terça-feira, 7 de abril de 2015

70.3 de Brasília

Ano após ano, não é muito novidade uma prova longa antes do Ironman.

Mas esse foi diferente.

Primeiro, porque "estamos sob nova direção" e optei pelo Sergio Borges como novo técnico. A escolha foi coerente com a minha história com o Ironguides, já que ele é da mesma escola e tem alguns valores que eu gostaria de manter.

De outro lado, gosto da perspectiva que o Sergio agrega no que tange ao trabalho fora das três modalidades do triathlon e que me parecem importantes a cada momento que fico mais velho: mobilidade, força, integridade e alongamento.

Essa adaptação tem sido difícil. Tive que incorporar mudanças de hábitos e passei várias semanas pagando o preço pela musculatura fraca e desequilibrada com recorrentes dores pelo corpo. Uma leve seção de fortalecimento ou funcional pela manhã me impedia de treinar a noite ou no dia seguinte.

Em segundo lugar, depois de cinco anos consecutivos troquei o Longo de Caiobá pelo 70.3 de Brasília.

Ano passado Caiobá era uma prova melhor por conta do calendário, já que ficava um pouco mais distante do IM de Florianópolis e, em tese, era uma prova menos dura (em tese).

E sou fã de Caiobá. Fã.

Mas vou dizer: também gostei de Brasília, viu?

A corrida é desafiadora, o Lago Paranoá é perfeito para nadar e o pedal tem as referências urbanísticas da cidade no trajeto.

A sensação é de que você está pedalando dentro de um cartão postal.

Alimentação

Cheguei em Brasília pesado, mas sem a sensação de que estava acima do peso.

Não costumo subir na balança, mas dois dias depois da prova eu estava com quase 88 quilos - quatro a mais do que o IM de Fortaleza, em novembro passado.

Em nada mudou a alimentação nesse período e estou quebrando a cabeça para entender o ganho de massa muscular nessa proporção.

Acredito que a maior ingestão de proteína e os treinos um pouco mais carregados em intensidade e força explicam alguma coisa, mas vamos ver se o mesmo peso se mantém na etapa final de preparação para o IM de Florianópolis.

Meu ritual para essa prova foi idêntico ao Challenge no que tange aos dias que antecederam a prova, isto é, apenas açai  e um pouco de batata doce na véspera.

Já na prova, na ponta do lápis foi assim: um gel, alguns goles de bebida esportiva fornecida pela organização nos postos de abastecimento no pedal (que continua a ser repassada em garrafas fechadas) e dois outros goles de refrigerante na corrida.

A Prova

Lendo alguns relatos e lembrando dos toques do Daniel Blóis, eu já esperava uma certa pancadaria no início da natação.

Não entra na minha cabeça porque o Ironman não implementa, assim como fez o Challenge em Florianópolis, a saída por ondas.

O Lago Paranoá é perfeito em extensão e largura, mas não tem como esperar mais de mil pessoas se dirigindo para uma mesma bóia sem se esbofetearem - pelo menos se forem triatletas.

Tenho convicção de que, tirando-se encontrões e braçadas involuntárias, 90% dos contatos que ocorrem na água poderiam ser evitados.

O problema poderia minimizado, se:

As pessoas não nadassem com a cabeça enfiada na água cruzando a frente de todos várias vezes; não parassem no meio do turbilhão perto da bóia e, ao sair, dessem aquele coice típico de nado de peito; não estacionassem a cada 50 metros para ver se localizam a bóia.

Eu entendo a angústia de se perder, mas você já viu algum peixe parando no meio de um cardume para ficar procurando o caminho?

O inicio da natação de um triathlon é assim.

Tal como a experiência de pegar metrô ou trem em horário de pico, a multidão na plataforma te leva para dentro vagão.

Caso não esteja na esteira de outro nadador e se sinta inseguro no meio daquele povo todo, marque alguém que está nadando ao seu lado a alguns metros de distância.

Caso os dois comecem a se aproximar, ou ele ou você estão se desalinhando. Se for você, olhe para frente para se reposicionar um pouco.

A partir do retorno, quando aumenta a dispersão, ai sim é necessário ter mais cuidado porque arrisca-se entrar em um grupo que errou a rota - e isso realmente pode acontecer.

Na natação, por motivos que desconheço, meu braço direito derreteu antes de alcançar a primeira bóia. Mesmo considerando que a água estava "mais pesada", não era para ter acontecido isso, já que estou treinando muito com palmar.

Completei a natação com 38 minutos e sai cansado para a transição - que por sua vez durou mais do que eu queria.

Porque também cometi um erro bobo.

Deixa eu te falar sem medo de ser sexista - quando a prova tiver Wet Strippers, aquelas pessoas que te ajudam a tirar a roupa da borracha, vai em cima dos manos e foge das minas.

Foge.

Ah, mas e se for uma gata?

Foge.

Se for a Dani Bolina

Foge.

E se for a Giovanna Ewbank

Ai você pára e pensa....

A menina que ia tirar a minha ficou preocupada com o cara que ela tinha ajudado porque o sujeito começou a ter cãibras. Tudo bem que foram apenas alguns segundos, mas sabe quando você faz uma chamada pelo celular e já coloca no ouvido, só que ele ainda tá fazendo a discagem?

Parece uma eternidade.

Quando se voltou para mim, aconteceu o que eu já esperava: ela não tinha força para puxar a calça e nem jeito.

Mas a culpa foi minha.

Eu ainda não cortei a calça pouco acima do tendão, o que deixa as coisas bem difíceis. Ai é necessário enfiar o dedo e puxar pelo calcanhar.

Com a molecada você nem precisa explicar: os caras te dão um sarrafo, você cai no chão e nem percebe quando a roupa está na mão deles....

O Pedal e a "Inevitabilidade" dos Pelotões

A natação azedou a minha prova. E não foi pelo tempo perdido na água.

O fato é que fiquei com medo continuar sofrendo em cima do selim.

Na estratégia de prova, o Sergio tinha me pedido ritmo progressivo. Então decidi ir tateando o percurso aos poucos porque não me senti na obrigação de ir com tudo.

Fechei com o tempo de 2:43, mas seria possível ser coisa de dez minutos mais rápido se eu tivesse me arriscado mais.

Mesmo assim, ficaria bem abaixo dos caras da frente - muitos dos quais se embrenharam em pelotões.

Em Penha, para usar um "titês fatalista", a desculpa era a inevitabilidade da falta de espaço.

E agora? Alguém vai me dizer que faltou espaço naquelas vias gigantes de Brasília?

Tirei os tempos de alguns enfiados em pelotões ou fazendo jogo de duplas em fotos que não são minhas (e, portanto, não posso disponibilizar) - a  maioria pedalou na casa dos 2:20.

Triathlon é um esporte estranho. Você imagina os organizadores da Maratona de São Paulo contratando fiscais para punir corredores que cortam caminho?

A Latin coloca fiscais cujo custo está embutido no preço da inscrição e diz que a responsabilidade é dos atletas.

Algo como se você contratasse juiz e bandeirinha, mas dissesse que a palavra final é dos jogadores que cometem falta.

O 70.3 Brasília virou campeonato Latino-Americano e não pega bem a malemolência com o assunto.

Até o momento a Latin mas não distribuiu lista ou qualquer estatística sobre punições.

E, para minha angústia,  não tem panelaço sobre o assunto.

Outro dado é eu estava louco para ver a potência, mas na hora o Garmin mandou a seguinte mensagem: "erro 102" e travou. Tive que fazer o percurso de Bike como se estivesse na T2.

Quando cheguei em casa o monitor apontou uma atualização critica do software.

Tudo bem.

Já passei por isso antes e três voltas nos dão referências mais que suficientes para trabalhar com a percepção.

Mas, pô, atualização justo no dia da prova?

A Corrida

Sair correndo depois do pedal não é um problema - ou não tem sido nas últimas provas.

Acho que é tanto treino de transição que tem uma hora que é tudo um troço só e não sei mais se estou nadando, pedalando, correndo....

Você parte da transição em sentido contrário a saída para o pedal e dá de cara com uma ladeira que vai inclinando, inclinando, inclinando...

Depois você desce e, óbvio, tudo que você desceu sobe de novo até entrar em um parque (eu acho que era parque) cheio de falsos planos.

E se faz isso três vezes.

Foi um bom teste. Estou fazendo treinos em subidas a fim de correr com o tronco relaxado e usar o core, a musculatura do posterior e do glúteo.

Apesar da vontade de desistir quando se olha aquelas malditas placas que marcam a quilometragem da segunda e terceira voltas e a gente está ainda na primeira, consegui  ir em frente e correr forte nos últimos 3K.

Deu para fazer 1:55, mas se não tivesse entrado uma chuva leve, sei não....

Fechei a prova para 5:24.

Quem tiver interesse nos dados, os dados são esses:

https://connect.garmin.com/modern/activity/738413809

Em resumo....

Não são poucas às vezes que um 70.3 dá o que pensar.

Para alguns, trata-se da primeira vez em que se arrisca na conquista da distância, enquanto para outros o que está em jogo é uma vaga do mundial - e para poucos são as duas coisas ao mesmo tempo.

Para quem está perto do Ironman, trata-se de um pré-teste para acertar a alimentação, o pace ou mesmo detalhes do bike-fit.

Tudo isso, claro, na teoria.

Porque lá dentro ninguém quer saber quem quer o quê ou quem é quem e todo mundo faz força do começo ao fim.

Mas, pelo menos no meu caso, bom ou mal desempenho nessa etapa não têm qualquer relação com o resultado posterior do Ironman.

Só que sempre sou assombrado pelo medo de sofrer.

Entenda-se por isso o receio de quebrar muito cedo e fazer o restante da prova penando para dar braçadas, empurrar o pedal ou continuar correndo.

E em Brasília isso rolou - ter saído da água do jeito que eu sai me empapuçou da prova quando ela estava apenas no inicio.

E no Ironman as distâncias, que já são cavalares, parecem duplicadas quando a mente se esforça por perseverar e não consegue.

Não é a primeira vez que falo sobre isso - e acho que nem será a última.

Porque a gente convive com um paradoxo: não há dúvida que, ceterius paribus e tudo nos conforme, podemos dar conta da distância em velocidade de cruzeiro - e ao mesmo tempo isso não basta.

Não doeu? Então dava para ter sido mais rápido ou ido mais longe.

O limiar entre a dor que é medida do empenho máximo e a dor que te faz desistir é o aprendizado mais difícil de ser alcançado pra mim.

E eu ainda não me sinto nem perto de chegar lá.


sábado, 14 de março de 2015

Precisamos de profissionais?

No momento em que a WTC suprime a disputa entre profissionais em algumas etapas do Ironman e organizadores americanos cancelam prêmios para a categoria na distância olímpica, a Triathlon Magazine Canadá levanta a seguinte lebre Do Wee Need Pro Athletes?.

Bem, se lá fora a questão para os pro não tem resposta pronta, aqui as pessoas engatam o câmbio automático e trocam de marcha sem pensar.

Em uma dessas discussões em fóruns sobre a demora em que algumas provas sofriam para completar a lista de inscrição, não foram poucos os que levantaram que o fato tinha explicação na presença de poucos profissionais.

Será?

Não conheço ninguém que deixou de reclamar do preço da inscrição olhando para a elite que estaria no evento; acho raro alguém comprar acessórios ou equipamentos simplesmente porque viu um pró usando; não tenho amigos que procuraram um profissional porque "aquele" ou "aquela" pro frequenta o consultório.

E quantas vezes os pro dão entrevistas falando que a prova "foi maravilhosa" quando atletas amadores relatam casos de atropelamento?

De onde vem essa alienação em relação a evento como um todo?

Talvez por isso, a aceitação de uma pessoa da elite está muito mais associada a forma como ela interage socialmente do que por ser atleta que disputa os prêmios nas provas oficiais.

Mas faz falta uma maior interação?

Faz.

Um dia uma amiga, nova e muito talentosa, estava em falando da angústia de escolher um quadro - pensei imediatamente que ela poderia falar com uma profissional que sempre está presente nas redes e coisa e tal.

Só que ai me dei conta que esses canais são construídos pelo convívio e ela não tinha ainda o seu círculo de amizade no triathlon.

Ou seja, os atletas de elite são vistos como pessoas acessíveis apenas para quem dá sorte de frequentar esses circuitos ou pertencer a certas panelas.

Não é a toa que as vezes a pessoa se arrisca escrever para a Chrissie Wellington do que para algum brasileiro que largou na elite no IM de Florianópolis.

E vou dizer: os gringos respondem.

É provável que muitos sejam pessoas tímidas. Outros, preferem um grupo de discussão mais reservado e há ainda aqueles dispõem de pouco tempo para terem uma interação mais frequente por serem donos de assessorias e atletas competitivos ao mesmo tempo.

Mas a competência de se comunicar é importante para alguém que almeja a construção de uma imagem.

E se comunicar não é só uma questão de empatia natural - isso se aprende.

O risco é as pessoas lerem mais blogs como o meu por não encontrarem relatos de prós contando a experiência que só eles possuem.

Pior: há o risco da elite perder a importância.

E isso de alguma forma já acontece - pelo menos do ponto de vista econômico.

Um dos argumentos que contariam a favor de uma elite seria a exposição que esses proporcionam para as empresas de material esportivo.

Mas o roda já girou e as empresas já arrumaram formas de aparecer sem meter a mão no bolso.

Não que sejam lá grande coisa. Vender equipamentos a preço de custo e dar pares de tênis avulsos como cota de patrocínio é como se você fosse professor e ganhasse giz como salário.

As empresas usam a raspa do tacho dos produtos de prateleira e distribuem entre os amadores - cedem produtos como a tênis, uniforme, suplemento, capacetes e um mundo de coisas com cara de amostra grátis que nada, nada....não é nada mesmo.

E a Internet é um prato cheio para isso e várias pessoas perceberam essa oportunidade  - e, vale dizer, alguns conseguem fazer coisas com muita competência.

Já tomei aula dada por amadores em porta de loja sobre estratégia de marketing nas redes que não tem nada de "amadora". Fazem relatórios com estatísticas de "likes" contabilizadas diariamente para certos grupos de apoiadores, o que lhes franqueiam suplementos ou mensalidades gratuitas em academias.

Já outros são da categoria "amador celebridade" que vive, basicamente, de tietagem.

É o caso típico daquela figura do Instagram cujo número fotos e de seguidoras é inversamente proporcional ao número de provas realizadas e tem uma linha de comentários que se resume a coisas do tipo "Sua linda!".

Um dia, uma amiga vendo as manifestações sobre politica na Internet olhou para mim e disse "Você viu quantos jovens? As Paquitas cresceram....""

Cresceram e algumas delas foram fazer triatlhon.

Preenchem a Internet com alguns flashs da sua rotina de treinos,  como fotos de toquinha no vestiário da academia, selfies no elevador com hastgs #nãodesistadoseusonho e caretas estranhas em cima do rolo ou de frente para o espelho.

A princípio, tirando o inchaço do merchandise de rede social, esses dois tipos não fazem mal a ninguém.

Só que também não trazem benefício nenhum.

Caso você precise ver uma foto para se motivar a correr no Ibirapuera, vá lá.

Mas se tem a necessidade de discutir se compra um medidor de potência ou um quadro específico, não é ali que você vai achar informação sobre o assunto.

Outra questão que emparelha os profissionais contra o muro é que os amadores têm mudado o foco do pódio para a valorização dos novos estilos de vida.

Em razão da falência das entidades em coibirem o vácuo e o doping, muitos triatletas estão desembarcando do "sonho de Kona" e elegendo novas referências.

Hoje veganos estão mais interessados em triatletas veganos do que o primeiro colocado no Ironman ou os cinco classificados para o campeonato mundial da faixa-etária. Outros ficam de olho em atletas diabéticos ou que apresentam intolerância ao glúten porque se identificam com esses grupos.

Ao cuidarem melhor de si, esses atletas estão descobrindo um novo padrão de alimentação e construindo uma nova cultura do bem-estar, com benefícios generalizados para todos, mesmo para aqueles que não apresentam qualquer tipo de deficiência.

Por tratar-se de um movimento recente, a interação é mais intensa e muito bacana, pois o entusiasmo leva ao desejo por mais mais interlocução. Além de estarem interessados nos treinos, sugerem livros, discutem textos e indicam sites especializados.

No exterior essa tendência já é nítida entre triatletas e ultramaratonistas, seguidos por milhares de pessoas e patrocinados por uma indústria de pequenos empreendimentos com foco em produtos e serviços para esse segmento.

No Brasil vale citar a percepção e o esforço pioneiro do projeto "Triathlon sem Glúten", do Wladimir Azevedo.

Diferentemente de triatletas que falam sobre nutrição para fazer propaganda disfarçada de produtos e lojas de suplementos, o Wlad explora de forma transparente um nicho com uma mensagem clara - ser celíaco não significa que sua vida acabou e está ele ai, um Ironman, para mostrar isso.

São essas pessoas que levam mais gente ao esporte, que catalisam a empatia de um público mais amplo e contribuem para o crescimento do triathlon.

Ao que surge, não tenho resposta para a pergunta do título do texto - mas sei que há coisas novas por ai e a gente precisa estar atento para se reinventar.




quarta-feira, 4 de março de 2015

Duas palavras sobre os Preços das Bikes

Existem certas discussões em que apenas passo os olhos para não ter que tomar antiácido depois.

São aquelas com dois pontos ligando nada a lugar nenhum: começa com um raciocínio falso de tiro curto e fecha com um arrazoado que tenta dizer o que já foi dito antes, só que de outro jeito.

No amontado de posts que se reverberam mutuamente, todos têm a impressão de estarem assentados sobre uma verdade consolidada e bem conhecida - mas na verdade é só um monte de gente falando a mesma coisa.

Tema encardido como preço de bike é assim.

Só que piora quando o assunto gira em torno das facilidades que o governo dá para as pessoas terem carros e as dificuldades que ele cria para terem bicicletas.

A palavra impostos entra nesse escaninho, já que se pressupõe que no cômputo geral o preço da bicicleta é uma conta alta e que culpado mesmo é o governo - sei lá qual, mas "o governo".

Coloco duas questões para você.

Os impostos que incidem sobre a produção e venda de bicicletas é realmente maior que o incentivo dado para a compra de automóveis?

Isso, um.

Dois,

O preço da bicicleta é a variável mais importante para que as pessoas possam adquirir a sua?

Os impostos

É muito comum as pessoas comentarem sobre impostos mimetizando o que veem na imprensa. É de lá que vou pegar o seguinte trecho,

"A falta de incentivo fica claro na comparação do IPI: a alíquota do tributo federal é de 3,5% para os carros populares, contra 10% para as bicicletas produzidas fora da Zona Franca de Manaus (ZFM, onde a há isenção, mas que produz apenas 21% do total do pais).

Com isso, o Brasil tem uma das bicicletas mais caras do mundo".

O Brasil é o terceiro produtor mundial de bicicletas e com um parque de 60 milhões de unidades - contra coisa de 40 milhões de veículos.

Uma imagem das "Bicicletas mais caras do mundo"


Sendo tão caras, como se vê tanta bicicleta na mão de pessoas pobres que não têm transporte público ou carro?

O pessoal da foto ao lado tem cara de rico?

Ou são os meus olhos?

Os dados da Pesquisa de Origem e Destino do Metrô diz seguinte: no município de São Paulo, 60% das viagens de bike na cidade são realizadas por pessoas que ganham até três salários mínimos.

Há outras coisas que me deixam intrigado.

Que contabilidade é essa que pula IPI para os preço final sem falar sobre lucro de quem produz, transporta e comercializa as bicicletas?

Imposto e....pá: a bike mais cara do mundo!

É fácil ganhar leitores falando mal de impostos.

Imposto e banheiro químico é coisa que não se discute.

Mas vejamos se pelo menos nisso o material que temos em mãos é coerente.

Chama a atenção o motivo pela qual a comparação se faz com os carros populares e deixa-se de lado outras categorias cujas alíquotas são bastante superiores, variando entre 9% e 13%.

Pensei, "Provavelmente porque os populares compõe a maior parte da frota no pais".

Todavia, pesquisando, vi que os carros populares não são tão "populares" quanto se imagina e correspondem a apenas 26% das vendas.

Por que cáspite a matéria relativiza a importância das bikes da Zona Franca de Manaus por representar 21% da produção nacional e destaca os carros populares se esses abocanham nada muito superior?

E você mesmo pode ter notado que existem outras coisas estranhas.

Onde foram parar outros tributos que proprietários de automóveis pagam, como o IPVA, taxa de licenciamento e DPVAT?

Tô sendo muito chato?

Talvez essa comparação tenha a mão boba do jornalista, alguns lapsos e, noves fora, não há de haver dúvidas que o núcleo da reportagem esteja certo. Não importa a comparação com os carros populares, o IPI é ainda assim alto.

O que aconteceria se mudássemos as alíquotas do nosso malvado preferido?

Pouco.

Na média, os tributos que incidem na formação dos preço das bicicletas tem a seguintes distribuição:

ICMS: 18,0%

IPI: 10,0%

Contribuição Financeira sobre Contribuição Social: 8,6%

Contribuição do PIS/PASEP - Importação: 1,6%

IPI pra cá, IPI pra lá, ninguém parou para verificar que esse imposto representa cerca de 1/4 dos tributos.

Para o leitor que ainda não me deixou falando sozinho, cabe ainda se perguntar os motivos pelas quais os empresários não se mandam todos para para Manaus, onde a produção é subsidiada.

Porque contabilidade criativa não é apenas coisa do governo.

No Brasil, as alíquotas para a venda de componentes são mais baixas que as de bicicletas montadas.

O que fazem as empresas?

Elas comercializam as ditas cujas prontas, só que informam a receita que estão vendendo partes.

Ou seja - o sujeito te cobra o que ele sonegou.

Isso corresponde a 40% da produção de bikes fora da Zona Franca.

Tá com dó dos empresários? Leva para casa....

Bikes e Importação

Adoro esses quadros, pois você olha e está tudo lá: os impostos de importação têm alíquotas de 35% para a compra de bikes.

Só que antes de fazer carnaval, um alerta: isso não significa nada.

Falta outro dado nesse quadro: 97% das bicicletas no pais não pagam imposto de importação porque são produzidas aqui.


Bike importada só aparece assunto relevante em rede social porque triatleta e ciclista fazem muito barulho em torno do assunto.

E por que o imposto de importação é o que é?

Ao contrário do que os consumidores mimados pensam, o objetivo não é impedir que o sujeito compre uma bike do estêites porque o governo  gosta de fazer maldades gratuitamente.

A governo busca a preferência do Mercosul frente a China nesse mercado (disparado, o maior produtor mundial de magrelas) ao mesmo tempo que tenta frear a entrada de componentes da indústria desse pais no Brasil (ver o caso das resoluções antidumping no caso das pedivelas em 2013 e pneus para bikes em 2014).

Vale lembrar que o Brasil é o terceiro maior produtor mundial de bicicletas e tem certas ambições nessa área.

Como quem opera a política está de olho em uma escala que envolve, por baixo, 60 milhões de bicicletas, é ingenuidade achar que a política dessa área vai mudar porque queremos fazer o IM de Fortaleza como uma bike nova ou comprar pneus específicos para triathlon.

Deixa eu te dizer porque eu esqueci - bikes de competição, essas que nós usamos, representam apenas 1% do total de bicicletas no país.

E aqui se coloca o seguinte:

Vamos dar subsídios para um segmento em um pais onde o sujeito ganhando 5,5 mil reais mensais está bolo dos 10% mais ricos? Segmento que, por sua vez, concentra 42% de toda a renda?

Para comprar bicicleta que podem custar 10 mil Obamas?

E, sabe o que eu acho divertido: o fulano pede isenção para comprar bicicleta desse porte e mete o pau no Bolsa-Familia porque chama o programa de "assistencialista".

Assistencialismo para rico, pode?

Em resumo, não vou ser eu aqui que vou dizer o quê é o quê no preço da bike.

Tem gente que vai dizer que é 80%, enquanto outros um tanto mais cuidadosos chegam a 45%.

Há muitos modelos diferentes, os tributos não são homogêneos, as alíquotas de impostos variam no tempo, variam nos estados e existem encalacrados que só com muita mandrakaria você vai conseguir chegar a uma conclusão.

Mas dizer que a bike no Brasil é a mais cara do mundo e jogar a culpa nos impostos usando números dessa forma é uma ginástica que acredita quem quer.

A reportagem completa você pode ler aqui e o estudo em que ela se baseia, .

Redução de Impostos ou mais Crédito?

Ninguém discute muito que preços baixos são capazes de incentivar a demanda de bicicletas - ou de qualquer outra coisa.

Só que existem categorias de produtos que, mesmo tendo preços reduzidos, não são baratos frente a renda das famílias.

Bicicletas são considerados bens duráveis, para as quais dois preços são importantes - o preço das meninas e o preço do dinheiro que você irá utilizar para o financiamento.

Como a taxa de juros ao consumidor no Brasil gira em torno de 102% para financiamentos de 12 meses, isso significa que ao financiar sua bicicleta nesse período você estará pagando por duas.

Nesse quadro, qualquer política de incentivo baseada na redução de tributos vai servir apenas para enxugar gelo.

Por isso, muito mais inteligente, seria insistir em linhas de financiamento com juros reduzidos ou mesmo zero.

Mas você já viu alguém discutindo o assunto por esse ângulo no Facebook?

A coisa é sempre imposto, incentivo, imposto, incentivo....

No final, sabe a conclusão a qual eu chego?

Que tá triste.

As pessoas não são nada tímidas para se expressar em voz alta o que elas elaboram mentalmente, exacerbando a confiança no senso comum e mais ainda no que julgam conhecer.

Dá medo pensar que no Brasil a opinião pública, pedindo mudanças, ou pedindo para que tudo permaneça como está, seja tão arredia a aprofundar-se em qualquer coisa.

Se a gente mal consegue discutir preço de bicicleta além do senso comum, alguém é capaz de pensar nas barbeiragens que fazemos em relação a outros assuntos, certamente muito mais importantes.

Ando para lá de desanimado, juro.

E o problema não são as discordâncias, pois é bem provável que eu também erre ou alguém tenha informações melhores ou mais exatas que as minhas.

E se for assim, qualquer um pode se servir desse espaço para corrigir o que foi dito, sem problemas.

O desânimo vem do fato de que parece que não adianta, sabe? As pessoas preferem o silêncio em relação aos fatos que lhes tiram da sua zona de conforto.

Não tenho dúvida que amanhã ao abrir a página do Facebook vou dar de cara com alguém escrevendo pela milésima vez sobre sobre governo, sobre impostos, sobre IPI e as "bikes mais caras do mundo".

Parece um inferno que não acaba.



segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

A pequena servidão

No último ano, dois filmes emplacaram trazendo a tona a temática da escravidão e do racismo nos Estados Unidos: "12 anos de escravidão" e "Um Mordomo na Casa Branca".

Caso fosse apenas um filme que registrasse de forma intensa a violência brutal imposta aos negros durante a escravidão, o filme não seria uma novidade. Mas 12 anos de escravidão é mais do isso: mostra as terríveis consequências de se viver em um mundo em que você pode desaparecer subitamente, ficando subordinado a vontade de quem em um átimo é capaz de lhe retirar toda a humanidade.

Por esse prisma, o filme tem uma mensagem universal, pois retrata a vulnerabilidade dos que foram (e são) alvos do arbítrio de um grupo em qualquer tempo e em qualquer lugar.

Já "Um mordomo na Casa Branca" acentua uma violência de outro tipo, isto é, a submissão sócio-cultural dos negros na argamassa que serviu de base para a construção da identidade dos Estados Unidos como nação.

Ainda que sujeito a todo tipo de critica que é comum (e justa) aos Blockbusters, trata-se de uma boa história sobre um homem que encaminha a vida de maneira relativamente bem sucedida na sociedade de classes americana da forma que era possível - sendo um negro doméstico.

Desde cedo o personagem de Forest Whitaker aprende que "para sobreviver entre eles" a regra de vida mais importante era o aprendizado de existir sem ser notado - coisa que talvez cause estranheza em nossa experiência atual, já que os indivíduos hoje querem ser notados antes de existirem.

"Você tem que apenas entender e antecipar o que eles querem. Você não ouve nada, não entende nada, apenas obedece"

Ao longo do filme presenciamos os momentos mais importantes da vida americana na luta contra o segregacionismo em vários estados americanos - e não são poucos os momentos em que você fecha o punho, tal como a cena da lanchonete, em que jovens brancos e negros são humilhados física e psicologicamente por recusarem a aceitar a segregação dentro do estabelecimento.

Mas uma das coisas que eu tenho a oportunidade de notar é que a nossa indignação fica na sala de projeção; temos uma profunda capacidade de empatia vendo um filme, mas ela não é capaz de mudar nossa percepção do que ocorre a nossa volta.

Um sábados desses, eu no mercado com poucas embalagens coisas me dirijo a fila para clientes com até 15 volumes. A minha frente, uma senhora passava suas coisas pelo caixa e questionava se as promoções estavam corretas - sem se preocupar muito com a pressa, olhava mercadorias perto do caixa a procura de outras ofertas.

No carrinho dela, entre compras como água, carne, biscoitos e refrigerante, havia pelo menos 12 alvejantes - ou seja: não era necessário usar os dedos para contar mais volumes do que era permito.

Na minha vez, perguntei a menina que estava no caixa por que ela teria atendido a senhora, já que ela não devia estar naquela fila, "Ela disse que não havia ninguém foi me passando as coisas. O senhor sabe, eu não posso dizer nada porque sempre sobra para gente".

A funcionária do estabelecimento pertence a um grupo demográfico muito comum - uma jovem
a provavelmente ensino médio e filhas de migrantes, mas nascida em São Paulo.

Já a senhora era a descrição viva da chamada "elite branca" paulista, mais especificamente a espécie tradicional que reside aqui na Zona Norte e cuja figura me lembra em tudo as chamadas "Senhoras de Santana" da década de 80.

Caso alguém tenha dificuldade com categorias sociais e ache que "elite branca" ofende, recomendo um exercício mais simples: observe o perfil das pessoas alocadas na sua empresa em funções precárias ou de terceirização.

Observe os garis, porteiros, entregadores, vendedores ambulantes, motoristas, ajudantes, pedreiros, empacotadores, seguranças, chaveiros, frentistas, encanadores, serventes, lixeiros, eletricistas, caixas, estoquistas, costureiras, atendentes, garçons, motoboys, carteiros, manicures entre tantas outras semelhantes.

Não bate um certo estranhamento que pessoas sejam pagas para limpar o banheiro da sua empresa, chamadas de "tiazinhas", tenham histórias de vida tão parecidas e tonalidade de pele idêntica?

Decorrente do fato de você ter vindo ao mundo e encontrá-lo já assim, é provável que ache isso comum, resultado de um processo de seleção natural que cataputa os mais fortes para a cabeça da hierarquia social por seus próprios méritos.

Ou então que é apenas o tal "cerumano" explorando outro "cerumano".

Um amigo, Miguel Matteo, me contou uma experiência que ele viu em Roma no tempo em que morou lá.

Vale a pena narrar aqui.

Um casal de brasileiros chega em uma loja e o marido insiste que a mulher deveria levar um vestido.

A mulher recusa. O marido insiste várias vezes. A invés de simplesmente dizer que tinha preferência por outro modelo, a mulher começa então a dar um apanhado sobre os problemas do tecido, da cor e do caimento do vestido que o marido tinha gostado.

Nesse momento, o vendedor se dirige a ela e comenta "Minha senhora, caso não queira levar a peça, basta conversar com o seu marido sobre as suas preferências e as dele - mas, por favor, não coloque defeitos que não existem na peça porque ambos não sabem lidar com discordâncias".

Em sociedades em que o liberalismo tem algum fundamento em termos de igualdade, as relações comerciais têm dimensão apenas econômica, isto é, não há conotação pessoal entre quem oferece e quem compra mercadorias e serviços.

Você apenas compra algo e esse "algo" não lhe dá o direito de agir como um "senhozinho" sobre os funcionários da loja.

Mas isso lá.

Já em um lugar onde o marketing se mistura com os hábitos herdados do passado escravista, dá um bicho diferente.

A idéia do "cliente sempre tem razão" em estabelecimentos comerciais não raro se traduz em outra de igual valor: "a elite sempre tem razão".

Mas a dita elite não se vê assim. Como é pouco instruída e não tem noção do seu papel, acha que já basta ser benevolente para ser socialmente relevante.

Por isso ela fica um pouco confusa e revoltada quando diz que não é "contra os pobres" - já que até tem alguns dentro de casa.

Quando se discutia a PEC das Domésticas, coisas assim vieram a público.

"Minha babá veio com um história sem pé nem cabeça, de que eu estou devendo todos os feriados em dinheiro, porque existem lei agora, onde ela tem esse direito. Estou meio tonta com atitude, decepcionada com a falta de educação e gratidão por tudo que fiz por ela, mas gostaria de saber se sou obrigado a pagar. Quando achamos que estamos com uma babá ótima, lá vem bombas!"

Por que a família de classe média quer se ver como uma entidade cheia "ternura" no espaço doméstico e retrógrada quando falamos em posições sociais mais compatíveis com o século XXI?

Porque a subordinação pessoal ainda lhe agrega privilégios econômicos invisíveis, não obstante bem concretos.

Ela se beneficia dos serviços da empregada como "ente da família"- assim como da da manicure, do pizzaiolo, do motobói ou o sujeito que fica na grelha na churrascaria - porque o trabalho informal lhe proporciona serviços baratos e, consequentemente, um padrão de vida bem acima do que a renda delas lhes permitiria em outros países.

Como dizem dois ex-professores meus, "A subida da renda os serviçais é contraditória com o nível de vida relativamente alto dos remediados".

Mas a benevolência sentimental tem tiro curto, pois quando as contas não fecham o que vinga é o pragmatismo da calculadora financeira. Ainda que ame ficar batendo o papo com os funcionários do prédio enquanto espera o neto chegar na van, esse é primeiro grupo a qual quer ver achatado quando há discussão sobre corte de despesas no condomínio.

E por isso prefere "adotar" a empregada doméstica, dar gorjetas em estabelecimentos comerciais e esmolas na rua.

E como é um poço de desconhecimento sobre história, acha que as disputas distributivas entre as classes ocorrem porque aquele senhor barbudo e o partido dele querem implementar o tal "bolivarismo comunista" no Brasil.

Aqui logo se nota o estrago do primário mal feito no retrovisor de quem se julga algo mais apto a tomar decisões políticas que os outros.

O que esses tontos não são capazes de ver é que essa escandalosa herança servil também põe no laço os mais bonitos, aqueles com profissão definida e que escovam os dentes três vezes ao dia.

De personal trainners, psicólogos, fisioterapeutas, acupunturistas e uma vasta gama de profissionais especializados pagos para cuidar do corpo, da alma e do cachorro dos endinheirados, quantos não são tratados como serviçais domésticos?

Transformados em pessoas jurídicas pelos seus contratantes, em que pese seu status, são profissionais que estão atrás dos caixas de supermercado no que tange ao exercício de direitos trabalhistas.

Eu não vou dizer que vejo gente morta, mas às vezes tem muita gente que morreu no Sul dos Estados Unidos da década de 50 e reabriu os olhos aqui no Brasil - muitos encarnados de donas de casa mal educadas, meninas mimadas, jovens arrogantes e até triatletas.

Não é assim quando um cliente chega em uma bicicletaria e fala com o dono e os mecânicos como se fosse rei e os funcionários sua corte? Não é interessante que o indivíduo que assiste um filme e fica indignado ao ver na tela negros enforcados por pequenos roubos seja o mesmo, o mesmíssimo, que escreve na internet que bandido que roubou a porcaria da bike deve morrer?

A cena do mercado me deixou remoendo.

Por quê não tomei frente? Por que não chamei eu a gerente? Por que não escrevo para o mercado questionando os motivos pelas quais eles não incentivam os funcionários a confrontarem quem dá a si  mesmo privilégios?

Em um texto inesquecível chamado "A liberdade de ver os outros" David Foster Wallace escreveu,

"Dois peixinhos estão nadando juntos e cruzam com um peixe mais velho, nadando em sentido contrário. Ele os cumprimenta e diz:

- Bom dia, meninos. Como está a água?

Os dois peixinhos nadam mais um pouco, até que um deles olha para o outro e pergunta:

- Água? Que diabo é isso?

Não se preocupem, não pretendo me apresentar a vocês como o peixe mais velho e sábio que explica o que é água ao peixe mais novo. Não sou um peixe velho e sábio. O ponto central da história dos peixes é que a realidade mais óbvia, ubíqua e vital costuma ser a mais difícil de ser reconhecida. Enunciada dessa -forma, a frase soa como uma platitude - mas é fato que, nas trincheiras do dia-a-dia da existência adulta, lugares comuns banais podem adquirir uma importância de vida ou morte."

(...) A liberdade verdadeira envolve atenção, consciência, disciplina, esforço e capacidade de efetivamente se importar com os outros - no cotidiano, de forma trivial, talvez medíocre, e certamente pouco excitante. Essa é a liberdade real. A alternativa é a torturante sensação de ter tido e perdido alguma coisa infinita.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

A falta e a barreira

Caso não esteja eu enganado, pela primeira vez uma amadora brasileira foi pega no exame antidoping em uma prova de Ironman - não por conta das entidades tupiniquins, já que essas são mais eficientes em organizar eventos no que estes têm em comum com festas de casamento do que com uma competição limpa.

As dificuldades para dar conta dos problemas de vácuo todos nós já sabemos. A distorção de resultados é flagrante e a cultura é tão enviesada que, recentemente, um atleta em entrevista ao MundoTri admitiu ter alcançado a vaga para Kona pedalando em bloco e nada aconteceu.

E ele não é o primeiro.

Mas sobre o doping nós não temos sequer idéia. Os resultados das provas de Ironman veem melhorando horrores em cada faixa etária e evoluções muito rápidas sempre são suspeitas.

Só que colocar o guiso no gato ninguém foi capaz de colocar.

O que assusta no caso é que não estamos falando de lança-perfume, mas EPO - uma droga que parecia acessível apenas para competidores de alto nível mas, pelo que se vê, não são apenas os melhores equipamentos que profissionais e amadores compartilham.

Obviamente que os comentários nas redes sociais foram, em sua esmagadora maioria, de repúdio com tonalidades pesadas.

As redes sociais são como várias bocas grandes com muitos dentes -  e as vezes uma delas morde a mão do dono.

Se você quer aparecer na capa de revista, dar entrevistas em sites, angariar patrocínios com a imagem e aparecer no site do MundoTri diplomado para ir para Kona, não vale reclamar da exposição quando o ambiente ficar inóspito.

Exposição tem um custo e é ingenuidade achar que lá só tem apupos da "galera".

De outro lado, os que resolveram amenizar a situação montaram uma barreira com um arsenal de arremedos de inspiração bíblica: "vamos condenar o pecado, não o pecador", "não julgues para não seres julgado" e, se me lembro bem, "atire a primeira pedra quem nunca errou".

Acho curioso, pois no caso do Ivan Albano a atitude dos amigos foi semelhante: "Ele lá em cima colocou isso no caminho para servir de aprendizado" ou, em chave mais atual, #deuscomanda.

O argumento é de uma estultice que não vale ser rebatido com muita tinta.

O uso de exemplos arbitrários põe em pé de igualdade situações cujo grau de gravidade não guardam relação.

Quando tá todo mundo vendo um sujeito na roda do outro em um video, é costume aparecer alguém e disparar " Por acaso ninguém aqui já tomou multa de trânsito? Ninguém?".

Dói, mas é clássica.

Já a repreensão moral é recurso de retórica.

Ela muda o foco e inverte papéis; "opinião" vira "julgamento" e você nem precisa ter feito nada para ser suspeito - basta que um dia possa fazê-lo.

Como pecador nato, não tenho o que esconder.

Acho que todos os dias cometo pelo menos cinco erros entre a porta do apartamento e a saída do elevador do meu prédio. Até o metrô, outros tantos. Tenho multa de trânsito, já roubei o café na conta do restaurante e acho que hoje entrei no trabalho sem dizer "bom dia" para uma chata do administrativo.

Mas eu não tomo doping.

Mesmo pessoas que mal conseguem fazer o jogo da velha entendem de bate pronto que esse arrazoado de clichês mal disfarça nosso viés de julgamento: somos perfeitamente capazes da critica genérica, mas quando amigos ou conhecidos cruzam a linha, as coisas são um tanto mais nebulosas.

Quando o tal erro pega o interesse de alguém, os mesmos que dizem com ar de santo "não julgues" não pensam duas vezes antes de sair atirando paus, pedras, gato, cachorro, sofá de mola e tudo que estiver no caminho na cabeça do "pecador".

Outros, que são muito contundentes contra a corrupção e acham justo ver jovens amarrados em pau de arara no meio da rua por conta de pequenos furtos, ficam pianinho quando a coisa é com o(a) vizinho(a) que mora ao lado ou está na mesma assessoria.

Mas o que é angustiante é a forma como encerramos o assunto: uma carta.

Trata-se de uma resposta formal com trechos que nos fazem desconfiar da sinceridade do seu conteúdo.

"Fiz tudo sozinha....".

Pelo que sei, EPO só pode ser prescrita por médicos e em casos de tratamentos de doenças, como aids, câncer e insuficiência renal.

Ninguém vai perguntar como ela conseguiu acesso a essa substância? Se algum médico forneceu a receita? Se sim, ele ministrou?

Se não, quem forneceu?

Esse fornecedor tem relação com outros triatletas ou ciclistas?

Tyler Hamilton seria irrelevante se tivesse apenas escrito uma carta de desculpas sobre o doping no ciclismo. Ele não apenas forneceu as pistas para que a chamada  "Era Lance" desmoronasse, como ainda se tornou uma figura importante para a formulação de propostas por um ciclismo mais limpo.

Nesse processo, conseguiu aquilo que um Tour não seria capaz de dar naquele tempo - respeito, credibilidade e, sobretudo, paz.


sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

As dez mais (e mais duas)

Em meio aquelas conversas de WhatSapp,  começou um bate e rebate sobre pedal no rolo e como cada um se vira para aguentar os treinos enfadonhos.

Vai pra cá, vai pra lá, a verdade é pouca gente abre mão do Ipod.

- Megadeth ou Nirvana, Green Day ouço de tudo nessa linha mais pesada.

- Metálica pra mim é básico, mas antes dos caras se venderem....

- Iron Maiden ou Judas Priest

- Sim, Iron Maiden.....

- Motorhead, ninguém fala nada do Motorhead porra!!!!!!

- Deep Purple era Covardale e Rainbow com o Dio...

- Dio cantava muito.....

- Eu gosto dos Bee Gees....

Sabe quando você fica com aquela sensação que jogou a bolinha na rede? ;-)

Muita gente consegue fazer rolo na frente da TV. Mas, quando os treinos são intervalados ou de força, eu não consigo dividir o foco entre o pedal e a tela.

E o que ajuda, mesmo, é a música.

A lista abaixo é o rol do que eu mais uso - não tem "tum-tum-tum" porque eu nem sei o que é "tum-tum-tum"....

Se soubesse, talvez usasse.....

Aquecimento vou de Apollo 440, Stop the Rock. Hoje manjadissima porque fazia parte de um programa de corrida, mas nem tanto quando o Carlão trazia novidades para a aula de spinning - tempos esses quando eu ia na academia com calça de moletom e camisa de algodão.




Nos últimos treinos para o IM de Fortaleza, minhas muletas foram o AC/DC. Muita gente sabe que a cada disco eles repetem o anterior que repete o anterior e que normalmente já que era muito parecido com anterior....

Dizem que em um entrevista uma jornalista perguntou ao Malcolm Young o que ele achava do grupo ter produzido 12 discos iguais durante a carreira.

Conta a lenda que ele se levantou e, dedo em riste, disse,

- Isso obviamente não tem nenhum fundamento e só mostra como os jornalistas hoje são desinformados

E completou:

- São 13 discos.....

Peguei três show na Argentina. Tem aquelas coisa de caras e bocas de shows de rock pós-MTV, tudo bem. Mas o som ficou bom....

A primeira Rock 'N' Roll Train. O Riff é legal, mas gosto mesmo do jeitão do Brian Johnson.

Uso para empurrar nos benditos tiros de três minutos.



Já Big Jack tem uma batida precisa e a música se alonga um pouco mais com uma cadência média. Pra mim é útil quando preciso de alguma coisa para não deixar o ritmo cair quando a tentação é ceder pouco antes do final.



E se o treino tem cadência alta? Ai eu me divido...

Whota Lotta Rosie




Ou L.A. Woman do The Doors, só que na pegada do Billy Idol.



As vezes está lá na planilha algo como um TT de dez ou quinze minutos - tenho algumas, mas Gimme All Your Love (claro, deixo na função repeat até dar o tempo)




Um dia estava comentando com um amigo porque eu achava o Robert Plant um cantor muito fora do comum quando ele era muito fora do comum - porque ele tinha o alcance vocal de uma mulher.

Rock'n Roll com Sherry Crowl é uma boa para uma cadência mais acelerada.




Quando a coisa entra nos treinos de cadência baixa, as referências mudam - mas ficam nos anos 70 e 80....e um pouquinho dos anos 90, vai.

Robert Palmer em Additec to Love hoje soa retrô, talvez.

Mas eu gosto do video e acho classudo.



Perfect Strange é a porrada que marca a volta do Deep Purple em 1984, na última formação original da banda antes dela virar cover dela mesma nas décadas seguintes.




Ozzy também trago das aulas de spinning. No More Tears tem o Riff de baixo mais fantástico que eu já ouvi.



Essa, idem, ibidem. Kashimir.

Normalmente quando todo mundo estava exausto, o Carlão entrava com Kashimir com cadência muuuuitooooo pesada para ninguém ficar pedindo para a aula continuar.

E dava certo.



E, findo o treino, vez ou outra, Bee Gees (eu falei...)







domingo, 7 de dezembro de 2014

Challenge Family 2014- Parte II

A decisão de encarar o Challenge começou a tomar corpo por uma dica da Ana Lidia e da Aline Miranda ainda Fortaleza, já que havia a possibilidade de fazer inscrições no pacote da IM.

Óbvio que, na hora, eu disse "nem pensar".

Mas fazendo conta daqui, fazendo conta dali, uma prova cheia de amigos e aquele ajuntamento de gente bacana em Jurerê....

Bom, como todo mundo está cansado de saber que a  minha palavra não vale nada mesmo, três dias antes da largada eu já estava em Florianópolis sem avisar quase ninguém e, estranhamente, sem me preocupar se estaria apto para fazer a prova.

Digo "estranhamente" porque nem me veio a cabeça questionar se seria possível encarar um Meio-Iron três semanas após o IM de Fortaleza sem esquecer que, cinco meses antes, eu já tinha feito outro em Florianópolis.

Convivemos com muitas convenções e uma das mais famosas diz que provas longas pedem um período razoável de recuperação ou que mais de um Iron por ano é coisa para poucos.

"Poucos" não no sentido elitizado do termo, mas de que é coisa para gente doida mesmo.

Bem, vamos por partes.....

A Prova

No dia da largada me sentia relativamente bem, pois meu mal estar com provas de triathlon acaba exatamente quando coloco o pé na areia.

Como o meu corpo reagiria era um mistério, mas ainda assim me sentia em condições para fazer aquilo que queria fazer.

Pouco antes da largada ficamos sabendo que a natação teria o percurso encurtado de mil e novecentos para mil metros por questões de segurança.

Não vou deixar de dizer que fiquei um pouco frustrado.

Quando entramos na água o mar estava com uma arrebentação forte e realmente muito mexido - tudo o que eu não precisava depois de Fortaleza.

Só lembro de ter pensado "Não acredito que isso vai acontecer de novo..."

Naquele instante, até chegarmos a primeira  bóia, achava que a organização tinha agido corretamente. Para quem tem problemas com a água, aquela natação estava vários pontos acima do tom ideal.

Depois, entretanto, da primeira para a segunda bóia, e de lá para a praia, as coisas foram muito rápidas e mudei de idéia.

Talvez o melhor fosse uma natação com duas voltas.

Em quinze minutos eu já tinha duas opiniões completamente opostas.

Dá para notar que eu não sou exatamente uma "rocha" em termos de convicções.

Quando se pensa em todos que estão ali, a decisão não é realmente fácil.

Há pessoas que escolhem provas a dedo porque estão aptas para um nível de dificuldade. Quando se deparam com outro cenário, dito pelo acaso, acho que existe uma questão psicológica que é relevante, sobretudo para quem vai fazer a estréia na distância.

Por outro lado, há uma banda de atletas que advoga que "ema, ema, ema...cada um com os seus pobrema". Uma pessoa que escolheu um desafio desses tem que estar pronto para situações adversas, pois não consta do regulamento que o mar devesse estar flat ou o pedal, sem vento.

Essa avaliação, sinceramente? Não sei fazer.

Existem coisas para as quais não consigo ter uma opinião.

Fechei a natação para 17:44 e demorei na T1 porque a minha roupa de borracha, que tinha jurado arrumar quando fiz o Dash em 2013, ainda está do mesmo jeito e não sai fácil.

Também não sou um "rocha" em termos de promessas.

Se o Dash se vendia como a prova mais rápida, fez bem o Challenge em não ter usado o mesmo apelo esse ano, pois o pedal foi incrivelmente duro nos momentos em que o vento estava contra.

Foi sem dúvida uma surpresa, embora eu não esteja aqui reclamando, seja porque com o vento dava para alcançar coisa de 50 km/hora, seja porque pedir pedal sem vento é o mesmo que querer nadar sem água.

Mesmo contra o vento, não consigo deixar de pedalar com cadência baixa (66 rpms foi a média da prova), mas estou melhorando devagarinho. Fiz os primeiros 45k de forma mais cautelosa, deixando para fazer força na segunda perna. O resultado foi um pedal para 2:38.

Not so bad, not so good.

Nos primeiros quilômetros da meia-maratona me senti feliz em observar que não estava apenas "seguindo" como em Fortaleza, mas efetivamente correndo. Foi a parte em que mais me diverti também, pois o traçado permitia uma interação constante com todo mundo e não o achei mentalmente cansativo.

Até o 14 quilômetro consegui um pace médio de 5:00/Km, mas na última volta senti que faltava perna e o ritmo caiu coisa de 5:45/Km.

Fechei a meia para 1:50, tempo bem melhor que as minhas expectativas.

Já a prova, em 4:54. Fiz uma avaliação positiva.

Depois do IM de Fortaleza descansei uma semana, depois retomei a planilha feita para ela. A única diferença foi que resolvi fazer rolo ao invés dos longos de bike, já que não valia a tirar a bike da mala para fazer apenas um treino.

Já que o tempo não poderia ser comparado com o do ano passado, tendo como parâmetro a colocação na categoria fiquei muito feliz -  a décima primeira entre 60 pessoas.





Obviamente, não sai de lá pensando que seria possível fazer uma ultramaratona no outro final de semana.

Mas se eu pensasse de forma tradicional, será que teria participado da prova?

Qual são os nossos limites?

A pergunta é genérica e típica de manual de marketing mequetrefe voltado para aspectos motivacionais do esporte - e só estou usando porque às vezes fico derrapando para escolher um frase diferente e nada me vem nada na cabeça.

Bom, mas se a pergunta é manjada, por outro lado cabe evitar o arco das respostas prontas, tal como a popularíssima "depende de cada um".

Existem certas discussões no esporte que poderiam ser bastante enriquecedoras se tivéssemos apenas uma regra: " Proibido dizer 'depende de cada um'".

Vamos falar da média.

Estou me referindo a triatletas esforçados para a qual a loteria genética não deu um número premiado. Gente com uma história relativamente curta se comparada aos veteranos, sem portfólio com recorde e um currículo que não rende apoio nem para ganhar pacote de maltodextrina de dez reais.

Enfim, it's me.

Se feita uma enquete no meio, acho que oito em dez reprovariam a inscrição.

Entretanto, qual o fundamento dessa reprovação?

Não tem todo triatleta certo orgulho de se jogar de cabeça na mais recente inovação em termos de equipamentos, acessórios e suplementos?

Mas por quê cáspita somos tão ligados a concepções defuntas?

No caso da nutrição, a força da tradição se coloca de forma ainda mais evidente.

Só que vou abrir um capitulo aqui para não embolar muito.

A nutrição

O paradigma "High Carbo" é tão incrustado na cultura do triathlon que já me julgo um sujeito totalmente marginalizado pelo sistema.

O que não é de todo ruim, já que a marginalidade põe no meu bolso um alibi para os que me apontam o dedo dizendo que sou da tal "esquerda caviar".

As provas de longa distância transformam todo ecossistema no seu entorno e tudo que nele cresce e se consome é feito de carboidrato.

Tal como uma larva perceberia o universo se não notasse que errou a maça e entrou em uma batata.

Descobri que ir ao jantar de massas e perguntar se há alguma chance de encontrar torresmo ou pururuca no cardápio tem um efeito divertido - as pessoas dão um passo para trás, arregalam os olhos e ficam esperando que sua cabeça comece a rodar em cima do pescoço.

Já coloquei aqui no Blog que aderi a dieta Low-Carb, cujo nível de conhecimento das pessoas varia nos extremos: quem conhece, conhece muito; quem não conhece, trata o assunto a distância ou certo desdém, como se fosse vodu ou magia negra.

Para quem é adepto dessa dieta, há várias estratégias para provas de longa distância. Uma das mais conhecidas opta pelo consumo sem dó de carboidratos antes e durante o esforço - Training Low Race High.

Essa era a minha primeira opção, já que as provas de 70.3 são realizada com níveis de intensidade relativamente maiores  que as provas com a distância Ironman. E, sendo assim, o consumo de carboidratos pode se impor de forma relativamente maior.

Entretanto, conversando com o Wagner Araújo na Expo sobre o assunto, lá pelas tantas ele brincou dizendo "E aí, vai fazer a prova sem carbo?".

Falou brincando, pois ele mesmo acha mais eficiente estratégias de "supercompensação" ou o chamado "carbo loading".

Mas comigo as pessoas não podem brincar.

Seria possível ser ainda mais radical que em relação a Fortaleza?

Por puro empirismo e considerando que a distância era menor, levei em frente a idéia e montei um roteiro para uma aposta comigo mesmo - realizar a distância sem consumir calorias.

Mas, primeiro, tinha que ter certeza que não me faltariam reservas de carboidratos. Sendo assim, agreguei uma tigela média e um suco de açai no sábado.

Dada a escassez de opções e a falta de uma cozinha no apartamento, fiz uma refeição na noite anterior a prova impensável para o triatleta moldado no mundo da batata e do macarrão - rolinhos de presunto e queijo e um pote de torresmo, aqueles bem esculhambados vendidos em supermercado.


Imagino que vendo a foto você também esteja visualizando minha cabeça girando furiosamente em cima do pescoço. ;-)


Mas essa decisão seguia um raciocínio simples: pressupondo que meu metabolismo esteja relativamente adaptado e as reservar de carboidratos sejam suficientes para uma prova até seis horas em ritmo confortável, para que muito mais que isso?


Eu apenas precisaria estar atento as demandas do meu corpo por energia.

Vale dizer que tenho uma certa vantagem nesse aspecto, pois entre alguns anos de treinos longos e provas, guardo a memória as quebras por bonking, isto é, aquela em que a gente dá de cara com o famigerado "muro" por conta da depleção de carboidrato.

Entender a natureza da nossa percepção é muito importantes, mas ela não é inata e depende de uma reflexão sobre a experiência.

Por exemplo, não raro muitos perceberem a queda de rendimento em uma prova como um problema de suplementação quando, na verdade, o que se dá pode ser um "cansaço" do sistema neuromuscular (por isso recomenda-se andar durante a maratona) ou, mais simples, a pura falta de condicionamento físico para prosseguir com o ritmo inicial.

Em síntese: as vezes falta perna e não comida, só que não conseguimos distinguir um do outro.

Mas não consegui passar a prova sem a ingestão de nenhuma caloria e tomei meia garrafa de powered no pedal, pois fiquei sem uma caramanhola e foi o que consegui apanhar em um posto de hidratação quando senti sede - mas regra é regra e cabe contar tudo como realmente aconteceu.

Finalizada a prova, minha recuperação foi ótima e não perdi mais peso ou massa muscular do que sempre perco nesse tipo de evento.

Só que depois fiquei dando tratos a bola de como nossos parâmetro de nutrição são discutíveis.

Quando vai cair a ficha dos técnicos e dos nutricionistas que a questão fundamental é o manejo do metabolismo no médio e longo prazo? Que uma contabilidade detalhada de reposição de calorias é uma questão secundária? Que o foco não pode ser apenas perder peso visando a relação VO2/Peso?

Quando vamos nos voltar para a chamada "eficiência energética" e estudar como aperfeiçoa-la, abandonando os  hábitos que sustentam uma cultura de suplementação, cara e inócua, cujos únicos efeitos efetivamente comprovados são os baldes do xixi mais caros do mundo, tal a quantidade de nutrientes que nosso corpo, incapaz de aproveitá-los, expele pela urina?

Para Concluir

Um dos motivos pela qual gosto do Brett Sutton é que ele não dá a menor trela para convenções - já disse não acredita em polimento e deixa todo mundo de queixo caído quando põe o pessoal para fazer provas de forte intensidade uma semana antes de uma prova foco.

Ele é um dos caras que põe o pé na porta sem medo de se expor.

Mas o exercício de se expor é uma atividade para a qual não estamos acostumados e inventamos pretextos para que "cada um fica no seu canto".

As vezes, ouve-se a justificativa de que a opção pelo silêncio tem respaldo no receio de ser "massacrado".

Não acho que é bem isso.

Isso é desculpa na qual as pessoas, mesmo sem querer, exageram sobre a sua própria importância.

Não é um pouco estranho que discussões provocativas fiquem a cargo blogueiros, atletas ou outras pessoas curiosas que estão atuando no meio, mas têm outro campo profissional?

No filme "A Vila" uma comunidade vive completamente reclusa em uma floresta, presa por criaturas apavorantes que ninguém ousa desafiar chamadas de "Aquelas de quem não falamos".

No fundo, um lenda criada pelos habitantes mais antigos do vilarejo para internalizar em cada indivíduo as regras que todos devem seguir dentro de uma ordem supostamente desejável.

As vezes tenho a sensação que nos aprisionamos em convenções inquestionáveis, tal como os habitantes dessa Vila, e temos pavor de ir além das paredes intangíveis em que ficamos trancafiados em nome de um conceito nebuloso de "segurança".

Esse conceito reflete o cuidado necessário com a preservação física e mental dos triatletas ou é uma acomodação a-critica, que justifica uma certa má vontade para a busca de novos conhecimentos ou inapetência quando falamos em capacidade de desafio?

De certo, há uma fronteira tênue segurança e falta de ousadia.

E não sei de que lado estamos.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Challenge Family 2014 - Parte I

Ninguém vai discordar que uma prova nos moldes do Challenge Family é mais que bem vinda -  não fosse apenas por um calendário com mais opções,  agregar uma corrida de 5k para mulheres e o Triathlon Kids no dia anterior a prova cai muito bem.

E o arsenal de boas idéias não parava ai: da implementação de uma largada em ondas, passando por um simpósio com palestras interessantes até uma mochila no kit pareciam indicar que a organização iria dar uma repaginada nas provas de longa distância no Brasil.

Só que parece que a organização colocou salto alto no evento principal.

E errou feio.

Uma vez escrevi que as entidades que organizam os eventos no Brasil são pequenas empresas familiares de fundo de quintal e refletem muito a personalidade do dono. Já aquelas que detêm o direito sobre o uso de marcas internacionais, tem uma receita de bolo já testada - é só seguir o manual.

As duas funcionam de forma diferente.

As primeiras, como as organizadas pela Cia de Eventos e a NA Sports, se apóiam no mesmo ritual - você chega no Troféu Brasil, Internacional de Santos, no Long Distance de Caiobá ou Pirassununga e já sabe o que tem que fazer.

Aliás, tem a impressão que já nasceu sabendo.

Nas provas organizadas pela Latin Sports, como o Ironmam ou o 70.3, são as instruções são detalhadas no envelope que todos recebem no balcão de retirada do kit e ali são dadas todas as informações por pessoas inegavelmente bem treinadas. Em qualquer lugar do mundo você vai encontrar a mesma lógica.

É aquele jeitão meio MacDonald´s de organizar provas de triathlon.

Entretanto, essas provas também tem problemas crônicos que frustram as expectativas dos triatletas - preço, vácuo e traçados que não respeitam a distância prevista no regulamento são apenas alguns deles.

A vantagem de quem chega mais tarde na festa é saber de cor e salteado a cartilha dos erros e acertos dos outros.

Só que o Challenge deu uma contribuição de 500 páginas para a primeira parte da cartilha.

Vou tentar me manter afastado das impressões negativas que podem ser resultado de um caso isolado, tal como o fato das camisas no meu kit e de Finisher terem o mesmo número, mas de tamanhos diferentes - erros assim, se isolados, são bastante compreensíveis.

O problema, de fato, foi que a soma de equívocos se deu em torno de questões em que ninguém erra mais, como a distribuição de garrafas descartáveis no pedal ao invés das habituais caramanholas, erros de programação que geraram uma longa fila para entrega da bikes ou a proibição de wetsuit strippers na primeira transição.

Mas nada supera a falta de água nos postos de hidratação tal como se viu - e muito pior que o Ironman de Fortaleza, já que ela não ocorreu de forma isolada.

Sem ter a pretensão de falar sobre os erros todos, exaustivamente mapeados em posts muito bem feitos do Facebook, só vou tentar passar dar uma rasante sobre o assunto.

Se alguém me pedisse para resumir os problemas principais, eu citaria apenas alguns - porque destes derivou todo o resto.

Primeiro, a organização embaralhou os conceitos dos concorrentes e fez um boneco remendado com o pano que sobrou do Dash ano passado.

Tinhamos três sacolas com cores diferentes, tal como o Ironman, mas sem nenhuma indicação do que ia aonde. Descobriu-se depois que não era necessário usar nenhuma, tal como em Pirassununga, pois poderia deixar tudo em uma caixinha - aquela do Internacional de Santos.

Ou seja, ela nos confundiu porque misturou todas as nossas referências.

Outra exemplo foi o revezamento.

Eu sou ranheta com esse negócio: há conceito mais anti-triatlético que revezamento?

Havia duas dinâmicas na prova, que ficaram muito evidentes no pedal.

Não bastassem os próprios triatletas que se acham ciclistas de contra-relógio porque agora estão se vestindo como tal, os ciclistas do revezamento vieram voando pelos lados, por cima, por baixo e até na contramão em uma disputa totalmente insana em meio a cones que não estavam sempre alinhados.

Já outros triatletas, muitos deles iniciantes, tinham dificuldade em apanhar as garrafinhas de água nos postos de hidratação com a mão esquerda.

Isso só não gera mais acidentes porque fica debitado na conta de quem é precavido tomar cuidado para evitar as quedas.

Bem, falando nisso, outro ponto importante diz respeito a coibição do vácuo por meio de duas medidas: largada em ondas e maior rigor nas punições.

A largada em ondas funcionou, mas também não funcionou.

O Santiago Ascenço disse que foi ótimo para os pro e isso é uma marca positiva.

Já entre os amadores, tenho a sensação que não deu certo.

Se no Ironman o tempo de natação seleciona os integrantes dos pelotes, com as largadas em onda parece que acontece a mesma coisa, com a diferença que os agrupamentos são de pessoas da mesma faixa etária.

Não tenho dados para falar sobre a eficiência da fiscalização, já que não vi até agora estatísticas ou a divulgação de nomes de atletas punidos.

Mas fizeram um lambança monumental: os atletas punidos por situação de vácuo tiveram seus tênis retirados da zona de transição e levados para o penalty box.

Ninguém vai aqui defender os vaqueiros, certo? Acho até que, se era para fazer maldade, poderiam fazer direito: dá um nó cego no cadarço e joga em algum fio da rede elétrica.

Só que o problema foi o seguinte:  ninguém avisou a tigrada que ia ser assim.

Dá para imaginar um monte de pitbull tendo chilique e correndo de um lado para outro com bermudas de laicra e sapatilha? ;-)

E, nesse sentido, a gente pode falar sobre de outro grande erro da organização: informação.

O site do evento era um deserto para quem queria se informar e auto (in)explicativo - alguém entendeu porque, no lugar das faixas etárias, colocaram categorias do tipo "30 A", "40A" etc?

O folder não trazia informações básicas, como o horário das largadas dos grupos etários e ainda fornecia orientações erradas. Uma delas dizia que as sacolas deveriam ser deixadas junto com a bike no sábado - e não foi isso que se viu.

O Congresso Técnico foi ruim de lascar.

Embora ninguém queira um Silvio Santos falando, uma certa dinâmica de auditório é desejável para manter o foco de uma platéia ansiosa.

Em um salão com centenas de triatletas confusos por conta de informações contraditórias, a apresentação se orientava por um power point feito para uma sala de dez pessoas.

Acho que nem o Hubble mirando naquela tela ajudava.

Informações desnecessárias, tal como como foi o treinamento dos fiscais até descrição exaustiva da altimetria do pedal com um mapa de GPS chapado deu sono; já a ordem de largada de faixas etárias, sobre a qual não havia informação alguma, era mostrada em letras minúsculas e ilegíveis.

E o texto parecia mal decorado e o palestrante titubeou em vários momentos: ora usava-se "deve-se, ora "pode-se" para uma mesma situação.

Agora, em resumo, como foi o evento então?

Olha, foi show!

Antes de achar que está lendo o texto de um sujeito que sofre de transtornos mentais, me dá uma chance para me explicar o "foi show".

Primeiro, porque o Challenge Women e o Triathlon Kids não podem passar em branco.

Agradar as pessoas que nos acompanham nesses eventos longos é uma experiência de retribuição que, como tal, nos agrega uma alegria incomum.

Olhe as fotos das pessoas e você vai entender.

Segundo, precisa ser muito craque para estragar uma prova de triathlon em Jurerê.

Nem a diretoria do Vasco e do Palmeiras, juntas e combinadas com a CBF, conseguiriam esse feito.

Como colocou o Rafael Pina no relato dele, a muvuca com todo aquele pessoal assistindo e o fato de participar de uma prova entre amigos traz sentimentos gratificantes impossíveis de serem colocados no papel.

Isso traz um ensinamento que toda entidade que se presta a organizar uma prova de triathlon já deveria saber: triatleta adora mimos e firulas, mas essencial mesmo continua sendo o básico.

Não é difícil.

Põe dois chinelos no gol, marca a área no chão e dá uma bola pra jogar....

O resto deixa com a gente.



quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Uma rampa para Ulisses

Desde de Ulisses de James Joyce,  caiu a ficha que a vida do homem moderno é de uma mediocridade incomparável na maior parte do tempo - diferente antigos, nossa vida imaginária segue um roteiro bem menos emocionante do que o enfrentamento de deuses ou seres mitológicos: trabalhar, lidar com a burocracia, levar os filhos na escola, passar no banco ou ficar tomando chá de cadeira no médico não dá lá experiências muito eletrizantes.

Para alguns, a procura de um desafio preenche esse vazio e é muito comum o esporte ter um espaço nessa busca - embora, diga-se, poucos realmente desejam aventuras com riscos.

Recentemente vi um pequeno documentário sobre uma maratona, cuja parte final é na Serra do Rio do Rastro.

Pessoas correndo em uma Serra asfaltada dão caldo para uma experiência a ser compartilhada?

Bem, depende de quem corre ou põe a carne no pastel.

Corredores subindo uma ladeira em meio a chuva e ao vento com cenas ora variando entre quadros em branco e preto, ora coloridos, e muitas pitadas de slow motion para captar as expressões de sofrimento ou dar um tom cool as passadinhas curtas e esforçadas dos "guerreiros".

O problema é que as cenas, somente elas, não preenchem infindáveis trinta minutos e o pacote precisa das histórias dos corredores.

Na fala de alguns, a Serra ganha o status de personagem e vira “Montanha”  e cada passo para o topo representa um embate, uma conquista e a celebração de uma história pessoal que carrega uma lição de vida.

Na teoria....

Porque o que sai mesmo é uma farofa filosófica de coisas que não dão liga.

Um a um, vão se enfileirando clichês sobre "conhecer os seus limites", "humildade", "superação nos treinos", "metas e objetivos" e muito blá-blá-blá com pitadas de emoção escolhidas a dedo.

Um corredor  fala do extenso currículo de maratonas, ultramaratonas e, ao se referir aos amigos que conheceu ao longo dos anos, cai no choro.

Já no pórtico de chegada, outro fica aos prantos e diz que trocou o vício da drogas pelo vício da adrenalina, da serotonina e da corrida.

Mas esse é mais engraçado.

Arremata dizendo ter participado para se divertir - tanto que, temendo quebrar se acompanhasse o ritmo dos outros, preferiu largar atrás de todos os corredores.

O vídeo foca ele, humilde de tudo, fazendo exatamente isso.

Tá com pena?

O dito cujo chegou em terceiro entre 300.

Ele diz e repete com cara de espanto "Não acredito, não acredito...não acredito".

Pois é, nem eu.

Ao fim do documentário, não é apenas o roteiro salpicado que incomoda.

Queria saber por onde andam os motivos banais.

Ou isso por acaso não faz parte da nossa natureza?

Gostaria de ouvir respostas do tipo "Tô aqui para perder a barriga", "Curti a camisa e tem que fazer a prova para pegar uma", "Moro perto e não estava fazendo nada mesmo", "Aposta com os amigos, agora agora tô me F*&%$#@".....

"Por Nada..."

"Sei lá...."

Agora, claro, isso não vem da maioria dos corredores.

Não bastasse aquela subida do capeta, ainda são fustigados com perguntas sobre o que aquela experiência representa, quais ensinamentos se tiram de tanto sacrifício, o que significa romper os limites, o que alimenta a motivação....

Eu fico olhando e....sei, não.

A gente precisa de tanta coisa assim para correr?

É muita viagem achar que uma rampa gera uma Odisséia.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Ironman Fortaleza 2014

Uma coisa que vem tirando a graça dos relatos sobre as provas em Blogs é a velocidade com que as informações circulam por todos os poros das redes sociais.

Não tinham batido 24 horas e eu já tinha lido um quadro fiel e completíssimo sobre o Ironman de Fortaleza por WhatsApp - produzido, inclusive, por quem não esteve lá.

O que muda é como cada pessoa seleciona os fatos ou dá importância para os detalhes.

Por exemplo, uma curva meio encalacrada dentro do perímetro ou um carro que estava cruzado na área onde só deveria trafegar atletas foram fatos destacados com lente de aumento por algumas pessoas; para outros, valeu o que aconteceu no restante dos 180km, em que a segregação entre carros, pedestres e bikes funcionou bem e o percurso era pouco técnico a ponto de exigir qualquer destreza no pedal.

Mas isso não é normal?

É e não é.

Em provas que exigem muito física e mentalmente, os detalhes desencadeiam reações estressantes e essas ficam grifadas na nossa mente.

Isso faz parte da forma como registramos nossas experiências.

Você pega dezenas de caramanholas nos postos de hidratação, mas aquela que estava com a tampa meio aberta e espirrava água para todo lado não sai da sua mente  - e não raro esse fato leva você a qualificar todo o resto com um sensível mal humor.

Mas isso também tem explicação em um certo viés do nosso olhar, criado por promessas irrealistas.

Acho que a franquia Ironman nos mima um pouco e promete o que ela mesma não tem como garantir - uma experiência de "superação" totalmente controlada, com vaga no estacionamento, escada rolante, segurança e ar condicionado.

E a gente fica com aquela expectativa de sala VIP em aeroporto internacional.

Fio, o mundo não é assim.

No perímetro urbano não há como controlar todos os fatores que estão dentro ou no entorno desse ambiente.

Quem é mais sacudido às vezes parece que não é e se deixa levar por estresse típico de meninos de apartamento, que acreditam que uma prova de Ironman é como passeio no shopping.

Uma coisa é a organização prometer e, outra, você acreditar.

Acho que a nossa critica melhora a qualidade da prova, mas vai uma distância grande entre questões mais estruturais e detalhes que ganham uma dimensão fora do comum.

Mas reconheço que esse exercício de distanciamento não é trivial.

Vou ou não vou?

É de conhecimento geral que entre o números de inscritos e o de concluintes, houve algumas centenas de desistências.

E eu quase engrossei essa estatística.

Faltando duas semanas para a largada tive uma virose que me jogou na cama por três dias. Não bastasse isso, inexplicavelmente, senti uma pequena contratatura na musculatura das panturrilhas descendo a escada que me deixou praticamente sem nenhuma atividade durante o polimento.

Apenas na última semana fiz rolo durante 45 minutos e nadei 1.500 metros - mas não conseguia religar meu corpo e me sentia exausto na maior parte do tempo.

E, como de costume, ainda sentia a tensão pré-prova, que para mim é coisa séria - eu fico realmente mal até a hora da largada.

Uma situação de estresse totalmente desproporcional.

Inconscientemente, parece que você vai, literalmente, em direção a uma batalha de vida ou morte. A solução passaria por um diálogo interno de auto-convencimento em que se vai desanuviando a seriedade da coisa toda.

Mas quem disse que eu sou bom nesses tais "diálogos internos"?

Acho mais fácil falar sobre o assunto em blog ou no site do MundoTri do que colocar as coisas em prática na minha própria vida.

Reconheço que aplicar conceitos abstratos para falar da experiência dos outros é moleza.

Bem, tudo se resolveria de uma forma bastante confortável simplesmente desistindo - o que me tiraria um peso gigantesco das costas.

Ai fala daqui como Kleber Corrêa, falando dali com o Edú "Três Meios", acabei decidindo me esforçar mais e não abandonar um projeto para a qual eu tinha feito um esforço danado nos treinos.

Procurei o André Pinto, amigo, fisioterapeuta e triatleta da BR, que abriu duas sessões na agenda dele na semana da viagem - acupuntura, massagem e bandagem me deixaram confiante de que não me faltaria condição física para fazer a prova.

No dia da partida, estava eu no aeroporto rumo à Fortaleza.

Cadê a Expo?

Devidamente instalado, a primeira providência era procurar a Expo para a montagem das bikes e compra de algumas coisas para a prova.

Ai toca para o Marina.

Sabe quando você entra em um prédio esperando encontrar um apartamento de três quartos, suite, sala de estar, sala de som, salão de jogos e uma varanda enorme com churrasqueira?

Mas o que tem mesmo é sala, quarto e cozinha - e o banheiro é externo?

Eu me senti mais ou menos dessa forma quando cheguei na Expo - tanto que fiquei rodando um pouco para me certificar de que estava no lugar certo.

Havia apenas uma oficina na principal loja do evento e bem esprimida em poucos metros quadrados.

Dada a demanda, obviamente já não havia gel, cilindros de CO2 e muita gente que compraria suplementos na feira teve que se virar fora dela. Outras coisas tinham um preço exorbitante, como caramanholas sendo vendidas por coisa de 70 reais.

Há aqueles que encaram a Expo como um pequeno templo de consumo caro e desnecessário, um alçapão para vendedores oportunistas e um interminável desfiles de egos ou aqueles tipos que enchem a pança com suplementos.

Só que isso isso é preconceito, viu?

A Expo é a primeira infra-estrutura da prova e das mais importantes, sobretudo em provas que tem caráter internacional.

Não sei qual aritmética comercial a Latin Sports faz para negociar espaço, mas se a conta não fecha entre a organização, lojistas e prestadores de serviços, ao cabo de tudo prejudicados serão os atletas.

Outra coisa são nossas referência simbólicas, pois às vezes nos falta certa sensibilidade para nos colocarmos no lugar do outro.

Não fosse assim, o que explicaria a escolha de uma jaqueta preta, impermeável e com forro, vendida como peça de Finisher?

Como perguntou Camila, de Maceió,  "de que serve essa jaqueta aqui no Nordeste?"

Também não sei.

O Ironman de Fortaleza merece mais.

A Prova

Natação


"Somente os peixes mortos vão a favor da corrente"

Você só precisa ler sobre um relato para entender o que foi a natação - e não importa se ele for feito pela elite ou por amadores.

Foi um samba de uma nota só pra todo mundo.

Acostumados com o padrão de natação em lagos, como Pirassununga ou Brasília, ou praia tranquilas ("Praia Mansa" em Caiobá ou mesmo Jurerê), encarar a natação de Fortaleza é uma dificuldade que valoriza muito o resultado da prova.

O inicio foi dentro d'agua e relativamente confuso, pois vários atletas foram entrando na água e avançando em relação as bóias na direção do pessoal que estava nos stand-up paddle.

Só que do alto-falante, veio o pedido para que recuássemos e, quando muitos faziam isso, a largada foi dada.

Foi até relativamente bom, porque aumentou a dispersão dos atletas e nadamos sem aquele UFC costumeiro.

Quando saímos da áreas da pequena baia, a natação se tornou realmente desafiadora em razão das marolas.

E ai de você se achava que era possível nadar com aquela técnica bonita, deslizando o corpo naquele mar. Nunca foi tão evidente para mim a necessidade de braçadas continuas, sem deslize e um baita esforço para alinhar o corpo quando a força lateral das ondas me jogava para o lado.

É um tipo de natação totalmente diferente. Não foram poucas as vezes que achei que estava dando braçadas no vácuo.

Como respiro para a direita e a correnteza era lateral, nem preciso dizer que a questão não era se iria ou não iria engolir água, mas a quantidade de goladas incrivelmente salgadas que ia colocar para dentro.

Nos primeiros 1.700 metros da ida a sinalização era relativamente boa e em nenhum momento perdi de vista as bóias ou a escuna que demarcava o primeiro retorno. Sentia também que nadava no meio dos outros triatletas com um desempenho parecido com o meu. Fiz os 2.300 metros em 43 minutos.

Só que, amigo, na volta....

Todo mundo sabia que o retorno seria mais duro e um amigo de Fortaleza já tinha me indicado que nadaríamos contra o sol. Mas eu não tinha idéia do tamanho do enrosco!

Imagine algo como um aquelas cenas de filmes policiais em que o sujeito está em um quarto escuro, meio desnorteado e, do nada, alguém puxa o capuz, joga uma luz diretamente nos seus olhos e grita "Porra, agora nada 1.600 metros....".

Desse jeito.

Sem conseguir me situar, de um segundo para outro, me vi completamente sozinho. Não sei explicar em que momento perdi a conexão com todo mundo que nadava no meu entorno ou mais a frente.

A idéia de que você se perdeu no mar é cruel do ponto de vista psicológico, pois a sensação é a de que está fazendo uma bobagem monumental e não sabe qual.

E não havia ninguém que servisse de ponto de referência - não havia nada!!!

Vez em quando eu conseguia ver um braço distante saindo da água e tentava seguir aquela braçada.

Mas as marolas não deixavam e o mar parecia uma bandeja de prata refletindo o sol.

Tomei muita bifa das ondas na cabeça, principalmente no ouvido esquerdo e meu nariz começou a arder - coisa que só posso explicar pela salinidade. A camisa também pegou o meu pescoço e senti o corte a cada braçada.

Foi nesse momento que eu pensei que tinha que sair daquela situação.  Quando passei pela praia onde tinhamos treinado nos dias anteriores me situei, pois sabia que logo em seguida viria o hotel do Marina.

Quando vi o pessoal sentado nas pranchas entendi que eles não conseguiriam ficar de pé para servir como referência - mas pelo menos tinha eu, finalmente, uma referência dentro da água.

Nadei quase trezentos metros a mais e meu retorno levou 54 minutos para ser feito.

O tempo da natação foi o pior que já fiz na vida: 1:40.

Depois, conferindo as imagens do GPS, vi que não tinha errado tanto.

Na verdade, fui mais lento do que torto.

E, nesse sentido, não posso dar muitas desculpas, pois mesmo tendo em vista todos os problemas, outros atletas com a mesma história (ou piores), conseguiram sair da água bem antes de mim.

Achei demais todo mundo fora da zona de conforto naquele mar desafiador - e, pelo menos na minha opinião, as pessoas se saíram muito melhor do que elas julgam, ainda que houvesse um comprometimento do tempo ou mesmo do resultado final.

Ficar feliz com 1:40, não fiquei.  Por outro lado, foi o meu melhor na prova inteira, porque eu recuperei o controle para sair de uma situação em que poucas vezes me vi em provas de Ironman.

Ter comprado a briga com aquele mar me deu uma estranha satisfação.

Bike

Para quem for fazer o IM de Fortaleza no próximo ano, vale programar um treino de reconhecimento do percurso e testar os ajustes da bike - porque na área no entorno da Expo não tem espaço.

Poucos lugares são como Florianópolis, dada a disponibilidade de estradas e vias sem trânsito em Jurerê.

Fui para prova na base da fé mesmo - mas, fazendo jus ao trabalho do pessoal da Expo, estava tudo redondinho.

Um pouco cansado pela natação difícil, sai para pedalar e tracejei a orla de forma bastante cuidadosa até conseguir sair dos trechos mais estreitos do perímetro urbano - que, aliás, antes que alguém reclame, em nada difere do que se vê, por exemplo, no 70.3 de Miami.

Apesar de tudo que foi falado sobre o vento e o calor, o pedal foi duro, mas não impraticável.

O problema de se pedalar ora com vento contra, ora a favor, é administrar a alternância de ritmo.

Outra questão, que se coloca é lidar com a forte possibilidade de desidratação.

A alternância de ritmo eu já havia treinado bastante, porque o Rodrigo tinha programado treinos dessa forma e, na Ciclovia do Pinheiros, o vento dificulta e facilita.

Fui bastante conservador e resisti a tentação de fazer força contra o vento.

De certa forma estava presente na minha mente a quebra no final da primeira perna do IM de Florianópolis e seria uma estupidez sem tamanho querer compensar o tempo ruim da natação com um pedal forte.

No quesito hidratação, achei que seria bom, tal como na corrida, pegar algo em todos os postos. Mas faltou água em alguns deles e, em outros, estavam enchendo as caramanholas com a água de gelo derretido.

Pra mim, o pior erro da organização.

Como não aconteceu de forma generalizada, foi possível contornar essa situação.

Tive um outro problema que foi uma dor nos pés. Eu esticava as pontas, doía; comprimia, doía; pedalava de pé, doía; sentado, doía.

Se não fizesse nada, doía.

Parei por dois ou três minutos e percebi que bastava desclipar para a situação melhorar bastante e fui fazendo isso em alguns momentos.

Depois de muito vai e vem, sobe e desce, vai pra cá, vai para lá e direita e esquerda no restinho de pedal que faltava, cheguei na transição me sentindo bem e satisfeito por 5:57.

A Corrida

Uma das piores experiências que tenho em provas de triathlon, acho que inigualável, é dar conta dos primeiro quilômetro da maratona de um Ironman.

O desconforto físico e pensar em correr 42k, que se traduz, no meu caso, entre quatro e cinco horas, pode ser mentalmente devastador.

É daqueles momentos em que você pensa que é realmente muita coisa para se dar conta em apenas um dia.

Mas treinamos para isso e aos poucos vamos encontrando um ritmo.

Simplificando bastante, existem duas categorias de atletas na maratona de um Ironman: aqueles que conseguem correr e aqueles que seguem.

Isso não significa que a ordem de chegada  privilegie um ou outro, já que o riscos são diretamente proporcionais ao esforço e cada pessoas assume os seus; mas é bonito ver a moçada fazendo o tracejado da maratona correndo forte.

Eu sou do grupo que vai tocando e as coisas foram relativamente bem até o 10 quilômetro, quando comecei a sentir dores e fui obrigado a andar alguns minutos - tinha planejado caminhar apenas nos postos de hidratação, mas "planejamento" em provas de Ironman é para poucos.

Outra coisa difícil de administrar foi beber e sair correndo com o estômago cheio - e quando começava a melhorar, repetia o mesmo ritual já no posto adiante. No meu caso, correr com uma sensação de sede infinita e desconforto da ingestão de líquidos é uma das coisas mais difíceis em um Ironman.

Estava quente, mas a sombra que os prédios projetavam na orla e o vento aliviaram bastante o temido calor - longe, portanto, da necessidade de se molhar o tênis em razão da temperatura do asfalto, como foi comentado em certos círculos antes da prova.

Do ponto de vista do desempenho, a marcação do pace de nada significava, já que variava muito o tempo que passávamos em cada posto de hidratação e, além disso, eu já tinha abandonado qualquer pretensão e só queria fechar aquela prova duríssima.

Minha última volta foi um esforço mental difícil. A tentação de andar foi gigantesca e não há receita pronta para evitá-la. Fora o incentivo dos amigos para não entregar os pontos, eu andava no posto de hidratação e, recurso super manjado, marcava um ponto no chão a partir de onde voltaria a correr.

Funcionou na maioria das vezes.

A noite já entrará e era possível ver as luzes dos navios enquanto corríamos no belíssimo Pier da Praia de Iracema pela última vez.

Fechei a maratona para 4:40 e a prova em 12:29.

Para quem tiver interesse, seguem os dados do Garmin aqui.



Train Low Race High

Em termos de suplementação, levei nas caramanholas água com SUUM, tomava duas cápsulas de sal a cada hora e gatorade dos postos de hidratação, mais esporadicamente.

E apenas um gel durante o Iron todo.

Não tive problemas com o estômago ou falta de energia.

Mas também não senti que isso melhorou ou atrapalhou meu desempenho.

Apenas na semana em que fiquei doente e na posterior, mudei um pouco a rotina da dieta Low-Carb porque tive receio que uma restrição muito forte pudesse ter implicações negativas para me curar virose e sair daquela letargia que parecia crônica.

Reintroduzi frutas e mel com panquecas aqui em São Paulo. Já em Fortaleza, saíram esses alimentos e entrou batata doce.

Abri mão dos almoços e jantares carregados de massas nos dias que antecederam ao evento. No dia da prova, optei apenas por um pequeno pedaço de bolo de cenoura no café da manhã.

E não senti falta de mais nada.

Isso significa abandonar totalmente dos carboidratos em favor das gorduras?

Não se abre mão dos carboidratos sob risco se expor ao chamado "bonking", isto é,  uma depleção fatal que se traduz em uma quebra feia. Além dos mais, há benefícios no consumo de carbos para uma recuperação mais acelerada e a preservação da musculatura afetada durante o exercício.

Há ainda os que defendem chamada abordagem "Train Low Race High".

Tal como corredores que fazem treinos em grande altitude para se adaptarem a restrição de oxigênio e depois competirem ao nível do mar, essa estratégia nutricional indica que atletas adaptados que têm usualmente baixa ingestão de carboidratos poderão fazer uso vantajoso desse recurso nos dias de competição, quando então são fartamente oferecidos.

De qualquer maneira, as dietas cetogênicas diminuem significativamente a dependência de carboidratos. Caso sejam comprovados, há ganhos que poderiam ser significativos, sobretudo no caso de triatletas que apresentam problemas de digestão em situações de esforço e estresse.

Concluindo

Opinião pessoal, acho que o IM Fortaleza foi prejudicado por um alarmismo típico de rede social bastante desproporcional ao que de fato aconteceu na prova.

Um marketing meio que pelas avessas que levou dezenas de pessoas a não fazerem a inscrição ou desistissem mesmo depois de terem feito.

Sobre isso, que me desculpem, mas não vi em Fortaleza mais vento, calor e umidade do que presenciei no IM do Texas. Alguém é capaz de associar o que aconteceu lá com o que foi visto no Campeonato Mundial de 70.3 em Las Vegas em 2012? O primeiro (e, se não me engano, primeiro e último) Ironman na China?

Desde de logo, não estava fácil, mas exagerou-se na dose.

Sem a mínima pretensão de ser imparcial, achei o IM de Fortaleza uma das provas mais incríveis que já fiz.

Isso não significa que ela tenha sido perfeita, porque isso não existe em lugar nenhum do mundo.

Significa que com ela reencontramos a credibilidade, pois a ampla maioria dos triatletas que estavam lá resolveram bancar seu resultado pedalando com a cara no vento.

Significa que ela nos devolveu o gosto pelo desafio, o respeito pela distância e embalou um bonito sentimento de conquista pessoal.

Significa que o Brasil é grande e precisamos todos nos conhecermos melhor. Meu sonho é um pouco o que vi nos EUA, em que você vai para a prova e se depara com uma paisagem repleta de pessoas usando camisas de eventos realizados em todo o pais.

Confesso que no dia seis de novembro segui para o meu sétimo Ironman cheio de dúvidas.

E no dia nove a única certeza é que eu não queria estar em outro lugar.