguinte:

Vamos dar subsídios para um segmento em um pais onde o sujeito ganhando 5,5 mil reais mensais está bolo dos 10% mais ricos? Segmento que, por sua vez, concentra 42% de toda a renda?

Para comprar bicicleta que podem custar 10 mil Obamas?

E, sabe o que eu acho divertido: o fulano pede isenção para comprar bicicleta desse porte e mete o pau no Bolsa-Familia porque chama o programa de "assistencialista".

Assistencialismo para rico, pode?

Em resumo, não vou ser eu aqui que vou dizer o quê é o quê no preço da bike.

Tem gente que vai dizer que é 80%, enquanto outros um tanto mais cuidadosos chegam a 45%.

Há muitos modelos diferentes, os tributos não são homogêneos, as alíquotas de impostos variam no tempo, variam nos estados e existem encalacrados que só com muita mandrakaria você vai conseguir chegar a uma conclusão.

Mas dizer que a bike no Brasil é a mais cara do mundo e jogar a culpa nos impostos usando números dessa forma é uma ginástica que acredita quem quer.

A reportagem completa você pode ler aqui e o estudo em que ela se baseia, .

Redução de Impostos ou mais Crédito?

Ninguém discute muito que preços baixos são capazes de incentivar a demanda de bicicletas - ou de qualquer outra coisa.

Só que existem categorias de produtos que, mesmo tendo preços reduzidos, não são baratos frente a renda das famílias.

Bicicletas são considerados bens duráveis, para as quais dois preços são importantes - o preço das meninas e o preço do dinheiro que você irá utilizar para o financiamento.

Como a taxa de juros ao consumidor no Brasil gira em torno de 102% para financiamentos de 12 meses, isso significa que ao financiar sua bicicleta nesse período você estará pagando por duas.

Nesse quadro, qualquer política de incentivo baseada na redução de tributos vai servir apenas para enxugar gelo.

Por isso, muito mais inteligente, seria insistir em linhas de financiamento com juros reduzidos ou mesmo zero.

Mas você já viu alguém discutindo o assunto por esse ângulo no Facebook?

A coisa é sempre imposto, incentivo, imposto, incentivo....

No final, sabe a conclusão a qual eu chego?

Que tá triste.

As pessoas não são nada tímidas para se expressar em voz alta o que elas elaboram mentalmente, exacerbando a confiança no senso comum e mais ainda no que julgam conhecer.

Dá medo pensar que no Brasil a opinião pública, pedindo mudanças, ou pedindo para que tudo permaneça como está, seja tão arredia a aprofundar-se em qualquer coisa.

Se a gente mal consegue discutir preço de bicicleta além do senso comum, alguém é capaz de pensar nas barbeiragens que fazemos em relação a outros assuntos, certamente muito mais importantes.

Ando para lá de desanimado, juro.

E o problema não são as discordâncias, pois é bem provável que eu também erre ou alguém tenha informações melhores ou mais exatas que as minhas.

E se for assim, qualquer um pode se servir desse espaço para corrigir o que foi dito, sem problemas.

O desânimo vem do fato de que parece que não adianta, sabe? As pessoas preferem o silêncio em relação aos fatos que lhes tiram da sua zona de conforto.

Não tenho dúvida que amanhã ao abrir a página do Facebook vou dar de cara com alguém escrevendo pela milésima vez sobre sobre governo, sobre impostos, sobre IPI e as "bikes mais caras do mundo".

Parece um inferno que não acaba.



segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

A pequena servidão

No último ano, dois filmes emplacaram trazendo a tona a temática da escravidão e do racismo nos Estados Unidos: "12 anos de escravidão" e "Um Mordomo na Casa Branca".

Caso fosse apenas um filme que registrasse de forma intensa a violência brutal imposta aos negros durante a escravidão, o filme não seria uma novidade. Mas 12 anos de escravidão é mais do isso: mostra as terríveis consequências de se viver em um mundo em que você pode desaparecer subitamente, ficando subordinado a vontade de quem em um átimo é capaz de lhe retirar toda a humanidade.

Por esse prisma, o filme tem uma mensagem universal, pois retrata a vulnerabilidade dos que foram (e são) alvos do arbítrio de um grupo em qualquer tempo e em qualquer lugar.

Já "Um mordomo na Casa Branca" acentua uma violência de outro tipo, isto é, a submissão sócio-cultural dos negros na argamassa que serviu de base para a construção da identidade dos Estados Unidos como nação.

Ainda que sujeito a todo tipo de critica que é comum (e justa) aos Blockbusters, trata-se de uma boa história sobre um homem que encaminha a vida de maneira relativamente bem sucedida na sociedade de classes americana da forma que era possível - sendo um negro doméstico.

Desde cedo o personagem de Forest Whitaker aprende que "para sobreviver entre eles" a regra de vida mais importante era o aprendizado de existir sem ser notado - coisa que talvez cause estranheza em nossa experiência atual, já que os indivíduos hoje querem ser notados antes de existirem.

"Você tem que apenas entender e antecipar o que eles querem. Você não ouve nada, não entende nada, apenas obedece"

Ao longo do filme presenciamos os momentos mais importantes da vida americana na luta contra o segregacionismo em vários estados americanos - e não são poucos os momentos em que você fecha o punho, tal como a cena da lanchonete, em que jovens brancos e negros são humilhados física e psicologicamente por recusarem a aceitar a segregação dentro do estabelecimento.

Mas uma das coisas que eu tenho a oportunidade de notar é que a nossa indignação fica na sala de projeção; temos uma profunda capacidade de empatia vendo um filme, mas ela não é capaz de mudar nossa percepção do que ocorre a nossa volta.

Um sábados desses, eu no mercado com poucas embalagens coisas me dirijo a fila para clientes com até 15 volumes. A minha frente, uma senhora passava suas coisas pelo caixa e questionava se as promoções estavam corretas - sem se preocupar muito com a pressa, olhava mercadorias perto do caixa a procura de outras ofertas.

No carrinho dela, entre compras como água, carne, biscoitos e refrigerante, havia pelo menos 12 alvejantes - ou seja: não era necessário usar os dedos para contar mais volumes do que era permito.

Na minha vez, perguntei a menina que estava no caixa por que ela teria atendido a senhora, já que ela não devia estar naquela fila, "Ela disse que não havia ninguém foi me passando as coisas. O senhor sabe, eu não posso dizer nada porque sempre sobra para gente".

A funcionária do estabelecimento pertence a um grupo demográfico muito comum - uma jovem
a provavelmente ensino médio e filhas de migrantes, mas nascida em São Paulo.

Já a senhora era a descrição viva da chamada "elite branca" paulista, mais especificamente a espécie tradicional que reside aqui na Zona Norte e cuja figura me lembra em tudo as chamadas "Senhoras de Santana" da década de 80.

Caso alguém tenha dificuldade com categorias sociais e ache que "elite branca" ofende, recomendo um exercício mais simples: observe o perfil das pessoas alocadas na sua empresa em funções precárias ou de terceirização.

Observe os garis, porteiros, entregadores, vendedores ambulantes, motoristas, ajudantes, pedreiros, empacotadores, seguranças, chaveiros, frentistas, encanadores, serventes, lixeiros, eletricistas, caixas, estoquistas, costureiras, atendentes, garçons, motoboys, carteiros, manicures entre tantas outras semelhantes.

Não bate um certo estranhamento que pessoas sejam pagas para limpar o banheiro da sua empresa, chamadas de "tiazinhas", tenham histórias de vida tão parecidas e tonalidade de pele idêntica?

Decorrente do fato de você ter vindo ao mundo e encontrá-lo já assim, é provável que ache isso comum, resultado de um processo de seleção natural que cataputa os mais fortes para a cabeça da hierarquia social por seus próprios méritos.

Ou então que é apenas o tal "cerumano" explorando outro "cerumano".

Um amigo, Miguel Matteo, me contou uma experiência que ele viu em Roma no tempo em que morou lá.

Vale a pena narrar aqui.

Um casal de brasileiros chega em uma loja e o marido insiste que a mulher deveria levar um vestido.

A mulher recusa. O marido insiste várias vezes. A invés de simplesmente dizer que tinha preferência por outro modelo, a mulher começa então a dar um apanhado sobre os problemas do tecido, da cor e do caimento do vestido que o marido tinha gostado.

Nesse momento, o vendedor se dirige a ela e comenta "Minha senhora, caso não queira levar a peça, basta conversar com o seu marido sobre as suas preferências e as dele - mas, por favor, não coloque defeitos que não existem na peça porque ambos não sabem lidar com discordâncias".

Em sociedades em que o liberalismo tem algum fundamento em termos de igualdade, as relações comerciais têm dimensão apenas econômica, isto é, não há conotação pessoal entre quem oferece e quem compra mercadorias e serviços.

Você apenas compra algo e esse "algo" não lhe dá o direito de agir como um "senhozinho" sobre os funcionários da loja.

Mas isso lá.

Já em um lugar onde o marketing se mistura com os hábitos herdados do passado escravista, dá um bicho diferente.

A idéia do "cliente sempre tem razão" em estabelecimentos comerciais não raro se traduz em outra de igual valor: "a elite sempre tem razão".

Mas a dita elite não se vê assim. Como é pouco instruída e não tem noção do seu papel, acha que já basta ser benevolente para ser socialmente relevante.

Por isso ela fica um pouco confusa e revoltada quando diz que não é "contra os pobres" - já que até tem alguns dentro de casa.

Quando se discutia a PEC das Domésticas, coisas assim vieram a público.

"Minha babá veio com um história sem pé nem cabeça, de que eu estou devendo todos os feriados em dinheiro, porque existem lei agora, onde ela tem esse direito. Estou meio tonta com atitude, decepcionada com a falta de educação e gratidão por tudo que fiz por ela, mas gostaria de saber se sou obrigado a pagar. Quando achamos que estamos com uma babá ótima, lá vem bombas!"

Por que a família de classe média quer se ver como uma entidade cheia "ternura" no espaço doméstico e retrógrada quando falamos em posições sociais mais compatíveis com o século XXI?

Porque a subordinação pessoal ainda lhe agrega privilégios econômicos invisíveis, não obstante bem concretos.

Ela se beneficia dos serviços da empregada como "ente da família"- assim como da da manicure, do pizzaiolo, do motobói ou o sujeito que fica na grelha na churrascaria - porque o trabalho informal lhe proporciona serviços baratos e, consequentemente, um padrão de vida bem acima do que a renda delas lhes permitiria em outros países.

Como dizem dois ex-professores meus, "A subida da renda os serviçais é contraditória com o nível de vida relativamente alto dos remediados".

Mas a benevolência sentimental tem tiro curto, pois quando as contas não fecham o que vinga é o pragmatismo da calculadora financeira. Ainda que ame ficar batendo o papo com os funcionários do prédio enquanto espera o neto chegar na van, esse é primeiro grupo a qual quer ver achatado quando há discussão sobre corte de despesas no condomínio.

E por isso prefere "adotar" a empregada doméstica, dar gorjetas em estabelecimentos comerciais e esmolas na rua.

E como é um poço de desconhecimento sobre história, acha que as disputas distributivas entre as classes ocorrem porque aquele senhor barbudo e o partido dele querem implementar o tal "bolivarismo comunista" no Brasil.

Aqui logo se nota o estrago do primário mal feito no retrovisor de quem se julga algo mais apto a tomar decisões políticas que os outros.

O que esses tontos não são capazes de ver é que essa escandalosa herança servil também põe no laço os mais bonitos, aqueles com profissão definida e que escovam os dentes três vezes ao dia.

De personal trainners, psicólogos, fisioterapeutas, acupunturistas e uma vasta gama de profissionais especializados pagos para cuidar do corpo, da alma e do cachorro dos endinheirados, quantos não são tratados como serviçais domésticos?

Transformados em pessoas jurídicas pelos seus contratantes, em que pese seu status, são profissionais que estão atrás dos caixas de supermercado no que tange ao exercício de direitos trabalhistas.

Eu não vou dizer que vejo gente morta, mas às vezes tem muita gente que morreu no Sul dos Estados Unidos da década de 50 e reabriu os olhos aqui no Brasil - muitos encarnados de donas de casa mal educadas, meninas mimadas, jovens arrogantes e até triatletas.

Não é assim quando um cliente chega em uma bicicletaria e fala com o dono e os mecânicos como se fosse rei e os funcionários sua corte? Não é interessante que o indivíduo que assiste um filme e fica indignado ao ver na tela negros enforcados por pequenos roubos seja o mesmo, o mesmíssimo, que escreve na internet que bandido que roubou a porcaria da bike deve morrer?

A cena do mercado me deixou remoendo.

Por quê não tomei frente? Por que não chamei eu a gerente? Por que não escrevo para o mercado questionando os motivos pelas quais eles não incentivam os funcionários a confrontarem quem dá a si  mesmo privilégios?

Em um texto inesquecível chamado "A liberdade de ver os outros" David Foster Wallace escreveu,

"Dois peixinhos estão nadando juntos e cruzam com um peixe mais velho, nadando em sentido contrário. Ele os cumprimenta e diz:

- Bom dia, meninos. Como está a água?

Os dois peixinhos nadam mais um pouco, até que um deles olha para o outro e pergunta:

- Água? Que diabo é isso?

Não se preocupem, não pretendo me apresentar a vocês como o peixe mais velho e sábio que explica o que é água ao peixe mais novo. Não sou um peixe velho e sábio. O ponto central da história dos peixes é que a realidade mais óbvia, ubíqua e vital costuma ser a mais difícil de ser reconhecida. Enunciada dessa -forma, a frase soa como uma platitude - mas é fato que, nas trincheiras do dia-a-dia da existência adulta, lugares comuns banais podem adquirir uma importância de vida ou morte."

(...) A liberdade verdadeira envolve atenção, consciência, disciplina, esforço e capacidade de efetivamente se importar com os outros - no cotidiano, de forma trivial, talvez medíocre, e certamente pouco excitante. Essa é a liberdade real. A alternativa é a torturante sensação de ter tido e perdido alguma coisa infinita.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

A falta e a barreira

Caso não esteja eu enganado, pela primeira vez uma amadora brasileira foi pega no exame antidoping em uma prova de Ironman - não por conta das entidades tupiniquins, já que essas são mais eficientes em organizar eventos no que estes têm em comum com festas de casamento do que com uma competição limpa.

As dificuldades para dar conta dos problemas de vácuo todos nós já sabemos. A distorção de resultados é flagrante e a cultura é tão enviesada que, recentemente, um atleta em entrevista ao MundoTri admitiu ter alcançado a vaga para Kona pedalando em bloco e nada aconteceu.

E ele não é o primeiro.

Mas sobre o doping nós não temos sequer idéia. Os resultados das provas de Ironman veem melhorando horrores em cada faixa etária e evoluções muito rápidas sempre são suspeitas.

Só que colocar o guiso no gato ninguém foi capaz de colocar.

Até agora.

O que assusta no caso é que não estamos falando de lança-perfume, mas EPO - uma droga que parecia acessível apenas para competidores de alto nível mas, pelo que se vê, não são apenas os melhores equipamentos que profissionais e amadores compartilham.

Obviamente que os comentários nas redes sociais foram, em sua esmagadora maioria, de repúdio com tonalidades pesadas.

O que não é nenhuma surpresa.

As redes sociais são como várias bocas grandes com muitos dentes -  e as vezes uma delas morde a mão do dono.

Se você quer aparecer na capa de revista, dar entrevistas em sites, angariar patrocínios com a imagem e aparecer no site do MundoTri diplomado para ir para Kona, não vale reclamar da exposição quando o ambiente ficar inóspito.

Exposição tem um custo e é ingenuidade achar que lá só tem apupos da "galera".

De outro lado, os que resolveram amenizar a situação montaram uma barreira com um arsenal de arremedos de inspiração bíblica: "vamos condenar o pecado, não o pecador", "não julgues para não seres julgado" e, se me lembro bem, "atire a primeira pedra quem nunca errou".

Acho curioso, pois no caso do Ivan Albano a atitude dos amigos foi semelhante: "Ele lá em cima colocou isso no caminho para servir de aprendizado" ou, em chave mais atual, #deuscomanda.

O argumento é de uma estultice que não vale ser rebatido com muita tinta.

O uso de exemplos arbitrários põe em pé de igualdade situações cujo grau de gravidade não guardam relação.

Quando tá todo mundo vendo um sujeito na roda do outro em um video, é costume aparecer alguém e disparar "Ah, vai! Por acaso ninguém aqui já tomou multa de trânsito? Ninguém?".

Dói, mas é clássica.

Já a repreensão moral é recurso de retórica.

Ela muda o foco e inverte papéis; "opinião" vira "julgamento" e você nem precisa ter feito nada para ser suspeito - basta que um dia possa fazê-lo.

Como pecador nato, não tenho o que esconder.

Acho que todos os dias cometo pelo menos cinco erros entre a porta do apartamento e a saída do elevador do meu prédio. Até o metrô, outros tantos. Tenho multa de trânsito, já roubei o café na conta do restaurante e acho que hoje entrei no trabalho sem dizer "bom dia" para uma chata do administrativo.

Mas eu não tomo doping.

Mesmo pessoas que mal conseguem fazer o jogo da velha entendem de bate pronto que esse arrazoado de clichês mal disfarça nosso viés de julgamento: somos perfeitamente capazes da critica genérica, mas quando amigos ou conhecidos cruzam a linha, as coisas são um tanto mais nebulosas.

Ou nem tanto, depende.

Quando o tal erro pega o interesse de alguém, os mesmos que dizem com ar de santo "não julgues" não pensam duas vezes antes de sair atirando paus, pedras, gato, cachorro, sofá de mola e tudo que estiver no caminho na cabeça do "pecador".

Outros, que são muito contundentes contra a corrupção e acham justo ver jovens amarrados em pau de arara no meio da rua por conta de pequenos furtos, ficam pianinho quando a coisa é com o(a) vizinho(a) que mora ao lado ou está na mesma assessoria.

Mas o que é angustiante é a forma como encerramos o assunto: uma carta.

Trata-se de uma resposta formal com trechos que nos fazem desconfiar da sinceridade do seu conteúdo.

"Fiz tudo sozinha....".

Pelo que sei, EPO só pode ser prescrita por médicos e em casos de tratamentos de doenças, como aids, câncer e insuficiência renal.

Ninguém vai perguntar como ela conseguiu acesso a essa substância? Se algum médico forneceu a receita? Se sim, ele ministrou?

Se não, quem forneceu?

Esse fornecedor tem relação com outros triatletas ou ciclistas?

Tyler Hamilton seria irrelevante se tivesse apenas escrito uma carta de desculpas sobre o doping no ciclismo. Ele não apenas forneceu as pistas para que a chamada  "Era Lance" desmoronasse, como ainda se tornou uma figura importante para a formulação de propostas por um ciclismo mais limpo.

Nesse processo, conseguiu aquilo que um Tour não seria capaz de dar naquele tempo - respeito, credibilidade e, sobretudo, paz.