terça-feira, 2 de abril de 2013

Um post que era para ter sido outro

Já vai tempo que não falo de treinos...

Vou confessar que esse assunto não é lá o meu forte.

Mas nessa época do ano casa com o clima do Iron e algumas pessoas se interessam em falar do tema.

O que é super compreensível, já que existem aqueles que estão em busca de um parâmetro e querem tomar opiniões ou simplesmente trocar algumas idéias.

Mas o que seria uma coisa tranqüila logo se transforma em um cabo de guerra entre dois grandes grupos de opinião: há os que incentivam relatos como forma de compartilhar experiências, enquanto outros acham que colocar os treinos na rede é só um exercício de gente descaradamente exibicionista.

O curioso é que aqueles que acham que é exibicionismo não tiram os olhos do FB e do Twitter, quando poderiam simplesmente ignorar a vida alheia; já uma parte dos querem saber tudo e se mostram mais receptivos em um primeiro momento, com o tempo começam a fazer comparações, ficam ansiosos e estressados, quando não diminuídos - e reclamam....

Não, diz pra mim se é moleza....;-)

Talvez o problema seja a forma com que passamos cada um nosso recado ou a falta de credibilidade de treinos tão absurdos que custa mesmo acreditar.

Porque tirando esses os exageros, acho bacana, sim, falar daquele treino em se quebra um recorde pessoal, do cumprimento de uma sequência dura de natação, as fotos de final de semana com a moçada que sai para pedalar junto, a descoberta de um novo lugar  pra correr ou até mesmo uma inovação que estou achando super interessante: as pessoas que gostam de passar um tempo na cozinha estão compartilhando as receitas e trocando informações sobre energéticos naturais ou produtos sem glúten.

Mas a idéia de comparar as coisas pode trazer problemas se não for acompanhada de certos cuidados.

Um deles aparece quando se comparam treinos de técnicos diferentes. O outro, quando são iguais.

Há as pessoas pegam os treinos dos outros para olhar e se esquecem que aquilo deveria ser apenas e tão somente uma referência distante.

Nesse grupo, os mais inseguros e ansiosos vêem as planilhas e se espantam com o volume.  Consequentemente, acham que ainda não estão treinando o suficiente, impressão reforçada por váááários posts do Facebook tagarelando longos incríveis de 180km em cinco horas. Ai começam a ficar desconfiados, aumentam o volume por conta própria ou passam treinar com a moçada que vai para a estrada.

Uma roubada, pois é melhor fazer valer a confiança no seu técnico do que ficar sambando entre o que ele pede e o treino dos seus amigos.

E outra coisa que pode acontecer é você afundar mais ainda sua auto-estima quando vai acompanhar esses treinos.

Existem certas assessorias cujos técnicos incentivam a competitividade dentro dos próprios treinos - talvez nem incentivem, mas acontece.

Quando rola aquele pedal coletivo ou um simulado sempre tem o perigo de você se sentir pior ainda ao ver o ritmo da moçada, principalmente dos cavalos paraguaios que, infelizmente, você não sabe que são  leões de treino.

Ou o caras são bons mesmo, vai saber...

Por isso agradeço de coração e me sinto lisongeado quando as pessoas me convidam para treinar junto nessa época do ano, mas nem se a Fernanda Cândido de Oliveira chegasse na hora do meu treino no Riacho Grande e dissesse, olhando nos meus olhos,

"E ai cabeção, tem jeito esse pedal ou vai ficar ai se maquiando porra? Vai fazer pra quanto hoje?"

Outra confusão ocorre quando as pessoas começam a comparar os treinos do mesmo técnico.

Um dia um grupo de amigos estávamos comentando que muitas assessorias disponibilizam planilhas idênticas para os atletas. Dai segui-se uma acalorada discussão sobre o lado "embromation" das  "planilhas tudo igual".

Sei que muitos não concordam, mas na minha opinião não é bem assim.

No fundo, os planos  "personalizados" não tem a personalização tão esperada porque o núcleo mais importante dos treinos é idêntico para a maioria das pessoas mesmo.  Só que persistimos nessa implicação com os técnicos por achar que esses deveriam desenhar planilhas tal qual alfaiates confeccionam roupas sob medida.

Obviamente existem aqueles que precisam de atenção especial, seja porque têm talento e precisam treinar ainda mais forte para se diferenciar de forma competitiva daqueles que são igualmente talentosos como eles, seja porque apresentam dificuldade em particular em uma das três disciplinas do triathlon ou, outra hipótese, estão aptas para realizar os treinos em um patamar um pouco acima da média porque já acumularam um histórico de anos de treinamento.

Mas, tirando situações como essas, não há muito o que inventar, sabe?

Mesmo que a sua planilha tenha detalhes impossíveis de serem encontradas em qualquer outra e você possa colher benefícios incrementais aqui e ali, as mudanças de fundo são de longo prazo com os grandes blocos de treinos de endurance, intensidade, velocidade, VO2 e por ai vai.

Pois não existem truques, cartas na manga e muito menos "fórmulas de sucesso" ou aquelas sacadas sensacionais que poderiam ser publicadas na Triathlete Magazine e que vão tornar você um ciclista poderoso ou incrementar em 20% a sua velocidade na corrida de uma hora para outra.

Essa fixação por resultados rápidos está longe de ser algo exclusivo do campo esportivo - de onde você acha que vem o sucesso desses trambolhos que pregam vida fácil tais como "A Pilula da Liderança" ou programas de línguas tais como "Aprende inglês em três meses enquanto dorme"??? ;-)

O bom é que você não vai encontrar nenhum "Triathlon Minuto" na prateleiras das livrarias para levar para casa.

Na média, atletas amadores não precisam nada tão especial como treinos personalizados conforme o  DNA, mas de pessoas com conhecimento e experiência que nos proponham um plano de treinamento e nos dêem um dialogo, parceria e amizade.

Pois a gente sabe que para fazer o básico o caminho já não é fácil.

Caso esteja na busca um treinador, não tire conclusões apenas pela planilha que você cata de um atleta dele que é seu amigo. Você corre o risco de cometer um engano monumental porque fez uma escolha olhando só um lado da questão.

Treinadores não deveriam ser escolhidos por "amostra grátis".

Existe uma diferença entre "treinadores" e a de "coach", mas para facilitar, eu uso um pelo outro, tal como permite a tradução em inglês.

A idéia de "coach"é culturalmente mais ampla e rica, tal como a de um tutor, alguém experiente que se responsabiliza pela transmissão conhecimento e valores.

Mas ao longo do tempo vem sendo reduzida a um significado mais restrito, pobre e utilitarista, muito associado a uma certa ideologia de (super) mercado e organização de empresas.

Hoje até "coach terapeuta" existe por ai.

Esse trechinho mal escrito pra burro do Wikipédia, por exemplo:

Coaching é um processo definido com um acordo entre o coach (profissional) e o coachee (cliente) para atingir a um objetivo desejado pelo cliente, onde o coach apoia o cliente na busca de realizar o objetivo, ou seja as diversas metas que somadas levam o coachee ao encontro ao seu desejo maior estabelecido dentro do processo de coaching. Isso é feito por meio de reflexões e posterior análise das opções e da identificação e uso das próprias competências, como o aprimoramento e também o adquirir novas competências, além de perceber, reconhecer e superar as crenças limitantes, os pontos de maior fragilidade.

Essa visão corporativa e burocrática de treinamento caiu como uma luva em assessorias de gente bacana que tem uma certa mídia. Essas assessorias tratam seu filiados com linguagem de marketing esportivo, vêem cada pessoa como peixe que caiu na rede por meio relações de "fidelização" e preenchem o vazio de princípios com técnicas e slogans de motivação.

O problema desse tipo de "coach" é que ele repete incansavelmente que você tem que "ir além", mas não explica muito bem o que você vai encontrar quando chegar nesse "além".

Uma espiada em alguns filmes já seria suficiente para mostrar que existe um repertório mais profundo de valores para a gente pensar no assunto.

Para quem viu, valem lembrar dois deles.

Em "Carruagens de Fogo" é a luta contra o status quo que permeia cumplicidade entre dois personagens marginalizados em seus respectivos mundos: Sam Mussabini, um jornalista inglês de ascendência turca, italiana, arábe e francesa que passara de especialista em bilhar a técnico de corrida pago em mundo dominado pela mentalidade amadora que até então dominava as regras olimpicas e Harold Abrahams, corredor judeu que se confrontava contra o anti-semitismo do establisment aristocrático inglês.

Se você viu o filme e achou que a questão de fundo era a rivalidade entre Eric Liddell e Abrahams, não é não, viu?

Ma acho que nos identificamos mais com "Menina de Ouro", que capta a relação de um treinador de Boxe envelhecido e rejeitado pela filha, interpretado por Clint Eastwood, e uma garota, Hilary Schank, que sente a falta do pai e vive isolada em meio à pobreza e uma família de gente exploradora e deplorável que pouco se importa com ela. Morgan Freeman faz um personagem e é também o narrador da história.

Ela tem determinação, força bruta e teimosia típica das pessoas que na vida não tem mais o que arriscar, mas lhe fogem os fundamentos mais elementares do Boxe.

- Deus do céu, o que você está fazendo?

- Estou  treinando no saco Boss.

- Pois parece que é o saco que está treinando em você.

Ele, por sua vez, tem a história do esporte perpetuada na sua vida pessoal como empresário e treinador, mas não contava com nenhum momento de realização.

Essa mistura de personalidade fortes e atores de primeira linha dá a história certas sutilezas que estão além dos filmes convencionais sobre esportes. Os personagens falam por olhares, expõem sentimentos com pequenas mudança de expressão e, por vezes, passam mensagens com sinais trocados.

Não é uma narrativa convencional de um coach que ensina Boxe e encoraja uma atleta pobre e despreparada a fazer uma travessia rumo a um campeonato mundial.

É uma história de amor e retribuição de duas pessoas solitárias.

Embora seja ele carrancudo, de pouca conversa e aparentemente rude, e ela a garota de voz doce, sorriso largo e cheia de ternura, não se engane: quem carrega a coragem na relação é ela, pois o medo de arriscar e o instinto protetor o paralisava de tal forma que ele nunca expunha seus lutadores a um embate final.

É na ousadia da garota que ele encontra a coragem dele.

Mas ele também conhece os caminhos da alma dela.

Há uma cena em que ela está no ringue apanhando feio de outra lutadora e reclama que não sabe o que fazer.

Diz ele sem nenhuma emoção.

"Sabe por quê? Ela é melhor que você. Ela é mais jovem, mais forte e tem mais experiência. Agora, o que você vai fazer?"

Ela não diz uma palavra, levanta e soca a menina em três segundos.

Nocaute.

Ele não faz nenhum elogio. Apenas sorri.

Mas uma das seqüências que mais gosto é essa:

- Estou respirando direito?

- Não está, porque está nocauteando no primeiro assalto.

- Achei que o objetivo era esse.

- O objetivo é lutar bem. Não será boa se continuar nocauteando no primeiro assalto.

 - Por quê só pego lutas com quatro assaltos?

- Porque você não tem pulmões para seis assaltos.

- Tenho, se continuar nocauteando no primeiro....

O coach arruma outra luta de quatro assaltos "só para que ela soubesse quem era o Boss".

Em resposta ela novamente finaliza a luta no primeiro assalto, levanta os ombros e pede "desculpas".

Diz o narrador com ironia....

 "E Maggie não deixou dúvidas quem era...".

Sabendo que ela era assim, o coach cobra trabalho duro não com o objetivo de domar ímpeto natural e a personalidade da garota, mas corrigir os vícios e lhe ensinar os fundamentos gestuais do boxe.

"Não basta dizer a eles para esquecerem tudo. Você precisa fazer com que eles esqueçam de verdade. Canse-os tanto, para que só ouçam você, só a sua voz...para que só façam o que você diz e nada mais. Então você precisa mostrar tudo de novo. De novo e de novo...até eles acharem que nasceram daquele jeito".

Vendo o filme você se convence que os técnicos autênticos são realmente de outro naipe.

Não são consultores contratados que se esbaldam em anglicismos exagerados para ajudá-lo a "realizar o seu sonho" por meio de conversas com hora marcada que mal disfarçam sessões de auto-ajuda.

Bons treinadores tem uma angústia de realização pessoal, uma briga particular, um demônio dentro deles e enchergam outro dentro de você.

O que você pode estar se perguntando agora é em que cáspita de lugar você vai encontrar alguém assim ou se não é uma viagem muito grande ficar olhando filme e achar que a vida da gente é a mesma coisa.

Mas se pensar bem, vai descobrir que no fundo os "coachs" são personagens sem nomes empolados e que povoaram ou povoam a sua vida sem você notar dessa forma.

São as suas referências.

Pode ser  aquele professor de português que te mostrou o valor da literatura, o técnico de natação que plantou em você uma ambição que só ele enxergava ou um corredor com tantas histórias que fez que você se apaixonasse não por um esporte, mas por uma tradição repleta de biografias edificantes.

Bom, se você acompanha os textos e sem foco desse blog já deve estar acostumado com esse ziriguidum antes do tocar no assunto que proponho escrever.

Eu comecei dizendo "Já vai tempo que não falo de treinos..."

E pelo visto vou continuar não falando....;-)))

Tenho uma amiga que diz que faço isso em tudo.

Vou falar ou escrever e começo com algo tipo " Tem três coisas importantes. A primeira é isso...."

Depois de nove horas de conversa ou 47 páginas de email eu continuo " A terceira coisa...."

Ai ela diz "Espera, e a segunda?"

Eu, "Segunda?????".

"Sim, não eram três coisas?"

"Não, pensando bem acho que a segunda era a terceira..."

"E a segunda seria qual?"

"Acho que a primeira...."

"????????"

Eu ia falar sobre os treinos para o Iron. Ai um assunto vai levando ao outro, o Rodrigo me deu um toque para falar de algo no meio do caminho, me empolguei e,  púmba, me perdi em outro tema!

Óbvio que ninguém percebeu....;-)

Treinos ficam para o próximo.


3 comentários:

Andre Cruz disse...

Por essas e por outras, que prefiro seguir sozinho a ter um treinador.
Ok, minhas metas são mais simples e isso ajuda.
Mas, dos treinadores que tive na corrida me assustei com todos. Pera, todos não, o primeiro era do jeito que gosto.
Eu tive um treinador no basquete, o Miguel Angelo da Luz (campeão mundial com a seleção feminina de basquete). Cara, um senhor treinador. Simples e que soube me ensinar o pouco que aprendi no basquete. Coisas simples.
Fora os treinadores do jiu-jitsu e tal ..., mas na corrida ...., não deu não.

Ulisses Franceschi Eliano disse...

Muito bom o texto Vagnão. Acredito que este lance, tanto de postar, como de acompanhar o treino do outro, quer seja na observação, quer seja no mundo virtual das redes sociais e blogosfera, é um tanto de inexperiência do atleta também. Tanto de quem posta, que necessita de uma certa "admiração" inicial pelo seu esforço diário, como de quem absorve, por falta de certezas sobre o que dá e o que não dá certo com ele. Quanto mais experiente é um atleta, menos ele vai se importando com o que o outro está fazendo. Mais ele dá importância para o que acontecerá na prova, não no treino.
Uma outra coisa que percebo também é que os atletas costumam se espelhar e copiar muito o que os TOP atletas fazem. Mas, por muitas razões, aquele tipo de treino pode ser mais prejudicial para ele do que benéfico e se ele copiasse, talvez, o treino de um atleta mais lento e "pior", talvez ele se adaptasse melhor. O objetivo é sempre ter um treinamento que te evolui, não um que seja igual ao de alguém. Aqui entra a inteligência do atleta e do coach.
O maior motivo pelo qual hoje treino sozinho é exatamente pelo que escreveu. Hoje, temos muitos treinadores, bons e maus. Mas não temos coaches. E se temos, eles estão reclusos à clubes e centro de treinamentos de alto rendimento. É impossível uma pessoa ser um "coach" de dezenas de atletas, dar aulas em academias e ainda ser personal trainer, dar aula de pilates, etc, etc. Ser coach exige dedicação e esta demanda-se tempo. Muitos destes profissionais tem atividades das 6:00 da manhã até 23hs. Existe uma diferença enorme entre um treinador que te passa um treino, te explique o que aquele treino vai te melhorar e um coach, que te conhece no dia a dia e sabe que, naquele dia específico, o que vc precisa é "apanhar do saco" ou "ganhar no primeiro round". Mas para isso, ele tem que assumir quase o tal papel de tutor que colocou, como um mestre de Kung Fu da China antiga que pegava o aluno de garoto como um filho. Hoje, infelizmente, o espaço para isso é diminuto. Vivemos, como bem colocou, a era dos resultados rápidos. Das milhões de atividades cotidianas para alcançarmos objetivos financeiros. Estamos vivendo a era das relações superficiais e dos excessos. Porque esta relação coach/pupilo também não seria afetada? A quantidade está prevalecendo sobre a qualidade o tempo todo.

Rafael Pina Pereira disse...

Fui e voltei algumas vezes... não sei se captei tudo :-).

O que me chamou a atenção é realmente sobre as comparações de treinos. Eu às vezes posto, às vezes não. Tem que vezes que tem detalhes, outras não. Não sei porque.

Mas o que não entendo é quem fica comparando, vendo as distâncias e médias dos outros e ruminando coisas... ou confia no treinador ou troca ué :-). Na prática, isso é por insegurança de algum tipo, que tem que ser trabalhada muito bem senão vai gerar desastres a médio e longo prazo.

Baita texto... e o filme é realmente sensacional...

Abração