segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O sentimento do mundo....

Obviamente, dado o post anterior, esse texto não tá no clima de "suuuurprise!"

Antes de ir para Penha, eu realmente não estava no clima da prova.

As duas últimas semanas que antecederam a prova foram repletos de dias muito desgastantes e por várias vezes me achei em overtrainning.

Comentei sobre isso quando falei sobre as expectativas que tinha para a prova.

Na semana do polimento - lembrando que "polimento" no Ironguides é um período muito curtinho - mandei um email para o Rodrigo Tosta dizendo que realmente estava no meu limite mental.

Treinando duas vezes por dia, deixava os treinos de intensidade para fazer a noite. E creio que exagerei em alguns deles.

Consequentemente era difícil comer e muito mais ainda dormir depois disso.

Como havia outro treino logo pela manhã e o trabalho em seguida, em alguns dias eu empurrei os treinos para frente - porque sei que a ordem deles é importante e que não podia simplesmente inverter a seqüência.

Ele imediatamente me mandou parar. Tirar dois dias da última semana para fazer algo, menos pensar na prova ou em triathlon.

Ai a sensação se inverteu - de um pretenso estado de overtranning passei imediatamente para a sensação de que estava destreinado, gordo, cheio de dores musculares e apavorado com a possibilidade de sofrer.

Vou dizer uma coisa: é duro! :-)))))

Em que pese ser esse, acho eu, minha décima ou décima primeira prova na distância meio-ironaman, isso nunca tinha acontecido - pelo menos não desse jeito.

As coisas estavam complicadas e pensei que, se no IM do Texas eu estava bem e casa caiu, em Penha então....

Uma amiga com bem mais vivência que eu no ramo triatlético me escreveu o seguinte "é assim mesmo, quer dizer que você tá ficando no ponto".

Minha primeira reação foi "Tá me zuando essa mina, véio?" ;-)))

Não estava.

Depois de dois dias parados fui pra lá, pra Penha, na quinta-feira.

No avião encontro o Leonardo Santana, que conheci ano passado com a turma que veio do Nordeste. A gente pega o mesmo transporte e taca conversa para colocar o papo em dia.

Vou direto para a Expo, que esse ano estava menor ainda. Tinha ninguém, ninguém, ninguém.

Deixo a bicicleta com a moçada do Kona Bikes e cumprimento o Max, sentado no chão com um laptop.

Evito a tietagem de sempre, mas é um pouco inevitável comentar as matérias que eu gosto do Blog dele - disparado o melhor entre todos nós.

Arrumaram a bike na hora e fui para o Hotel.

E lá estava o Dalton Cabral, no quarto ao lado do meu.

Nosso encontramos no café da manhã e já vou tirando tudo que posso dele sobre natação. Eu e o Rodrigo Melo, que fica sempre nesse hotel.

E o Dalton é uma figuraça. O MundoTri fez um bem danado quando o escolheu para o Diário de um Ironman. Era muito divertido vê-lo timido, recebendo elogios de outros triatletas do Brasil inteiro que fizeram a prova e o reconheciam por conta do belissimo trabalho que ele fez.

E o cara é uma ótima companhia para as provas porque ele fica em uma "frequência diferente".

Putz, agora vai explicar o que é isso...

Sabe quando o sujeito fica "pilhado" pré-prova? Então, inverte. O Dalton é o "des-pilhado.

Um amazonense com índole bahiana. ;-)))))

É isso é uma atitude consciente. Ele simplesmente sabe como evitar desperdicio de energia - isso vai da economia de gestos, discussões agitadas ou estresse com horário para almoçar, pegar a bike, kit e por ai vai...

Mas não se engane: quando você vê aquele cara falando tranqüilamente, de forma pausada e sem movimentos exagerados, não imagina o que ele faz na prova.

Ai você entende o profundo significado daquela frase "Devagar também é pressa". ;-))))

Nesse meio tempo, a gente também deu de cara com o Wagner do Mundo Tri, o Pipo e o Luis Fernando, da All Distance - loja bacana aqui em São Paulo - e depois se juntou ao grupo o Artur Alvim - uma figuraçááááááá que tem o recorde da bolinha da USP! E não posso esquecer o Wlad, claro, que veio do Rio e chegou na quinta-feira a noite.

Aproveitando a deixa, também não posso deixar de citar o encontro que tive com o pessoal do Sul. Marlos, Aline e o Pablo Bravo.

O Pablo também tem um Blog, a gente se conhecia porque um lia o outro, mas nunca tivemos oportunidade de nos conhecermos pessoalmente.

E essas coisas são muito engraçadas; sei lá se sou eu que me dou muita intimidade (e não devia), mas a gente conversa e parece que se conhece a décadas!

Assim também foi com o Ricardo Saldanha, que nos foi apresentando pela Nilma, em uma mesa captaneada pela figura super simpática do Marinaldo Brito. Ricardo tem uma história no triathlon e contou um pouco dessa história pra gente.

Ele fez a prova com o dedo do pé quebrado e ainda tirou um quinto lugar na categoria.

No dia da prova, na área da transição, encontrei a Mariana Andrade, Lisandra e Ana Lidia. Depois encontrei mais gente...

Wagner Spadotto, Marlus, Luquinhas, Aline, Elionai, Lourenço...Nossa!

É, sei que que nem estava lá pode estar pensando. Só que gosto de lembrar a Deise Jancar dizendo que cada prova não se resume a um resultado, mas um encontro de amigos que a cada ano se agrega mais gente.

Perfeito.

Enfim, eu que sai de São Paulo cabisbaixo achando que ia ficar assistindo televisão o dia todo estava tendo uma ótima pré-prova. Bastou algumas horas para estar me sentindo em casa rodeado por amigos e pessoas bacanas.

Para variar perdi o fio da meada. Onde é que a gente estava mesmo???? :-)

Bem, na ante-vespera da prova, passei a noite em branco. Não dormi.

Eu não me sentia tenso, mas quem sabe o que rola no seu inconsciente?

No dia anterior, a gente fez tudo com calma e tocamos eu, Dalton e Wladimir para entregar as coisas na área de transição. Estava lá o Terenzzo Bonzoni, que me pareceu um cara super simpático, além do Chicão, Santiago.

Comemos um pizza a noite e fomos dormir. Ai como eu estava com o sono todo atrapalhado, apaguei.

No dia seguinte acordei bem e tocamos o barco para a prova.

Mas já na praia me bateu um certo nervosismo e meu coração dava umas disparadas.

Coisa que nunca aconteceu. Que creca era aquela?

Fui para fazer um aquecimento no mar e logo deu para notar que as ondas na entrada não estavam bolinho, não. Ai me lembrei do TB de Santos quando eu tentava entrar no mar e não conseguia - minha toca veio parar no dedão do pé de tanto caldo que tomei.

Dada a largada, o problema foi menor do que eu pensava. Na entrada as ondas não atrapalharam tanto.

Ai rolou o de sempre: foi tabefe pra cá, tabefe pra lá...enfim, coisa que todo mundo está acostumado - embora não devesse.

Sei lá quantas vezes vou escrever sobre isso, mas não me conforma o fato de que 99,9% das bofetadas que a gente toma na natação não são necessariamente involuntárias. Porque as pessoas insistem em jogar o braço em cima da gente sabendo que estamos lá e que não vai adiantar picas?

Não estava difícil localizar as bóias maiores, mas as menores eram da mesma cor das toucas.

Complicou um pouco...

Nadei o que deu para nadar - nem bem, nem mal. Acho que na casa de 34-35 minutos...

Só que quando estava cheeegaaaando na praia, veio uma onda e quebrou em cima de mim.

Foi uma chicotada daquelas para não esquecer - pior que a que tomei no Estadual do Rio!!!

Sei lá, acho que Netuno tem uma questão pessoal pendente para resolver comigo.

Instintivamente soltei o corpo para não lutar com a água. Mas ainda assim ela torceu minha lombar feio e bati o peito no chão. O rosto também, mas pouca coisa...

Dei um andadinha e percebi que não tinha me lesionado.

Ainda na areia deu vontade de olhar pra trás e dar uma banana para aquele mar fdp...;-)))

Fiz uma transição rápida. Colocaram uns meninos bons para puxar a roupa de borracha e eles estavam se divertindo com a brincadeira. Foi coisa de pit-stop de Fórmula 1.

Tudo bem que o meu pescoço quase foi junto com o wetsuit.

Sai para o pedal junto com o Clodoaldo, que estava forte e foi embora.

Eu resolvi segurar um pouco. Lembrei de uma conversa com o Dalton sobre uso de medidores de potência, principalmente quando ele me dizia sobre o desgaste que temos no inicio de uma prova ou de um treino quando começamos muito fortes e confiantes para terminarmos muito fracos e desgastados.

Decidi que tinha 90k para embalar e fiz um inicio conservador.

E nesse momento deu para notar bem como tem ciclista fazendo triathlon!!!

Alguns até um tanto que acima do peso, que pedalam forte (e pesado) na primeira parte da prova.

Se você notar bem, vai ver que aquele ótimo ciclista não está fazendo um pedal pensando em correr.

Ele está simplesmente dando tudo no pedal para ver o que acontece depois.

E se você tenta segui-lo está arriscando a sua prova. Aquela velocidade inicial não é realista.

Aquilo é blefe...

As vezes eles são ultrapassados, outras te ultrapassam e você fica preso em uma disputa de momento - uma disputa besta.

Se o seu treinamento foi consistente e você tem uma estratégia sólida, você vai ultrapassá-lo no último terço da prova ou antes, conforme o Dalton já tinha indicado.

E eu tinha treinado assim. O Rodrigo tinha me direcionado justamente para essa estratégia.

Mas o que percebo é a dificuldade de ser mentalmente disciplinado o suficiente para executar o que deve ser feito.

Manter o controle para não fazer a prova dos outros.

O Dalton tinha toda razão. Troquei a velocidade por um pedal mais consistente.

Como estava calor, não descuidei da hidratação. Também tomei BCAA e carbo a cada 45-50 minutos.

No geral as coisas deram certo e não me senti fraco.

Fechei o pedal para 2:35:20 minutos e muito mais inteiro que o ano passado - consequentemente fiz uma transição bem mais rápida (2:35).

E não tem coisa melhor que colocar o pé no chão e sentir as pernas soltas.

Vi o Dalton saindo para a corrida e tentei ser rápido para sair em perseguição.

E se estivéssemos em posição inversas, ele faria o mesmo.

Nós temos uma disputa de pace, uma disputa sadia em que "competimos" torcendo um pelo outro.

Ironbrothers, não Ironwar.

E continuei me sentindo muito bem. Os treinos longos com intensidade ou os progressivos do Rodrigo Tosta foram uma escolha perfeita.

Eu me sentia rápido, mas com a respiração controlada e sem problemas de estômago.

Aliás, eu me sentia como se estivesse nos treinos, mas fazendo tudo com uma intensidade maior.

Só que então...bem, então veio o vento. Vento, não! Um vendaval! Banheiros químicos voaram, algumas arvores caíram e foi necessário um reforço para a fixação das barracas.

Segundo alguns, próxima a área do Castelo, o pace diminuía entre 20 e 30 segundos.

Como corria para fazer abaixo de cinco horas, bem no último quilômetro temi que não fosse possíve!

E durante toda a prova eu tinha evitado olhar qualquer instrumento de medição - relógio, velocimetro ou medidor de cadência.

A vantagem é que não me perdi tal como ocorreu no Texas, quando ficava obcecado para manter com o tempo e acabei me dando mal.

Entrei no tapete que dava acesso ao pórtico, levantei a cabeça para olhar o relógio e ele marcava 4:57. Minha meia-maratona foi na casa de 1:40 baixo.

Eu não tinha noção da posição, que fiquei sabendo apenas tarde da noite: quinto na categoria e 78 no geral.

No outro dia encontrei o Dalton feliz da vida - ainda que tenha feito o mesmo tempo de 2011, ele passava da 52a colocação para a 13a na mesma prova.

Ao mesmo tempo o Wlad perguntava pelo FB se eu tinha comprado dólares.

Eu nem tinha pensado nisso!!!!

Ainda mais sabendo que o número de vagas na minha categoria havia diminuido de cinco para três.

Maaaasssssss....

Saimos eu e o Dalton atrás dos dólares e, com ajuda da Nilma, conseguimos comprar e fomos para o evento de rolagem das vagas.

O Dalton ficou como eu ano passado e por apenas duas vagas não conseguiu - mas ainda assim a gente estar ali na expectativa...

Pôxa, que avanço pra nós, sabe? Estar "na expectativa", sentir aquele frio na barriga, só isso já é uma coisa que deixa a gente feliz.

Na minha vez, eu teria que contar com duas desistências.

O Galvão chamou o Gondré, ele não estava lá.

Chamou o Luis Ondre.

Também não foi.

O Dalton imediatamente virou pra mim e disse eu tinha conseguido...

Fiquei totalmente zuretá!

Acho que eu falava com ele "Huuuuum? Como? Será? Não, vamos esperar..."

Pô, "vamos esperar"?????

O negócio era aritmética!!!!

Tem cinco vagas. Tirei o quinto. Os dois primeiros desistiram....

Portantoooooooo....

Só acreditei meeeesssssmoooooo, mas meeeessssmoooooo, quando o Galvão falou meu nome...

Subi as escadinhas com as pernas bambas. Ele me perguntou se eu era eu mesmo, mas eu mesmo não tinha tanta certeza se o "eu mesmo" era de fato eu mesmo.

Acho que respondi algo como Si...si-si..si-si-si...sisisisim.

Na minha frente, assinando a ficha, encontro o Ricardo Veras, um amigo que eu só falava virtualmente, mas é como comentei ai em cima - a gente tem a sensação de que conhece a décadas!

A gente se abraçava e ria com se fossemos dois meninos...

Sobre essa vaga, não há porque não dizer que foi um pouco de sorte, um pouco de oportunidade - que eu consegui aproveitar porque tinha treinado no meu limite e apareceu uma chance.

Sim. Porque existem amadores da minha faixa etária que disputam as provas em um nível inimaginável pra mim. Não há a mínima chance de andar com caras como o fantástico Phillipe Gondre ou Luis Fernando Odre, que abdicaram da vaga.

Estou longe de ser alguém excepcional.

Com isso estou querendo dizer: se você conseguir se doar e tiver um pouco de sorte em um dia especial, é possível!

Ao escrever esse relato espero construir um espelho para que outras pessoas que também não se julgam excepcionais, embora possam sê-lo em vários sentidos, possam reconhecer nele um pouco de si mesmas.

E ter esperança.

Porque julgo que é assim que funciona.

Os meus "espelhos" foram pessoas que me mostraram o caminho e ajudaram a construir as referências que tenho hoje.

O Edu "Três Meios" que um dia me apresentou esse esporte dizendo "Embora você não saiba o que é triathlon, preciso te informar que daqui a seis meses vamos fazer o TB aqui na USP"; cinco horas seria apenas uma abstração, um número, não fosse o Eduardo "PDF" Carvalho ter dito um dia que essa era uma barreira importante a ser quebrada em um telefonema para o Felipe Amante; ficar entre os dez da categoria eu trago de uma conversa com o Daniel Hamada, que uma vez me disse que ele esperava pelo menos uma vez ter a possibilidade de ficar entre os melhores da categoria; uma vaga para o mundial não passava pela minha cabeça até ver o Sandro Magalhães aguardando a rolagem do ano passado no mesmo 70.3.

Nesse sentido, o que me deixa feliz não é apenas meu nome em um papel dizendo que em setembro de 2013 poderei disputar um campeonato mundial.

O que me deixa contente é que trago comigo algo que não consigo expressar por minhas próprias palavras, senão por meio dos versos do Drummond que dizem:

"Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo".


domingo, 19 de agosto de 2012

O Déjà Vú do 70.3 de Penha vem ai...

Uma coisa boa de se manter um diário no formato de Blog é que você aos poucos vai acumulando informação e tecendo a sua própria linha do tempo.

Nessa perspectiva, fui consultar as minhas perspetivas de Penha do ano passado. O que escrevi foi

"Depois do Iron, eu e o Rodrigo fizemos alguns planos. Pensei em Cozumel, mas na cabeça do coach eu deveria aproveitar o segundo semestres para consolidar minha velocidade e participar de provas de triathlon olmpico ou meio-ironman. Começamos os treinos com foco em intensidade na corrida e um pouco mais de atenção à natação - eu não nado mal, mas me falta um pouco de agressividade na água..."

Esse ano também pensei em Cozumel, até porque o Caio e o Luizinho vão pra lá, mas me faltou coragem de encarar mais uma viagem ao exterior e optei por uma solução caseira.

E as questões na natação continuam as mesmas. Na corrida, também.

Até o cara que vai me pegar no aeroporto é o mesmo. Levo minha bike para o time do Max montar como sempre...

O Hotel é idêntico ao do ano passado.

E Penha também não deve ter muda nada...

Enfim, alguém não entendeu o título do post? :-))))

Não, há coisas diferentes, sim...

Diferente de 2011, esse ano não me lesionei e ainda fiquei um tanto mais magro.

Esse ano também fiz mais treinos fora do rolo no final de semana e insisti mais no Riacho.

Ano passado minha ambição era apenas tentar completar a prova. Esse ano, se puder ousar querer tirar apenas cinco minutos em relação ao ano passado e fazer um 70.3 em menos de cinco horas - plano que tracei com o Rodrigo quando ele veio a São Paulo e a gente conversou a respeito.

E ele fez uma programação de treinamento que consegui seguir quase a risca - não fossem algumas poucas vezes em que me senti cansado.

O Rodrigo introduziu natação durante todos os dias e todas as outras modalidades a noite. Mas meus dias criticos eram as terças, com um treino de rolo de quase duas horas, as quarta-feiras, com uma corrida de 17k e quinta pela manhã com um treino que incluia dois "tiros"de 500 metros na piscina.

No final de semana, as quatro horas de bike no Riacho, sendo a última em Time Trial foram um desafio a parte - porque você soma o desgaste mental do endurance com o desgaste fisico de ter que fazer força quando você tá cansado de fazer tanta força.

Claro, tudo isso entremeado por treinos mais curtos de natação ou corrida leve - que foi o que me salvou mentalmente.

Falo assim porque não tive lesões ou dores musculares. Não me senti "cansado" fisicamente.

Pra mim toda a dificuldade é mental. Quando eu bato os olhos na planilha e vejo que o exercício pede esforço "FORTE" ou "Máximo" eu fico de bode.

Prefiro correr duas horas e dar dois tiros de 500 metros na piscina - coisa que dura só uns 17 minutos.

E isso pra mim é coisa tão pouco comentada....

Já escrevi alguma vezes, mas vale sempre insistir: a gente fala pelos cotovelos sobre pisada, tênis, bike, rolo, capacete, suplementos....

Mas pra mim isso faz tão pouca diferença...

Eu sou daqueles que acreditam que qualquer um que tenha condicionamento pra tanto, pode fazer um pedal de cinco horas no Iron com uma bike de alumínio; pode correr em 2:00 ou 1:30 a meia maratona do 70.3 que o tênis não vai fazer a mínima diferença.

O que faz a porcaria da diferença é você conseguir o que os caras chamam de "mental fitness" - em outras palavras, é a capacidade de você tem de lidar com a dor para cumprir as metas colocadas para os seus treinos de forma a que se possa realmente evoluir.

Vencer a barreira da dor é uma coisa muito discutida no triathlon tal como em todo esporte de endurance.

Mas como "coragem" não é vendida em prateleira de loja, as revistas não podem anunciar e faturar em cima. Consequentemente, isso merece apenas um tiquinho de atenção de todo mundo.

Mas, vá lá....

É bem conhecido a filosofia de treinos do Brett Sutton, que tem como foco levar o atleta ao limite da exaustão, de forma a levá-lo a conhecer e irromper todas barreiras sobre seus limites - não importa, comentam os mais críticos com uma certa ironia...não importa o número de atletas que ele quebre nesse processo.

No Ironguides é bem conhecido um texto do Vinnie Santana em que ele comenta que a construção de uma base consistente é coisa de longo prazo, de forma que cada treino impacte no seu corpo de forma a que se forme um "calo" - uma abordagem mais agressiva, por outro lado, pode deixar cicatrizes, físicas ou mentais.

Por isso no processo de preparação para o Iron, uma das partes mais importantes da periodização é o tempo que se dedica a "aprender a durar", isto é, ao condicionar seu corpo para as rotinas desgastantes dos treinos que virão pela frente.

Mas existe um momento que mudanças de patamar exigem maiores desafios e o processo de treinamento muda de intensidade. Seja qual for sua escola de treinamento, se você quiser resultados melhores terá que abandonar a zona do desconforto e adentrar a zona da dor.

Aí manú, a coisa pega....

Na minha opinião, abstraindo-se toda e qualquer discussão sobre a habilidades naturais que certos indivíduos têm para suportar a dor, creio que a força mental para lidar com ela explica porque vários indivíduos possam, se bem treinados, cruzar o pórtico de um ironman, mas poucos podem fazê-lo abaixo de dez ou nove horas.

Talvez varias pessoas possam administrar essa dor em treinos, mas falham justamente no momento que deveriam construir seus resultados, que é o momento da prova. Isso também poderia ser uma fraqueza psicológica, ou seja, a falta de capacidade que as pessoas tem para lidar com as cobranças ou a pressão por resultados que elas mesmas se impõe.

Por vezes eu acho o assunto até mais prosaico, mas derruba muita gente a falta de jogo de cintura pela lidar com imprevistos. Não é falta de preparo mental também quando certos indivíduos se deixam levar pelo estresse quando pequenos detalhes que antecedem um evento saem do planejado? Tal como esquecimento de um gel ou o simples ritual do café da manhã não foi exatamente como tinha se pensado?

A capacidade que essas pessoas tem de se manterem focadas a despeito de toda e qualquer alteração no ambiente, de todo e qualquer improviso que seja necessário fazer, é umavantagem competitiva das boas....

Mas o meu problema nunca foram as provas.

No meu caso em particular me mata a execução de exercicios de intensidade - e justamente agora que sei que mais preciso deles. Quem me vê treinando sabe que quando se pede "vai pra morte" eu vou pra morte. Porque eu não tenho medo.

E por quê medo? Porque o medo da intensidade pode estar associado ao medo inconsciente de sofrer alguma seqüela. Algumas pessoas, por exemplo, tem receio de problemas cardíacos, enquanto outras de se exporem em um ambiente hostil, como nadar no mar.

Todos esses medos são "tratáveis".

Só que tem mais. A coisa é um pouco mais complicada que isso....

Meu problema é que isso tem um custo mental que me deixa mal.

E lidar com isso é uma coisa angustiante pra mim.

Segundo quem é bamba no assunto, existem coisas que podem ser "treinadas" para que uma pessoa consiga assimilar a dor. Mas existe um nivel de entrega e sacrificio do indivíduo que é apenas e tão somente dele.

Essa entrega nem seria uma questao de " forca mental", mas de um elemento muito subjetivo associado aos "demonios internos" que cada uma carrega consigo.

Enquanto alguns tentam apenas "não falhar", outros põe a faca nos dentes e vão atrás de resultados.

Pessoas que lidaram com traumas pessoais associadas a doenças graves, tiveram uma juventude muito complicada ou gostam da adrenalina das atividades de alto risco são providas de motivações que não são passíveis de serem "aprendidas" ou passadas de um indivíduo para outro por meio de algum manual.

Por isso gente, desculpa aí, viu? Mas deixa eu falar...

Por isso aqueles livrinhos de auto-ajuda muito que do tico-tico fubá são uma perda de tempo e pior ainda aquelas frases motivacionais que entopem todo dia a pagina do Facebook - em que pese a Siri Lindley, uma das melhores treinadoras da atualidade e de quem leio tudo que se publica, ser umas das maiores responsáveis por isso....

Mas a vida é assim mesmo, fazer o quê???

Elas por elas, melhor você ouvir ela do que eu...:-)))




domingo, 8 de julho de 2012

São as pessoas, estúpido

Um texto recente sobre o triathlon gerou uma verdadeira "pancadaria digital" na blogosfera internacional e chegou aqui pela indicação do Renato Fabri no Ironbrothers. Poderia ter sido uma discussão que ficasse por ali.


Mas depois que a Ana Oliva comentou a pobreza de perspectivas que se seguiu ao debate sobre o assunto, o Max fez referência no Blog dele como um análise que merecia uma reflexão e o Augusto Coelho, lendo o Blog do Max, reforçou o apelo pela leitura do texto, eu achei que eu também tinha que entrar na discussão.

Afinal, todo mundo sabe que tenho uma certa aptidão para entrar em temas polêmicos - mesmo correndo o risco de me perder em um raciocínio meio tortuoso, e levar você junto (rs), vou me arriscar nesse tiroteio também.

Mas qual o problema de um texto em que um sujeito não pergunta, não coloca em dúvida, mas afirma: Triathlon é um esporte estúpido

Não é muito original. "É a economia, estúpido", foi uma frase cunhada por James Carville, assessor do então candidato de Bill Clinton, para explicar porque Bush pai, a despeito da ter "vencido" a Guerra Fria e a Guerra do Golfo, perdia a eleição presidencial em 1992.

Obviamente "estúpido" é um termo que não agrada ninguém e, naturalmente, frente a esse título nada simpático, a maioria dos triatletas já foram disparando criticas e palavrões contra o texto.


Esquecendo a ranhetice do rapaz e os insultos gratuitos, o texto é um desafio e mereceria mais argumentos que os grunidos que eu vi no blog dele feito pelos triatletas de lá.

No Brasil, a coisa foi do "o sujeito é um babaca e ponto" até posições meio ambíguas tipo "o cara é um babaca, mas tem algumas coisas que ele fala que são verdades".

Eu não acho que as pessoas precisam concordar ou discordar inteiramente com esses argumentos do texto, mas não dá para ficar dizendo que ele fala algumas verdades e ninguém põe o guiso no gato para dizer quais são.

E arrisco dizer que o que irrita não é apenas o que ele diz ou a forma como ele diz.

O problema é que a provocação é uma grosseria carregada de bons argumentos.

Dai eu não sei se a raiva é pelo título do texto ou pelo fato da gente não sabe rebater todas as bolas que ele chuta.

E por quê nosso amigo Charlies Broadway implica tanto com o triathlon?

Porque nos Estado Unidos, mostra ele, o triathlon cresceu barbaridade e a demografia desse crescimento é mais substantiva entre os mais velhos (acima de 35 anos) e entre os que tem mais renda - ou seja, o triathlon se tornou o esporte da elite americana, composta de executivos da indústria e do sistema financeiro, gerentes intermediários das grandes empresas e profissionais que trabalham na área de marketing ou na mídia.

E vai ele argumentar que, para minha completa estupefação, o triathlon lá é mais elitizado que a prática do golfe.

Eu raramente vi um esporte tão aristocrático quanto o golfe na vida.

Bem, e por quê o triathlon entrou na mira dos "bem nascidos"?

Como nos "estêites" o triathlon se confunde com o Ironman, ele argumenta que mais e mais pessoas que já gozam de destaque econômico procuram essa prova como meio para agregar uma certa distinção social, já que não estamos falando apenas de um "esporte", pois o nosso querido e amado "Ironman"é mais que isso.

O "Ironman" é uma "grife", assim como são o Challenge Roth ou o Rev3.

E pelo direito de participar dessa festa, mais importante que o mérito esportivo é a grana para comprar ticket de entrada para esse mundo de glamour e status, pois o que explicaria tamanha diferença entre a inscrições para a prestigiada Maratona de Boston (cerca de U$ 160,00) e Iron do Hawai (U$ 500,00)?

Afinal, ninguém vai cobrar direito de propriedade pelo uso do nome "Maratona". Você não paga direito autoral quando canta "atirei o pau no gato" e também não vai pagar por correr 42. 195 metros.

Claro, tem gente bacana fazendo Maratona - aquele livro de meninos ricos, competitivos e "sensíveis" que decidem realizar uma disputa pessoal em torno do recorde de um outro corredor mais velho, é bem um exemplo que alguém poderia usar para mostrar que "não é bem assim"...

Claro, "não é bem assim"....

Eles são "iguais" ao Solonei Rocha, que ganhou a Maratona de São Paulo esses dias.

Igualzinho...

Ex-lixeiro e operário da indústria de couro, o Solonei tem um mulher simpaticíssima que esses dias deu uma entrevista na maior rede de televisão desse pais falando que iria pegar o prêmio da prova para comprar um faqueiro.

Faqueiro....

Nosso amigo comenta que o triatlho (ou o Ironman) tem outra barreira, que é o fato de ser um esporte extremamente caro - pelos equipamentos, pelos acessórios e pelos suplementos que se adquire para uma coisa que deveria ser, em hipótese, coisa bem mais simples como nadar, pedalar e correr.

Mas quando se combinam as três coisas essa brincadeira vira um esporte caro do capeta!

Ele argumenta que alguém pode comprar uma bike no Wal Mart para fazer uma prova, mas certamente vai ser ridicularizado por aquelas figurinhas que vão fazer cara de nojo quando passarem do seu lado.

Por isso, ciclista não gosta muito de triatletas.

Aliás, deixa eu contar uma histórinha? Abre parênteses aqui.


Vou te dizer, viu, mas acho que eu já me identifiquei um pouco com o que ele diz lá no passado.

Quando eu ainda não fazia triathlon e andava de bike na Bandeirantes com o Daniel, as vezes via um alguém trocando o câmera no acostamento. Diminuíamos para perguntar o famoso: "Tudo bem ai?".

Não raro o sujeito olhava para trás com uma ar "blasé" e nem se dava ao trabalho de responder, voltando sua atenção para a roda como se fossemos invisíveis.

Eu perguntava para o Daniel.

- Rapaz, o que foi aquilo?

- Um "ser triatlético" - classe de pessoas intratáveis, intragáveis e imprestáveis.

- Hãããããããnnnnn....

Claro que você vai me dizer que isso é "estereótipo" que os ciclistas tem da gente, não é?

Não deixa de ser verdade. Mas deixa eu entender uma coisa.

Tá cheio de triatleta fazendo esteriótipo de "politico", "funcionário público", "pagodeiro", "nordestino", "carioca", "paulista" e tantos outros...

Abre o Facebook e a cada três posts, um é estereotipo.

E "estereótipo" de triatleta? Não pode?

Ué? ;-))))

Fechando o parênteses....

Agora, ele tá muito errado? Ou tá "meio" errado?

Ou está totalmente meio errado? (rs)

Quando nêgo fala que tem "poser" a dar com pau aqui no Brasil fazendo triathlon a gente de certa forma não está concordando com o perfil que o gringo traçou no Blog dele?

Só não entendo o seguinte: por quê concordamos todos em criticar os "triatletas de boutique", mas ficamos bravos quando alguém de fora, que não é triatleta, externa a mesma opinião?

Obviamente, dizer que triathletas são pessoas idiotas e narcisistas é uma coisa que mexe com os instintos assassinos da nossa classe - que só é unida no Facebook.

Porquê na hora de fazer a inscrição para o Iron ou para o Troféu Brasil, corre cada um pra um lado...

E não sou eu que estou falando! Todo mundo diz o mesmo...

No fundo, no fundo, esse texto é resultado da percepção do abismo econômico que separa os pobres e os ricos entre os americanos no contexto da crise que se abateu por lá - e que vai se alongando durante a administração Obama.

Para o americano, a crise econômica tem lá seus responsáveis, mas quem paga o pato é a classe média e os mais pobres - a desigualdade para eles é chocante e gera esses textos azedos.

Entre nós, todavia, a desigualdade é uma velha conhecida já vai décadas e mais décadas.

Mas nós temos pontos em comum e pontos diferenciados em relação ao caso americano.

Nossa experiência nos mostra as duas faces da moeda: por um lado, há sim pessoas que procuram o Ironman a fim de ostentar seu status econômico, social e até esportivo - porque o Ironman é algo socialmente diferenciado.

Mas, por outro lado, ao mesmo tempo há pessoas que se viram como podem para dribar as dificuldades ao longo de um ano (ou dois) para participar de um.

Há pessoas que são um nojo; e há pessoas que, como diz o meu amigo Mardem Mota "não sabem o que fazer para te ajudar".

E isso gera um choque com a nossa experiência mais próxima, pois ao lado dos "posers", sabemos que aqueles que nos cercam não são esnobes e muito menos narcisistas.

No Brasil, tem um povo de "bens nascidos" que fazem triathlon que pode ser emparelhado com essa elite mundial em termos de poder de compra. Não tem restrições de orçamento e, como diz a Ana Lídia, são aqueles que podem usam equipamentos de entrada que lá fora é de uso quase exclusivo de profissionais. São presas fáceis das campanhas de marketing e freqüentam as lojas que tem valet próprio nos Jardins em São Paulo.

Mas aqui o triathlon se alargou muito nos últimos anos - e se alargou porque se tornou o esporte de uma classe média que tem ascendido com o crescimento econômico dos últimos anos.

A diferença é que se trata de uma classe que não tem vida fácil.


São pessoas que valorizam o trabalho por de terem dado duro para estudar e ainda lutam para se situar profissionalmente. Entendem o valor da solidariedade, pois só emergiram por meio do apoio familiar. Não são deslumbrados pelo consumo vazio porque o orçamento do dia a dia não é infinito, principalmente quando são chefes de família jovens e com filhos.

Podem ser da área de marketing ou "personal trainners", mas estudaram a noite e trabalharam para financiar a faculdade.


Nesse sentido, a popularização do triathlon no Brasil foi feita, sim, por meio de pessoas que estão dentro de um grande processo de mobilidade social, mas que sabem quem são e não esqueceram de onde vieram.

Existe uma nobreza nesse esforço que pouca gente se dá conta.

E essa classe de pessoas povoou o triathlon no Brasil, "rachando" um espaço que antes só era freqüentado exclusivamente por uma elite.


E querem participar da festa com a sua cara, com usa própria identidade.

Claro, é possível que alguém diga que esse quadro seja generoso demais com os triatletas. Que isso seja mais uma esperança minha do que um fato. Que essa classe média também tem seus defeitos.

Pode-se argumentar também que o importante são as atitudes, sendo que os mais ricos não são necessariamente pessoas fechadas no seu mundo e podem ter valores até mais progressitas que uma boa da classe média - que no Brasil tem uma características ruim também, como uma certa repulsa a qualquer política de igualdade.

Basta ver a dificuldade para fazer parte dessa classe entender a importância da "bolsa familia", um programa de referência sem paralelo no mundo, mas que aqui é rotulado unicamente como "assistencialismo".

Tudo isso é verdade. Dividir o mundo entre "bons" e "maus"nunca é uma boa leitura das coisas.

E essas colocações são verdadeiras. Nas últimas eleições presidenciais uma socialite mineira justificou seu voto dizendo que assim o fazia porque não conseguia imaginar um governo melhor que aquele que levava o filho da sua empregada à faculdade.

Ou quem assistiu o filme "Um sonho possível" pode ver como algumas pessoas da elite mais conservadora americana podem tirar o pescoço do mar do privilégios proporcionados pelo dinheiro para compartilharem suas vidas simplesmente porque tem crenças e valores altruístas que as colocam acima da sua condição social de "ricos".

De qualquer forma, hoje eu poderia contar várias histórias que não encontram semelhança alguma com aquele evento triste da Bandeirantes.

Histórias de camaradagem e amizade que tenho aqui comigo pra sempre.

E isso me faz ser um cara otimista; me faz pensar que bom que temos uns aos outros e por isso não me sinto pedalando sozinho em nenhuma estrada.

sábado, 16 de junho de 2012

A Micro e a Macro Economia do Triathlon


Quando o post sobre a tal High Society foi lido, pipocaram discussões aqui e ali sobre economia - várias por email.

Uma coisa curiosa - curiosa pra mim, desde de sempre - foi a forma como as pessoas sugeriram resolver essa pendenga de preço de prova de triathlon.

Acho que não estou muito errado se dizer que 99,9% das pessoas acham que o problema se resolve com mais concorrência, pois os preços altos seriam consequência de muita demanda e pouca oferta.

O Guilherme na área de comentários disse o seguinte:

Mas para mim está claro que se trata da mais pura Lei de Oferta e Demanda.(....) O que está aí não é nada mais nada menos do que a regra mais antiga de satisfação da vontade alheia. Quer algo? O preço é x. Muita gente quer este mesmo algo? O preço é y. Muita muita muita gente quer esta mesma coisa e não tem pra todo mundo? O preço é X+Y+Z. Fácil.

Ou o Emiliano

Acredito que o aumento de preços se dá pela demanda: Enquanto as inscrições esgotarem em minutos, o preço sobe, pois há procura..

Acho que eles tiveram a felicidade de sintetizar o que a maioria das pessoas pensam sobre o assunto.

E como não perco a mania de ser sempre é o sujeito "do contra", resolvi explorar esse tema mais um pouco.

O texto tem duas partes. A segunda é dispensável.

A primeira, também! ;-)

Eu aconselho a quem passa por aqui a seguir aquela máxima do Ciro, que eu adapto para tudo "entre ficar lendo blog e correr, eu prefiro correr".

Mas se você ainda está ai, parada na frente do computador, então vamos lá....

Concorrência é uma fórmula muito comum que funciona como uma lei natural na cabeça das pessoas.

Seria mais ou menos assim: se a demanda pelos produtos do "setor X" cresce em ritmo maior que o da oferta, os preços sobem. Por ser assim, esse setor atrai novos produtores, o que aumenta a quantidade de produtos disponíveis e, consequentemente, há uma queda de preços. Essa queda se dá até que se alcance um "preço de equilíbrio".

Preço de equilíbrio não é uma medida objetiva, tal como a gente faz quando olha a temperatura em um termômetro, mas um preço na qual os produtores se sentem motivados ofertar um produto qualquer e os consumidores a adquirí-lo.

Muita gente acha que isso é um "preço justo".

Nesse sentido, a "concorrência" é o elemento regulador da economia, uma "lei" que põe produtos nas prateleiras na quantidade certa e preços compatíveis com o poder de compra dos consumidores.

A gente acha isso tão natural que parece que já nasceu sabendo.Ou quando vê na faculdade, parece que não precisa estudar.

É uma idéia muito popular porque é muito intuitiva.

Em um mundo muito complexo e dinâmico, a gente costuma se apoiar em algumas supostas verdades universais por se sentir mais seguro.

Primeiro e antes de tudo, vamos supor que a "lei da concorrência" é realmente uma lei.

Entretanto, para funcionar essa lei precisa que alguns pressupostos sejam cumpridos. É o que consta em qualquer manual de economia.

O primeiro é que os consumidores conhecem todos os preços. Ou seja, se você escolheu abrir uma conta em um determinado Banco, supõe-se que você tem conhecimento dos preços dele e de todos os outros bancos (taxa do cartão, preço dos extrato da conta corrente, talão de cheques etc).

O segundo é que nenhuma empresa domina o mercado e não existe monopólio. Assim, você pode escolher um banco entre tantos outros.

Terceiro é que os produtos são homogêneos.

Oi?

Os produtos não tem diferenciação. Se eu vou abrir uma conta ou comprar um serviço em um Banco, o pressuposto é que não pode ter serviço prime. Não há diferenças de qualidade ou o que se chama "diferenciação de produto".

Na teoria da concorrência perfeita, todos os produtos são, portanto, iguais - sem cor, cheiro, distinção social ou os cambáu!

E decorrente desse último, temos o quarto pressuposto:

As leis da oferta e da procura funcionam em mercados em que as empresas concorrem via preços.
Outra coisa: não existe o que chamamos de "barreiras a entrada", isto é, qualquer empresa pode entrar no segmento bancário, apenas para citar um exemplo.

Ou a "concorrência perfeita" é uma abstração, uma idéia muito genérica que a gente só usa em aulas para mostrar um conceito ideal em um mundo igualmente ideal que só existe plenamente no manual de economia.

Para não dizer que sou radical, vou até dar uma aliviada.

No mercado de pizzas, por exemplo, até que esse troço funciona razoavelmente bem. Você vai ver que, na média, os preços da pizzas de mussarelas são bem semelhantes em qualquer bairro da sua cidade e isso não é porque os donos de pizzaria se reúnem uma vez por mês para determinar qual será esse preço.

Na verdade, os consumidores conhecem os preços e ligam até encontrar o preço mais razoável. Os donos de pizza delivery que estiverem muito acima desse patamar médio não vão receber chamadas.

Ou seja, é o consumidor que informa a cada empresário se o preço dele está fora ou dentro do mercado. E ele tem que se encaixar nesse patamar. Se ele não consegue vender pizzas a R$ 19,00, isso significa que ele deve compatibilizar os custos dele com o custo médio do mercado.

Mas, observe: não é ele que dita o preço e nem ninguém. O "preço" é resultado da chamada "mão invisível" do mercado, pois monopólio de pizza de mussarela é uma coisa totalmente insana de se pensar;

Mas do leite que você toma em casa ao carro que você usa, a maior parte dos produtos que você adquire não são produzidos em mercados de concorrência perfeita tal como os de pizza delivery.

E muito menos os eventos como as provas de distância Ironman.

Queria chegar nesse ponto.
Ouço gente dizendo "Ah, mas se a tivesse outras empresas", "se o percurso fosse mais difícil" ou "se a prova tivesse menos aventureiros"...enfim, tem argumento para todo os gostos, mas a conclusão para qualquer um desses argumentos é: o número de inscritos cairia e, consequentemente, os preços se ajustariam a demanda menor - ou seja, os preços se ajustariam para baixo.

Coisa muito simples pelo que se vê.

Mas tem um probleminha ai,pois o mercado de provas no Brasil não é concorrencial.

Como a franquia Ironman é um monopólio, o "preço" não pode ser um reflexo dos "custos médios" de outros fornecedores do mesmo serviço.

O preço é apenas um patamar para que ela a franquia segmente o mercado de consumidores que ela deseja explorar: e ele faz isso usando diferenciação de produto e muito marketing.

O Ricardo Veras fez um levantamento muito legal sobre os preços para inscrições provas da franquia Ironman e algumas de suas concorrentes (HITS e Challenge, principalmente). Se você consultar o Blog dele (veja aqui), note como existe grande semelhança de preços em lugares totalmente diferentes no mundo inteiro.

O que isso indica é que essas empresas trabalham com um referencial de preços internacional e querem um público de "classe mundial" com um perfil de consumo compatível com o status dessas marcas.

Quando a TriStar entra no Brasil ela já tem esses referencias e usa para estabelecer seus preços e não para "concorrer" com provas similares porque ela já sabe qual o tamanho do mercado. É só pegar a tabela de inscritos no GP ou no Long Distance.

E caso tivessemos provas da REV3 ou do Circuito Challenge no Brasil, seria a mesmíssima coisa.

Mais: ainda que metade as inscrições do IM 2013 fosse cancelada, a Latin Sports não teria autonomia para mexer nos preços do IM de 2014 a fim de atrair consumidores que estariam dispostos a pagar menos.

Pelo contrário: ela poderia até aumentar o preço das inscrições de forma elitizar ainda mais o perfil dos consumidores.

Por isso é que não dá para falar que a "concorrência" vai resolver os problemas.

O mundo não funciona assim...

O que falta na verdade é um outro circuito de provas mais baratas que ofereceram um outro produto - simplesmente uma competição em que as pessoas queiram nadarpedalarecorrer sem o status dessas marcas mundiais, como o Mdot.

Até hoje eu não entendi como as empresas de eventos não abriram espaço para esse "nicho".

Tô falando de eventos simples, mas bem organizados.

Bom, cansei desse assunto! Parei de vez...

Agora, depois de tudo isso, tenho certeza que você vai refletir profundamente e tirar a seguinte conclusão: acho que vou dar uma corridinha na rua...;-))))

sábado, 9 de junho de 2012

A High Society Triatlética

Passada a fase de inscrições para o IM 2013, ferve por uma discussão bem acalorada sobre o preço, forma de pagamento e as condições de inscrição - um processo que ano a ano vem se tornando mais estressante em todos os sentidos.

Pelo que andei percebendo nos fóruns, as pessoas gastam horas discutindo o comportamento das outras pessoas. Ai a discussão descamba até sobre a bicicleta que o sujeito tem.

Não é porque as pessoas se abrem um pouco no Facebook que isso nós dá o direito questionar as bicicletas caras "daquele sujeito que não anda nada" ou fato dos individuos "x", "y"ou "z" serem pouco solidários porque não boicotaram a inscrição para aquela prova "que é caríssima".

O Face é uma oportunidade para se conhecer as pessoas, mas uma janela muito estreita para podermos tirar conclusões sobre a vida delas.

Como as pessoas no Brasil tem um nível de politização "zero", certamente parece mais lógico ficar discutindo o comportamento alheio do que se comprometer com mudanças de longo prazo.

Vamos comecar pelo seguinte: há muitas que pessoas que só ficaram "críticas" do "comércio que virou o Ironman" quando, por um motivo ou por outro, não conseguiram fazer a inscrição para a prova.

Ai é fácil. Sabe aquele sujeito que torce para o time de futebol que ganha o último campeonato? Uma hora ele é palmeirense, outra é flamenguista, depois vira corinthiano e por ai vai...

O segundo ponto é: as pessoas vivem no capitalismo, votam em partidos que defendem o capitalismo, não suportam aquele outro partido que apóia Cuba, mas reclamam das empresas que comercializam a "essência de um sonho" e tem lucro com isso!!!

Não entendi...

O capitalismo vive de criar e conquistar sonhos alheios pra quê? Carros e televisores são produzidos com o mesmo principio que a franquia Ironman faz seus eventos.

Agora, quero ver se alguém abre mão de ter um automóvel ou uma tela plana em casa para criticar o capitalismo da Ford ou da Sony.

Hã-hã....

Já dizia Adam Smith que a evolução do capitalismo resulta do egoísmo dos indivíduos quando esses buscam o lucro. Dizia ele "não é da benevolência do padeiro, do açougueiro ou do cervejeiro que eu espero que saia o meu jantar, mas sim do empenho deles em promover seu "auto-interesse".

Essa discussão sobre ganância e lucro não tem coerência.

Ora, ao invés de questionar as atitudes das pessoas ou o comportamento das empresas de eventos, não seria melhor a gente procurar entender o que acontece e a partir dai procurar alternativas?

Nem de longe esse post do Blog vai dar conta disso. Eu só gostaria de "pensar alto" para que as pessoas pudessem direcionar suas angústias e frustrações para algumas opções realmente viáveis.

E por ai vou logo dizendo: esse texto é chato, é antipático e é metido.

É daqueles que eu uso para fazer "papo-cabeça", sabe? Tipo "discutir a relação".

Não, espera: aí também não - "discutir a relação" é insuperável! ;-)

No Brasil, todos sabemos que as empresas que organizam as provas de triathlon mais importantes no país tem uma estrutura muito diferenciada em termos de organização. De um lado, a NA Sports e a Cia de Eventos. De outro, a Latin Sports.

Em relação as duas primeiras, sejamos justos: essas entidades desbravaram um espaço onde antes não existia nada. Você pode não gostar do Núbio, mas o Internacional de Santos é uma prova de importância inquestionável em termos históricos para o triathlon latino-americano.

O circuito Long Distance, apesar de hoje bastante reduzido, também também marcou época no Triathlon nacional. O Longo Distance de Pirassununga é o batismo de fogo de qualquer triatleta que almeja vôos maiores.

Só que ao longo do tempo, o universo de praticantes cresce e a demanda por uma organização de qualidade também. Mas o modelo de empresa que organiza esses eventos aqui não se renovou e ainda funciona nos moldes das "lojinhas de varejo" - não no sentido pejorativo que esse termo possa ter, mas no sentido de que são muito dependentes dos donos.

No ultimo Internacional de Santos tive um problema bobo, falei comum fiscal, mas veio o Núbio me atender. Uma coisa completamente dispensável, mas estava lá o dono da empresa para resolver o meu problema.

Não é assim também a Cia de Eventos? O Célio faz todos os papéis dentro da organização de uma prova. Ele está na retirada do kit, na moto do fiscal e na premiação do última pessoa do age group. No meu primeiro Long Distance, quando fui falar com quem poderia reclamar de uma penalização, ele disse "quem arbitra sobre isso aqui sou eu. Pode falar comigo mesmo".

Uma outra vez tive que pedir para trocar minha camisa de finisher. Advinha quem autorizou?

Bidú....

Você pode argumentar é bom falar "diretamente com quem manda" quando a gente quer reclamar, mas tenho lá minhas dúvidas se bate-boca é medida de bom atendimento.

Mas faça o seguinte: escreva um email para eles bem fundamentado, dando contribuições criticas no sentido de melhorar as provas.

Aí volta uma resposta lacônica ou um texto que nem sequer passa por uma revisão ortográfica.

Ou seja, essas empresas de eventos não tem gente especializada em atendimento!

E como elas personalizam tudo pelo lado delas, nós personalizamos tudo pelo nosso lado também.

Mas isso não é muito produtivo.

Deixa eu dar um exemplo.

Quando eu cai no Internacional de Santos porque um rapaz em uma bicicleta furou o bloqueio e entrou na área reservada aos atletas, a responsabilidade era do controle de tráfego e quem deveria responder por isso seria a prefeitura de Santos - mas como pago a inscrição para a NA Sports, eu avalio que a responsável pelo problema é ela.

Como atleta, isso é muito natural. Você cobra para quem você paga.

Mas, se a gente faz uma analise mais fria, vê que nao é bem assim.

No fundo, se o Internacional de Santos e o Troféu Brasil vem perdendo qualidade ao longo do tempo, a responsabilidade não é exclusiva da NA Sports, mas também da prefeitura de Santos, que não faz investimentos em infraestrutura que permitam à cidade oferecer condições para uma prova de qualidade.

Mas tenho certeza que você não sabe o nome do prefeito da cidade e muito menos do secretário de esportes do município, sabe? ;-))))

E por quê a Latin Sports erra menos? Porque eles seguem um fórmula pronta, cuja engenharia foi feita e testada por uma empresa de marketing internacional que impõe padrões de qualidade. Fazer uma prova da franquia Ironman no Brasil ou no Texas é como entrar em um MacDonalds lá ou aqui - você dificilmente nota alguma diferença entre um e outro.

Nesse modelo não tem espaço para jeitinho ou improvisos. O esquema de organização é mais profissionalizado e, consequentemente, impessoal.

E a TriStar, que entra agora no Brasil, vai no mesmo modelo.

Agora vamos ver essas questão dos preços.

O que se argumenta é que no Brasil essas empresas perderam patrocionadores de porte que ancoravam os custos mais significativos, o que joga para os atletas um ônus maior para o financiamento das provas.

Mas não acho que seja isso. Porque o que explicaria o fato de que as provas, mesmo ocorrendo em lugares tão diferentes e organizadas por empresas diferentes, tenham preços tão semelhantes?

Não é o cáspita isso?

No fundo, acho que os preços das inscrições não tem relação apenas com os custos dos eventos.

Acho que a conta é outra.

As empresas colocam preços altos porque querem que seu produto seja um produto elitizado.

Mesmo que os custos dos eventos fossem hipoteticamente mais baixos, ainda assim as empresas fariam uso de uma estratégia descarada de "segmentação de preço": se o preço for baixo, seu produto vai circular em um mercado de massa; se for um preço alto, a meta são os consumidores afluentes e endinheirados.

E, deixa eu te dizer: o mundo do consumo do triatlhon está ali, na beiradinha do mercado de produtos de luxo, viu?

Ou você acha que bikes que custam mais de quinze mil reais são o quê?

Faça uma conta: me diga o quanto se soma em termos de valor as bikes que ficam na área de transição do Ironman Brasil.

Fez?

Sentiu?

Olha, pensa aqui comigo: como se explica que a limpeza de uma bicicleta custe mais que a limpeza de um carro?

Você acha que isso tem alguma relação com "custo"????

Para, né?

O preço de inscrição do produto "Ironman" está ai nesse pacote...

Certamente você vai xingar a minha mãe, dizer que não faz parte da patota de ricos e endinheirados porcaria nenhuma e que entra nesses eventos dando duro, trabalhando mais, fazendo economia, abrindo mão de outras prioridades etc...

Verdade.

Mas acho que somos poucos nesse pedaço da "high society triatlética".

Por isso é que se tem a impressão de que "todo mundo reclama", mas quando as inscrições do Ironman acabam em minutos você se sente frustado e traído "pela classe".

Ué, onde estava aquele "todo mundo" mesmo?

Na verdade, o "todo mundo" é um mundinho de gente que teima em ir para uma festa para a qual não foi convidado.

Mas por outro lado ter chiliques nao adianta.

Segmentação por preço não tem nada de "sacanagem".

Tem lógica alguém entrar em uma loja do Shopping Iguatemi pra comprar um terno Ermenegildo Zenga e ficar reclamando do preço? Que o custo do tecido não justifica o que está sendo cobrado?

Que é sacanagem???

Então, o raciocínio é o mesmo. É o capitalismo no seu estado mais feroz...

Trata-se uma uma lógica de exclusão explicita.

Se você vai em festa de rico, não reclama do preço do convite.

Mas existem outra alternativas?

Teóricamente, sim.

A gente poderia ver o que acontece lá fora.

Por incrível que pareça, é justamente nos países mais ricos que você encontra as soluções mais simples e mais convenientes para amadores - o que me leva a pensar que ter apenas opcões caras para fazer provas de triathlon é coisa de país pobre e subdesenvolvido.

Na Inglaterra, Austrália ou nos EUA, por exemplo, os circuitos de provas são muito mais diversificados, como muitos e muitos eventos voltados apenas para triatletas amadores.

Os preços não visam segmentar o mercado e os custos são menores por fatores que são fáceis de apontar: as provas são realizadas em na zona rural sem a necessidade de fechamento do tráfego ou pagamentos de taxas de uso para as autoridades locais; o staff de voluntários é composto por familiares dos atletas; não há kit; não há premiação em dinheiro; e a infra-estrutura é mínima, ficando a cargo dos participantes se responsabilizar pela sua própria alimentação.

Mas lá, como aqui, também há provas caras.

O problema é que no Brasil inexiste uma divisão entre circuitos de provas mais elitizado e outro mais "popular". Uma pessoa que pretende fazer sua estréia em uma prova de Triathlon vai direto para um evento como o Troféu Brasil, enquanto no exterior essa mesma pessoa poderia fazer uso de provas mais baratas para montar sua base atlética e ir ganhando mais experiência antes de partir para torneios mais elitizados.

Buscar as provas das federações estaduais de triathlon, que são organizações sem "fins econômicos" seria uma maneira de corrigir esta distorção. Apesar de se concentrarem na distância sprint, são ótimas opções para quem vai começar - com a vantagem de que isso se refletiria no aumento do número de atletas federados.

Aproveitar as estruturas já existentes para promover eventos, outra!


Nos EUA há provas organizadas por "grupos de triathlon" que no Brasil seriam semelhantes (semelhantêêêêêssss, não iguais) as nossas assessorias. É mais ou menos como utilizar a estrutura dos simulados do Julio Vicuña aqui em São Bernardo para promover pequenos campeonatos entre um grupo de amigos.

Já na distância meio-iron e iron reside o problema de fundo, pois a demanda cresce justamente onde realmente há poucas opções.

Uma alternativa seriam eventos organizados por amadores. Atualmente, existe um grupo de triatletas que estão discutindo a organização de um Soloman com a distância Ironman em 2013 como alternativa ao IM Brasil. A idéia é promover o evento sem perspectivas comerciais com um formato mais simplificado.

O grupo tem um desafio gigantesco, já que provas de longa distância geram expectativas grandes e pequenos erros podem ter impactos enormes em termos de sucesso.

Embora existam experiências bem sucedidas em moldes mais simples em outros esportes, como o Audax no ciclismo e as varias oportunidades de ultramaratonas entre os corredores, vale lembrar que essas provas tem tradição, há uma organização, regulamento, não tem demanda reprimida, há apoios e restrição do número de participantes.

Entretanto, a proposta é um alento e tanto em um deserto de boas idéias que é o triathlon no Brasil. Caso se mostre realmente factível, vai abrir um leque de oportunidades não apenas para um esporte, mas para uma filosofia.

Quem quiser conhecer o projeto e participar com ideias e sugestões, pode fazê-lo, já que ele tem um fórum específico.

O endereço é.

https://www.facebook.com/groups/393618024023896/





sábado, 2 de junho de 2012

Desabafo

O que você faz quando pega uma matéria da VO2 chamada "Receita Campeã", feita por duas nutricionistas, que pinçam uma frase da Fernanda Keller que diz assim "a alimentação dos triatletas deve ser testada e definida nos treinos, independentemente do tamanho da prova".

Ai você pega um artigo do Mark Allen, que começa da seguinte forma:

"Here is a scenario that many triathletes have experienced in long races. They use the same sports drink that has worked wonders in training only to find that it causes them to get nauseated, bloated or even throw up. How can that be? A popular piece of advice is to try out in training what you will use in a race, and if it works in training it will work during a race. Correct? Not so with fluid replacement (...)"


Ai eu pergunto para quem fez prova domingo e passou mal, qual texto faz mais sentido?


Obviamente, não é atribuição minha entrar em uma discussão em que há profissionais muito mais capacitados para apontar se o Mark Allen, não sendo nutricionista, pode ou não pode escrever o que ele escreveu.

O que me interessa saber é se ele está correto ou não está correto. Se eu tenho que chegar para o nutricionista que me orienta e perguntar se o eletrólito que tomo nos treinos vai ser realmente efetivo quando for usado na prova.

A tempos venho me batendo contra o senso comum nas "revistas especializadas". Quanto mais eu leio, mais eu aprendo mesmisse que reina por ai.

Conforme me chamou a atenção um grande treinador e amigo meu, o triathlon vem crescendo horrores no país e tem gente abocanhando esse crescimento fazendo uso material de qualidade discutível.

É gente que não faz triathlon, nunca fez triathlon e que vê nesse público uma oportunidade de negócio.

Exemplo? Tá na mão....

Uma vez a V02 fez uma chamada de capa sobre Ironman. Letras garrafais...

E coloca na capa uma atleta fazendo uma prova com a distância olímpica e na matéria interna fotos de uma etapa do Troféu Brasil ou do Internacional de Santos.

??????????

Não, diz pra mim...

Exceções? Claro - basta ver a ótima matéria sobre medidores de potência feita pela Ana Lidia Borba em um número anterior na mesma revista.

Todo mundo sabe que não morro de amores por medidores de potência, mas reconheço que aquela matéria poderia ser publicada na Triathlete Magazine sem problema algum.

Mas são exceções. E eu tô cansado das "exceções"...

Recentemente, tive oportunidade de discutir com o George Volpão, que me fez a mesma observação olhando as revistas de corrida dizendo o seguinte: se a gente não tem acesso a blogs e revistas eletrônicas aqui e no exterior, a gente fica completamente no escuro.

A gente sabe que o mercado é pequeno, que temos poucos produtos e ter o melhor é caro porque é necessário importar.

Tudo bem...

Agora, informação? Informação tá disponível em qualquer lugar da internet. Basta ter vontade de pesquisar...

Antes de ficar falando sobre a "Receita Campeã", vamos abaixar a bola um pouco. É melhor falar que esse assunto é discutível, que existem pontos de vista conflitantes, que pesquisas não são conclusivas...

Vamos nos dar a liberdade de dizer "não sei..."

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Ezequiel Morales


Para quem não é do meio, essa foto é do Ezequiel Morales que ganhou o IM Brasil. Argentino, vive no Brasil junto com a esposa, a triatleta Maria Soledad Omar.

Ambos são muito queridos e sempre gosto de dizer que são o que há de melhor na elite do triathlon no Brasil. Não apenas em razão dos resultados, mas porque o adjetivo "elite" só lhes cabe dentro da prova : treinam onde qualquer um treina, são acessíveis e não furam fila para retirar o kit ou entrar na área de transição.

No último domingo, todo mundo estava torcendo por um brasileiro, mas o Ezequiel foi efusivamente aplaudido por todos que estavam esperando a vitória do Santiago - aliás, inquestionavelmente outro grande caráter.

As vezes fico irritado com as barbaridades que vejo no Brasil, mas uma das coisas que me enche de orgulho é dizer que esse país é uma nação aberta.

Recebe atletas, mas também trabalhadores de outros países que procuram emprego e trazem suas famílias, tendo acesso ao sistema de saúde e as escolas públicas como qualquer outro cidadão brasileiro, sem discriminação.

Agora, aqui entre nós: sou eu que ando chorão ou essa foto deu um nó na sua garganta também?