segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

100 x 100

Quando eu ainda treinava com o Vinnie, uma vez ele me escreveu dizendo que todo final de ano os triatletas deveriam celebrar.

Celebrar significa fazer algo desafiador,  mas ao mesmo tempo prazeiroso, aproveitando o que foi agregado durante meses e meses de treinamento para o aprimoramento da nossa condição física.

Na última vez que fiz a São Silvestre, resolvi correr pela manhã a metragem necessária para completar uma maratona em uma dia. Dividia o esforço em duas partes e ainda correria com os amigos.

Fiquei com vontade de pedalar esse ano. Achar uma estrada bacana no Interior de São Paulo e fazer um "Audax" de 300k.

Só que, depois de quatro horas na Anchieta para percorrer quinze quilômetros de carro, fiquei traumatizado com essa coisa de pegar a estrada perto de feriado.

Por quê não esse desafio de 100 x 100 na piscina?

Do lado de casa, não dependia de carro...

E me julgava mais preparado do que para correr, por exemplo, já que antes do Dash eu estava com um volume alto, de 3 mil, e nadando todos os dias...

O problema é que eu não sabia como me arriscar nesse treino. Pensei em escrever para o Rodrigo, mas ai vai que ele "cê tá doido....".

Agora, como é a vida: e não é que ele fez a mesma coisa para comemorar o aniversário dois dias antes!!!!!!

Bom, joguei a idéia no Ironbrothers para alguém me dar uma luz e choveu post sobre o assunto.

Esse grupo é demais, nossa...

E foi lá que pesquei os parâmetros básicos, que vieram da Ana Lidia e o Marcos Faria,  já que eram os únicos que tinham feito esse desafio - aliás, o Marcos também dois dias antes do meu, e contou como foi.

A única coisa que não dava para pegar emprestado eram os parâmetros de tempo, já que esses dois são de outro planeta....

Achei mais razoável a sugestão do Marlus, que se fizesse esse treino, sairia a cada dois minutos.

Eu poderia nadar 1:45 e descansar 15 a cada 100.

Pensei "é isso!"

Nesse ritmo, seriam de 3:20 de água se tudo desse tudo certo.

Ajustei os alarmes do relógio para não me preocupar com contagem, coloquei três caraminholas e três sachês de gel na borda da piscina e às 10:10 comecei o desafio.

Até os cinco mil, estava tudo certo e conseguia manter a média sem forçar o sistema aeróbio. O ritmo era algo entre moderado e forte ou, como se queira, "ritmado".

Os braços estavam em ordem e não me via mentalmente cansado.

Mas a partir desse ponto comecei a ter problemas. A média subiu para 1:50 e progressivamente fui perdendo desempenho: 1:51, 1:53, 1:54....

Exatamente na marca dos 6.300 metros meu tempo batia a casa dos dois minutos - nadar direto não era a idéia e nem em sonho eu conseguiria.

A fim de dar um tempo para os braços, mudei de estilo. Puxei 700 metros, alternando costas e peito a cada 100.

Com os braços momentaneamente descansados, voltei a nadar Craw para 1:45 e feliz da vida.

Mas em 7.900 de novo bati na casa dos dois minutos. Os braços não estavam mais ajudando. Tentei nadar com flutuador. Nada. Colocar o palmar, então, nem pensar!

Lembrei do Marcos Faria falando sobre o pé de pato (embora eu, burro, devesse tê-lo usado antes dos meus braços ficarem fatigados, assim como ele fez).

Coloquei e achei que facilitaria muito, mas não foi bem assim - consegui voltar para  casa dos 1:50, saindo a cada 2 minutos.

Quando atingi 8.500 meus braços estava quase dormentes. Voltei para costas e peito. Mais quinhentos.

Ai, finalmente, eram apenas mil metros. Coloquei o pé de pato e fui...

Mas, nos 9.400 o "professor" que estava na piscina avisou que teria que sair porque o horário já tinha dado e eu não poderia ficar nadando sozinho.

Como atrasei um pouco e tive que nadar fora da casa dos dois minutos quando fazia costas e peito, eu realmente tinha extrapolado o planejado.

Tentei explicar o treino, pedi "pelo amor de Deus", mas sabe aqueles garotos que fazem educação física e não tem noção  do que é o esporte?

Pois é...

Ele me disse que não, que não, que não...

Que era Natal (mesmo faltando quatro dias), que também entendia já que ele "também treina e fica chateado quando não faz a planilha" (acho que ouvir isso foi o pior!) e que, enfim, não dava...

Eu sou sempre certinho, mas como é que eu iria deixar de completar?

Falei para ele avisar na portaria que não ia sair e que a responsabilidade era minha.

Ele foi embora e, bem, eu teria que apertar o passo e comecei a nadar direto.

Nem preciso descrever a dor...

Faltando 200 metros, chega o pessoal da portaria e fica discutindo para eu sair. Todos, diga-se, formandos em educação física....

Expliquei, pedi, implorei, disse que estava errado, que poderiam me multar...

É inacreditável como as pessoas são. O tempo que passei discutindo era suficiente para terminar o treino!!!

Não queriam me dar cinco minutos!

Argumentei se a academia tivesse problemas, se eu agisse da forma como eles estavam agindo comigo, quando as privadas ficassem entupidas teriam que resolver o problema "na hora".

Obviamente nem sei se aquelas privadas ficam entupidas, mas foi a primeira coisa que me veio a cabeça....

Dado que o negócio não se resolvia, virei as costas e sai nadando e o povo correndo na borda da piscina acenando para eu sair.

Meu, eu mereço? Não, fala....

Não foi a forma mais bacana de se completar um desafio desses, mas valeu a pena...

Para quem quiser, recomendo, pois não acho que estamos falando daquelas loucuras que as pessoas fazem a título da pavonice.

Há boas lições para se tirar de um treino desses.

Pra começar, subestimei a parte física do desafio quando achei que o problema de fundo seria mental.

É mental também, claro! Mas não é necessariamente o mais importante - o que pega, mesmo, é o braço.

Como iria fazer um tempo mais alto nas parciais, achei que conseguiria nadar craw o tempo todo.

É aquela coisa "se não vou sair para 1:50, pelo menos vou nadar tudo em um só estilo..."

Mal comparando, é aquele pensamento "não bato o recorde mundial, mas não ando na maratona".

Deveria ter feito como a Ana e o Marcos indicaram, ou seja, ter revezado os estilos e nadado com o pé de pato em alguns ciclos de mil metros para descansar os braços.

Fui fazer isso quando já estava quebrado...

Por isso, é bom repetir sempre, o problema não é a dificuldade física ou mental.

É o ego...

É numa dessas que me vejo tentado a mudar o nome do Blog para "Burro a Bessa", sabe? ;-)

Há pelo menos três coisas bacanas que servem de aprendizado.

Em primeiro lugar, ele agrega horas na piscina e você precisa lidar com a sua resistência mental como poucas vezes é possível nos treinos regulares.

Em segundo, como todos sabemos, nadar cansado é um aprendizado duro, mas que todo triatleta deve ter. O desafio é manter a técnica mesmo quando os braços estão exaustos - tal qual os atiradores de elite, que devem ser precisos depois de horas e horas de concentração e foco.

O terceiro é que você vai aprendendo a ser raçudo.

O treino não foi como planejado? Não vai sair tudo bonitinho?

Fio, se vira! Nada de costas, nada de peito, cachorrinho, pega o pé de pato, volta para o craw e não desiste!

Luta!

No final, vale a pena. Sempre vale...

5 comentários:

Andre Cruz disse...

que show. eu colocaria mais uma obs. nadar mais cedo.
feliz natal brou.
forte abs

Luis Fernando Oliveira disse...

Cara, que figura!!! Eu só estou imaginando o pessoal correndo em volta da piscian enquanto tu terminava o treino! Muito legal.

Long Distance na Bagagem disse...

Tem muita gente por ai, formada em educação física mas que só entende as coisas na teoria, não sabem nada de treinar de verdade como os triatletas aprendem na prática, e no fundo se sentem incomodado com isso, eu acho, basta ver os olhares tortos quando entramos na piscina rs.
Tirando isso, descanso de triatleta no fim do ano é fazer algo insano, é isso que nos faz fortes e capaz de alcançar qualquer objetivo :)

Abraço, boas festas.

Yeda disse...

Burro a Bessa não, taurino a Bessa... A sua teimosia te mantém treinando e competindo.

Lembro do desafio na SS, achei na época uma loucura, mas não é que vc conseguiu encontrar um novo patamar de loucura? :)

Adorei o seu desafio, mas isso não é para seres normais... :)

Bjs Yeda

Obs.: retire do seu blog as confirmações de imagens para incluir comentário...

Claudia disse...

Aaaaa taaaaaaa.... Agora eu entendi. Você se inventou este presente de Natal. E ainda por cima ficou causando com meio mundo na piscina. Acho que o ano que vem vc deve fazer 100x100 borboleta, que tal? Maluco à Bessa!