quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Challenge Family 2014 - Parte I

Ninguém vai discordar que uma prova nos moldes do Challenge Family é mais que bem vinda -  não fosse apenas por um calendário com mais opções,  agregar uma corrida de 5k para mulheres e o Triathlon Kids no dia anterior a prova cai muito bem.

E o arsenal de boas idéias não parava ai: da implementação de uma largada em ondas, passando por um simpósio com palestras interessantes até uma mochila no kit pareciam indicar que a organização iria dar uma repaginada nas provas de longa distância no Brasil.

Só que parece que a organização colocou salto alto no evento principal.

E errou feio.

Uma vez escrevi que as entidades que organizam os eventos no Brasil são pequenas empresas familiares de fundo de quintal e refletem muito a personalidade do dono. Já aquelas que detêm o direito sobre o uso de marcas internacionais, tem uma receita de bolo já testada - é só seguir o manual.

As duas funcionam de forma diferente.

As primeiras, como as organizadas pela Cia de Eventos e a NA Sports, se apóiam no mesmo ritual - você chega no Troféu Brasil, Internacional de Santos, no Long Distance de Caiobá ou Pirassununga e já sabe o que tem que fazer.

Aliás, tem a impressão que já nasceu sabendo.

Nas provas organizadas pela Latin Sports, como o Ironmam ou o 70.3, são as instruções são detalhadas no envelope que todos recebem no balcão de retirada do kit e ali são dadas todas as informações por pessoas inegavelmente bem treinadas. Em qualquer lugar do mundo você vai encontrar a mesma lógica.

É aquele jeitão meio MacDonald´s de organizar provas de triathlon.

Entretanto, essas provas também tem problemas crônicos que frustram as expectativas dos triatletas - preço, vácuo e traçados que não respeitam a distância prevista no regulamento são apenas alguns deles.

A vantagem de quem chega mais tarde na festa é saber de cor e salteado a cartilha dos erros e acertos dos outros.

Só que o Challenge deu uma contribuição de 500 páginas para a primeira parte da cartilha.

Vou tentar me manter afastado das impressões negativas que podem ser resultado de um caso isolado, tal como o fato das camisas no meu kit e de Finisher terem o mesmo número, mas de tamanhos diferentes - erros assim, se isolados, são bastante compreensíveis.

O problema, de fato, foi que a soma de equívocos se deu em torno de questões em que ninguém erra mais, como a distribuição de garrafas descartáveis no pedal ao invés das habituais caramanholas, erros de programação que geraram uma longa fila para entrega da bikes ou a proibição de wetsuit strippers na primeira transição.

Mas nada supera a falta de água nos postos de hidratação tal como se viu - e muito pior que o Ironman de Fortaleza, já que ela não ocorreu de forma isolada.

Sem ter a pretensão de falar sobre os erros todos, exaustivamente mapeados em posts muito bem feitos do Facebook, só vou tentar passar dar uma rasante sobre o assunto.

Se alguém me pedisse para resumir os problemas principais, eu citaria apenas alguns - porque destes derivou todo o resto.

Primeiro, a organização embaralhou os conceitos dos concorrentes e fez um boneco remendado com o pano que sobrou do Dash ano passado.

Tinhamos três sacolas com cores diferentes, tal como o Ironman, mas sem nenhuma indicação do que ia aonde. Descobriu-se depois que não era necessário usar nenhuma, tal como em Pirassununga, pois poderia deixar tudo em uma caixinha - aquela do Internacional de Santos.

Ou seja, ela nos confundiu porque misturou todas as nossas referências.

Outra exemplo foi o revezamento.

Eu sou ranheta com esse negócio: há conceito mais anti-triatlético que revezamento?

Havia duas dinâmicas na prova, que ficaram muito evidentes no pedal.

Não bastassem os próprios triatletas que se acham ciclistas de contra-relógio porque agora estão se vestindo como tal, os ciclistas do revezamento vieram voando pelos lados, por cima, por baixo e até na contramão em uma disputa totalmente insana em meio a cones que não estavam sempre alinhados.

Já outros triatletas, muitos deles iniciantes, tinham dificuldade em apanhar as garrafinhas de água nos postos de hidratação com a mão esquerda.

Isso só não gera mais acidentes porque fica debitado na conta de quem é precavido tomar cuidado para evitar as quedas.

Bem, falando nisso, outro ponto importante diz respeito a coibição do vácuo por meio de duas medidas: largada em ondas e maior rigor nas punições.

A largada em ondas funcionou, mas também não funcionou.

O Santiago Ascenço disse que foi ótimo para os pro e isso é uma marca positiva.

Já entre os amadores, tenho a sensação que não deu certo.

Se no Ironman o tempo de natação seleciona os integrantes dos pelotes, com as largadas em onda parece que acontece a mesma coisa, com a diferença que os agrupamentos são de pessoas da mesma faixa etária.

Não tenho dados para falar sobre a eficiência da fiscalização, já que não vi até agora estatísticas ou a divulgação de nomes de atletas punidos.

Mas fizeram um lambança monumental: os atletas punidos por situação de vácuo tiveram seus tênis retirados da zona de transição e levados para o penalty box.

Ninguém vai aqui defender os vaqueiros, certo? Acho até que, se era para fazer maldade, poderiam fazer direito: dá um nó cego no cadarço e joga em algum fio da rede elétrica.

Só que o problema foi o seguinte:  ninguém avisou a tigrada que ia ser assim.

Dá para imaginar um monte de pitbull tendo chilique e correndo de um lado para outro com bermudas de laicra e sapatilha? ;-)

E, nesse sentido, a gente pode falar sobre de outro grande erro da organização: informação.

O site do evento era um deserto para quem queria se informar e auto (in)explicativo - alguém entendeu porque, no lugar das faixas etárias, colocaram categorias do tipo "30 A", "40A" etc?

O folder não trazia informações básicas, como o horário das largadas dos grupos etários e ainda fornecia orientações erradas. Uma delas dizia que as sacolas deveriam ser deixadas junto com a bike no sábado - e não foi isso que se viu.

O Congresso Técnico foi ruim de lascar.

Embora ninguém queira um Silvio Santos falando, uma certa dinâmica de auditório é desejável para manter o foco de uma platéia ansiosa.

Em um salão com centenas de triatletas confusos por conta de informações contraditórias, a apresentação se orientava por um power point feito para uma sala de dez pessoas.

Acho que nem o Hubble mirando naquela tela ajudava.

Informações desnecessárias, tal como como foi o treinamento dos fiscais até descrição exaustiva da altimetria do pedal com um mapa de GPS chapado deu sono; já a ordem de largada de faixas etárias, sobre a qual não havia informação alguma, era mostrada em letras minúsculas e ilegíveis.

E o texto parecia mal decorado e o palestrante titubeou em vários momentos: ora usava-se "deve-se, ora "pode-se" para uma mesma situação.

Agora, em resumo, como foi o evento então?

Olha, foi show!

Antes de achar que está lendo o texto de um sujeito que sofre de transtornos mentais, me dá uma chance para me explicar o "foi show".

Primeiro, porque o Challenge Women e o Triathlon Kids não podem passar em branco.

Agradar as pessoas que nos acompanham nesses eventos longos é uma experiência de retribuição que, como tal, nos agrega uma alegria incomum.

Olhe as fotos das pessoas e você vai entender.

Segundo, precisa ser muito craque para estragar uma prova de triathlon em Jurerê.

Nem a diretoria do Vasco e do Palmeiras, juntas e combinadas com a CBF, conseguiriam esse feito.

Como colocou o Rafael Pina no relato dele, a muvuca com todo aquele pessoal assistindo e o fato de participar de uma prova entre amigos traz sentimentos gratificantes impossíveis de serem colocados no papel.

Isso traz um ensinamento que toda entidade que se presta a organizar uma prova de triathlon já deveria saber: triatleta adora mimos e firulas, mas essencial mesmo continua sendo o básico.

Não é difícil.

Põe dois chinelos no gol, marca a área no chão e dá uma bola pra jogar....

O resto deixa com a gente.



5 comentários:

Beto Nitrini disse...

Bessa, infelizmente não pude fazer a prova, pois a festinha de aniversario do meu mais velho caiu na mesma data e acabei optando por Pirassununga (prova sem frescuras mas que funciona como um relógio).
Acho que a prova precisa maturar, houve erros? Sem duvida, mas se os organizadores tem a intenção de permanecer (e parece que tem, pois anunciaram outra prova para Maceió em 2015) e tiverem humildade para reconhecer os erros, temos tudo para ter mais uma grande prova em 2015.
Minhas grandes questões ficam por conta da natação. Se deu para nadar 900m, dava para nadar 1.900m (Ah! Mas e os iniciantes? Iniciantes deveriam começar no short e não num meio ironman. Quem está lá tem aguentar nadar 1.900m em aguas abertas). Se não deu para nadar vira duathlon. Não houve respeito ao regulamento, como no Internacional de Santos do ano passado.
Vácuo; a medida de remover os tênis é excelente desde que comunicada. A punição por baciada acaba sendo injusta pontualmente, mas creio que ano que vem o numero de punidos cairá absurdamente, pois o "crime" só compensa quando há certeza da impunidade.
Espero que a prova se fortaleça, mature e melhore com o tempo.
Com o crescimento do numero de provas os organizadores poderiam conversar e não colocar todas nas mesmas datas, como foi este ano e como promete ser 2015.
abs!

Rodrigo disse...

Sobre a largada em ondas:
Fiz o IM boulder este ano e a largada foi em ondas pelo pace da natação. Sem confusão alguma. Largaram os pro, depois que, faria ababaixo de 1h, seguido de 1:10 e assim por diante.
Ponto positivo: tráfego zero e confusão zero na natação. Sem pelotões no início do pedal, que não se formou depois também pela altimetria da prova.
Ponto negativo: vale para menos de 10% da prova. Não saber onde seus concorrentes estão largando, não dá para fazer uma marcação para quem briga por vaga.
O tempo final foi líquido, do tapete da largada ao tapete da chegada. Porém para quem não largou na primeira bateria o tempo no pórtico não era o tempo final.
No geral foi ótima a largada. Melhor do que numa bateria só como no IM Brasil.
O que eu mudaria?
Após os pro, oferecia aos que brigam por vaga largarem juntos.

Fernando Asdourian disse...

Grande Bessa !!! Sempre um mago com as palavras

Se me permite

Pontos positivos :

Eventos acessórios , como Kids e Corrida para as mulheres
Local da prova e circuito (principalmente da corrida)
Medalha , camisetas e mochila (o famoso kit)
Punições


Pontos a melhorar
Informações ao atleta - um canal único de informações , seja ele o site , um painel na expo , etc.
Bike check in
Ter ou não tenda de troca - sacolas ???
Logística dos postos de hidratação - Não dá para acabar líquidos (isso pq não fez sol na corrida)e depois que vc chega ver uma quantidade enorme de água estocada.
Garrafas, ou melhor, recipientes adequados para água e isotônico. Digo isso , pois na corrida copinho, na bike squeeze.
Espaço entre as bikes X Sacola = Se não tem nada para colocar lá está ok , mas se suas coisas ficam lá está apertado demais
Controle de tempo na penalização
Banheiros no percurso da corrida , Vc viu algum ?

O que foi péssimo :
Jantar de massas
Retirada de kit
Falta de informação

Beto Nitrini disse...

Rodrigo, entendi sua ideia de largada em ondas. Mas quem seleciona quem pode largar em que momento?
Aqui no Brasil, nas provas de corrida de rua no "curral" de largada existem provas que colocam sua expectativa de tempo médio Ex: 5'/km, 4'30''/km etc... e quase ninguém respeita!
A ideia é boa, mas controlar é que é difícil!
Abs!

Long Distance na Bagagem disse...

Vagner, excelente post.
Ia dizer tudo que vc falou, mas sinceramente, ficar repetindo... dá um sono. Teu texto disse tudo e mais um pouco, exatamente tudo que eu queria dizer no meu, por isso, como estou sem tempo de fazer minha postagem e já passou tanto tempo, queria saber se posso colocar um link no meu blog com tua postagem. Não é copiar, é evitar repetir tudo de novo.

Abraço