terça-feira, 30 de junho de 2015

Ironman Florianópolis 2015

Depois que finalizou o relato sobre o IM de Florianópolis esse ano, o Rafael Pina escreveu algo como "ufá, agora sim a prova acabou".

Demorou uma semana. Eu já vou para um mês.

O problema é não ter ninguém esperando na linha de chegada...

A Logistica e Alimentação

Esse ano fiquei novamente em Jurerê Tradicional, pois uma pousada com cozinha, supermercados e restaurantes próximos mais que compensam a relativa distância da Expo - cujas visitas se limitaram a entrega dos kits e o bike checkin.

A possibilidade de preparar minha comida foi bastante tranquila e não houve descontinuidade em relação a minha alimentação: lá encontrei café, manteiga, nata e gordura de coco; ovo, queijo prato, bacon e aipo; como carboidrato, batata doce e um bolo sem gosto; salada dos restaurantes e manteiga de amendoim levei de São Paulo.

Tento testado uma baixíssima ingestão de carboidratos no IM de Fortaleza e no Challenge de Florianópolis, resolvi fazer um Carbload durante a prova ou, como entendem outros, Train Low, Race High.

Eu estava curioso para esse teste.

Realizei todos os longos de três horas de corrida e as cinco horas e trinta de bike de jejum e sem ingestão de carbo. Outro ponto interessante foi que a necessidade de ingestão de líquidos diminui bruscamente - em todos os longos de corrida, apenas sentia sente no quilômetro 25 ou pouco depois. Invariavelmente, fechava os 30km com a ingestão de mais ou menos 700 mls de água.

Para a prova preparei duas caramanholas com UCAN e quatro saches de GU Roctane, das quais ingeri três. Além disso, oito capsulas de sal.

Na área de transição, três pedaços de bolo com guaraná foram suficientes para a maratona, embora eu tenha levado gel de reserva e mais capsulas de sal. Mas o que usei, e sempre uso mesmo, é o que apanho nos postos de hidratação - refrigerante ou gatorade.

E gostei da experiência, sobretudo quando comecei a usar um pouco mais de intensidade na segunda perna do pedal. Não senti qualquer "apagão" e em momento algum me senti fraco.

A Prova

Não há dúvida que o fato mais importante dessa prova começou muito antes dela: na penúltima semana que antecedeu a largada tive um estiramento/ou ruptura na panturrilha.

Embora tenha fortalecido e realizado exercícios de alongamento, treinos com a musculatura cansada com doses de intensidade são altamente arriscados.

Com o meu histórico, eu sei.

Mas às vezes pessoas disciplinadas não fazem a diferença entre o bom senso e espasmos mentais suicidas que as fazem cumprir a planilha até o fim, custe o que custar.

Até a prova, decidi apenas por treinos de bike e natação e evitei pensar na lesão  - como se o problema se resolvesse evitando-se o assunto ou me levasse a procurar um médico que me desse um diagnóstico que eu não queri ouvir.

Apenas um dia antes da prova, depois de um trabalho de soltura, fui arriscar uma corrida em Jurerê.

 Depois de vinte minutos correndo notei que a lesão estava onde estava a duas semanas.

Todo período que se seguiu foi de dúvida se valeria a pena ou não largar. Aos amigos que mandavam mensagem de boa prova ou que diziam que iriam acompanhar, eu colocava dúvidas se iria para participar.

Todos eram unanimes que seria melhor tentar. Marcão, Cíntia, Chico, Deise, Yeda, Curado, Kleber, Augusto....quem mais?

O Marcão escreveu uma coisa bacana, que veio do coração dele: "vai dormir e, quem sabe, amanhã você acorda com a panturrilha nova?".

Me apeguei a isso mas, para reforçar a fé, pela primeira vez me convenci a tomar anti-inflamatório.

Ao levantar no dia seguinte e colocar o pé no chão, as coisas não tinham mudado.

Em uma cena um tanto ridícula, me coloquei a dar corridinhas em torno da mesa procurando me convencer que a dor não estava lá ou que iria passar de repente.

Entre pegar a sacola e ir para a largada, ou deixar tudo no apartamento e passar o dia assistindo a prova, fiquei quase paralisado.

Nem no melhor cenário seria possível correr uma maratona. E andar 42k é um sofrimento que eu já conheço para querer repetir a experiência.

Sem saber como, fui.

Entrei na transição e procurei a organização para informar que havia tomado anti-inflamatório a noite e pela manhã.

Saindo de lá, encontrei o Orlandinho que madruga para acompanhar os atletas dele.

Em 2011 estava cismado que o meu pneu iria furar. Era um pressentimento tão pesado que me deixava mal.

E furou antes da prova, enquanto eu testava a bike em Jurerê.

O Orlandinho estava por ali e fomos na casa onde estavam os atletas dele para pegar uma câmera nova. Ele tira a furada e disse algo do tipo "Primeiro, não adianta ter pneu continental e usar câmera chingling; segundo, joga o Mr. Tuff fora."

Oi? Jogar o Mr. Tuff fora?

Ai começou um,

Vai furar, não vai furar, vai furar, não vai furar, vai furar, não vai furar...

Vendo que os dois estavam empacados, resolvemos por na mesa argumentos mais sofisticados,

Vai furar, não vai furar, vai furar, não vai furar, vai furar, não vai furar...

Quando fui ver, ele já tinha trocado a câmera e jogado o Mr. Tuff fora.

"Tó, vai pra prova."

Sai de lá totalmente aliviado, pois ele ali tirava o peso dos meus ombros e passava a responsabilidade para ele.

Tem que ter coragem.

Pois é mais comum o inverso.  "Você está treinado e agora tudo depende de você" ou "Você está pronto para pegar a vaga" são exemplos de atitudes que, na intenção genuína de incentivar e criar confiança, deslizam a responsabilidade da prova do colo do treinador para o atleta e o deixa sozinho com as suas expectativas.

E, sabe, ao final das contas a porra do pneu não furou.

Nunca mais furou.

Do lado de fora da transição, ele me disse "Vai lá que essa panturrilha esquenta no pedal e você vai correr".

Fiquei com a voz embargada.

Vesti a roupa de borracha e fui logo para a praia. Passei um pouco de frio, aqueci na água quando ficou claro e fiquei sozinho até encontrar o Felipe, que eu não via a décadas.

O dia estava estonteante. O sol nascendo, o mar uma piscina e tão hiper-mega-super-blaster sinalizado que gerou até uma certa confusão -  era a primeira, a segunda ou a terceira bóia a do retorno?

A adrenalina da largada me fez esquecer a dor.

Aperto daqui, aperto dali, tapa acolá mas, tirando isso, a natação foi fácil como sempre é fácil em Floripa. Nadei com um ritmo bom de braçadas, evitando me sentir afogado ou com os braços cansados.

Fiz a transição para a segunda perna andando na areia para não sentir a perna e consegui fechar a natação sem sufoco para 1:12.

Na transição para T2, que é longa, fui correndo devagarinho e sem sequer um incomodo!

Será que passou?

Comecei o pedal com disposto a varrer as péssimas recordações do ano passado, quando quebrei ao final dos primeiros 90 km e completei o pedal restante bastante desanimado.

Comecei com a cadência pesada e deixei a bike ir me levando em voo de cruzeiro, sem preocupação com os que me passavam.

Não vi muitos pelotes e marquei alguns amigos que fizeram um tempo bom ano passado para me certificar que não faria uma primeira perna muito lenta, apesar da prioridade ser não forçar o ritmo.

Valeu a pena. Na segunda perna me sentia pensei "agora eu vou"  - passei muita gente e a prova em nada se parecia com a do ano passado. Minha confiança estava nas alturas.

Não sentia nenhuma dor e pensava que poderia estar no melhor pedal que já fiz. Só perdi ritmo nos últimos dez quilômetros, embora minha sensação indicasse, na pior das hipóteses, algo em torno 5:20. Sendo otimista sem esforço, coisa em torno de 5:10.

Deu 5:32 - o mesmo do ano anterior.

Cáspita!

Cadê aquele povo que fala sempre sobre a "boa e velha percepção" mesmo?

Este ano corri com um medidor de potência, não para me orientar, apenas para checar o desempenho.

Segundo a tabela com algumas estimativas que o Max disponibilizou na página do Kona Bikes do Facebook, com os meus 200 Watts (potência normalizada) o tempo de pedal esperado seria 5:04.

Se tivesse 74, não 86 kg.

Depois que comecei com uma dieta bastante restritiva de carboidratos, minha musculatura ganhou volume além do esperado - talvez pelo fato de trabalhar muito o aspecto força nos treinos, principalmente na natação e no pedal. Isso tem um preço.

Como disse um triatleta enquanto eu fazia fisioterapia lá em Jurerê com o pessoal da BR, "nunca vi tanto cara grande em uma prova para gente com perfil mignon".

Terminei o pedal sem a sensação de fome ou desidratação - também pela primeira vez não precisei ir ao banheiro, saindo direto para a corrida.

A panturrilha incomodava, mas não doía - sai bastante otimista pois, quem sabe, o Orlandinho estivesse certo?

Em certos momentos, no plano, o incomodo desaparecia completamente.  Com cautela, entrei e sai de todas as subidas de Canavieiras andando e me sentia bem com o pace variando entre 5:15/5:30  - tudo o mais constante, seria possível fazer os 21k em menos de duas horas e mirar a maratona abaixo de quatro.

Mas de volta a Jurerê não era mais possível lidar com os aclives e, no último quilômetro antes de completar a primeira perna da maratona, comecei a caminhar.

Não dava mais.

Refletindo depois, só conseguia explicar o fato de ter ido tão longe em razão do anti-inflamatório, cujo efeito chegara ao fim.

Passar no meio da multidão que estava na avenida era um misto de emoção e constrangimento, pois não conseguia responder a todo o incentivo para continuar correndo. Sem conseguir me explicar, apenas olhava para as pessoas e dizia obrigado segurando a vontade chorar.

Aquilo é uma energia indescritível.

Comecei a levar a perna um pouco esticada para acertar o passo sem contrair a panturrilha. Calculei que dez minutos o pace seria o ideal, mas nunca conseguia menos que onze.

Fechei a maratona em exatas seis horas e passei pelo pórtico as 12:59:30 (os resultados do Garmin, estão aqui)

Alguns me perguntaram por que continuei.

Vaidade para não admitir um DNF?

Primeiro, acho que persistir não foi tão difícil. Não sentia dor e, mentalmente, já entrei na prova com expectativas muito baixas.

Em segundo,  o convívio com as pessoas que estavam no meu entorno facilitava tudo.

No sábado, uma dia antes da prova, encontrei o Wagner Araújo fazendo o trabalho dele e comentei que talvez não largasse. Sem mostrar nenhum sinal de espanto ou condolência, disse "Bem, quando se treina para ir além isso acontece".

E naturalmente mudamos de assunto.

A reação dele poderia ser interpretada como fria, mas o mesmo se seguiu com outras pessoas - inclusive on line.

E isso ajudou. Pacas.

Porque era ambiente que eu precisava para não alimentar a minha autopiedade.

"Bessinha, tá precisando de um abraço?????",  gritava o Focá enquanto passava de bike; "Não é para parar não Bessa", do Ludão sentado em um ponto de ônibus quando eu estava amolecendo; "escuta, tem que passar aqui de novo porque eu não te dispensei, viu?" mandava uma pessoa da organização na área do special needs quando eu estava para pegar pulseira verde para dar mais uma volta.

Outra aspecto importante foi o que me disse o Alexandre Vasconcelos, "Não olha para o chão, olha para dentro".

Esse balanço não é trivial.

No seu primeiro Ironman você acha que "tudo é possível".

A partir do terceiro, você repensa.

Trata-se de um aprendizado sobre almejar o final do que teve um começo e não se mortificar quando as coisas não podem ser como foram planejadas.

Veja, obviamente a persistência é uma qualidade desejável e necessária.

Mas ela não subentende que "tudo é possível".

Slogans como "só depende de nós", "basta acreditar", "basta querer", "tudo depende de você" são apenas modalidades de uma ilusão - uma ilusão de propaganda de tênis.

Ela tem um apelo que nos infantiliza, no sentido de que apenas as crianças entendem a realidade com um ato de pura vontade,  pois em certas fases não conseguem diferenciar o mundo interno do mundo externo.

Só quando o universo é visto como uma extensão do ego, só nesse contexto, "tudo é possível".

Jetsuma Tenzin Palmo nos diz que, quando não temos bem claro essa fronteira, não conseguimos lidar com o pesar, tal como as crianças também não conseguem.

"No momento que algo sai errado elas não lidam com suas emoções. Elas gritam e choram, como se alguém as tivesse desmembrando com piças de brasa quente. Mas é só porque elas derrubaram o doce no chão. Elas não conseguem conter o seu pesar como também a sua felicidade e a sua raiva. Suas emoções são despidas de disfarce. E, para nós, a tragédia é que crescemos externamente e por dentro permanecemos com quatro anos de idade."

A pedagogia da vida é também uma pedagogia sobre limites.

Amadurecer significa não permitir que os sentimentos da infância organizem a forma como interpretamos nossas experiências. Significa que temos que aceitar as coisas como elas são e transitar entre nossas frustrações com uma perspectiva mais serena, menos dramática.

Quando se diz que precisamos terminar algo que começamos e nos mantermos firmes em um determinado propósito, isso nada tem a ver com aprovação, aplauso, pódio, ranking e recorde.

A perseverança é um traço de valor intrínseco. Uma assinatura que não pede resultado.

Apenas atitude.

2 comentários:

Max disse...

Bessa,

no seu caso o vilão do tempo de pedal x watts é a área frontal, não peso. Você é um cara grande, e sua estrutura (altura, largura, enfim, área frontal) gera um arrasto que acaba pedindo mais do que 200 watts de NP para os 5 e pouquinho.

De qualquer forma, parabéns por mais um desafio cumprido.


ab.


m.

Blog: Long Distance na Bagagem disse...

Bessa, terminar um Ironman quando está tudo dentro do planejado é muito mais fácil, já quando treinamos 1 ano inteiro e chega na hora da largada algo está errado com o corpo é que vimos o verdadeiro sentido de ser um Ironman. Desistir não é uma opção para nós... vc fez o que deu pra fazer sem piorar sua lesão, muito melhor do que um DNF.

Abraço