terça-feira, 16 de abril de 2013

Ladrões de Galinha e Rinhas de Galos

Nesse final de semana fui ao Paraná para o Long Distance Caiobá, uma das provas mais bacanas do circuito de triathlon aqui no Brasil.

Apesar de ter encontrado muita gente e ter feito uma prova que me surpreendeu, desta vez não vou dar depoimento como sempre faço.

Dessa vez, acreditem, mas acreditem mesmo, vou direto ao ponto: vácuo.

Porque em todo "day after" o assunto que entope o encanamento das redes sociais é esse.

Circulam fotos, vídeos e listas com os nomes dos famigerados "vaqueiros" que se apropriam do esforço alheio para fazer o seu resultado.

Eu mesmo já deitei falação sobre o assunto quando comentei o Long Distance de Caiobá de 2012 e, mais recentemente, o Internacional de Santos de 2013.

Não, espera...

Também falei sobre esse assunto no post do Iron Brazil 2010, 2011...em Pirassununga em 2009...em 2010...No Internacional de Santos em 2012....70.3 de Penha em 2011...de novo Caiobá em 2010....

Meu, deixa eu parar que senão vai rolar uma depressão....

Mas, sei lá, acho que vivo da ilusão de que falar do tema vai contribuir um pouquinho para mudar a atitude das pessoas, embora eu já devesse ter me mancado que, pelo tanto que se discute o assunto,  melhor seria ficar quieto ou repetir algo genérico e fatalista tipo "enfim, é a natureza humana" e seguir tocando a vida.

Só volto ao assunto para dizer que em certos aspectos desta vez foi um pouco diferente e vou aproveitar para fazer algumas provocações.

Embora não seja fã do jeito com que o Célio lida com os atletas e muito menos do tom personalista com que ele administra as provas, gosto da obstinação dele contra o uso do vácuo.

E esse ano achei a estratégia da Cia de Eventos para coibir essa prática foi mais eficaz, mesmo que em alguns momentos a coisa tenha se dado aos trancos e barrancos.

No meu caso especificamente,  topei com um pequeno pelotão que tinha força para me passar mas não abria de jeito nenhum.

Na hora fiquei transtornado, mas agora fico dando risada.

Quando eu ultrapassava o grupo novamente,  os caras vinham atrás de mim tais como aqueles zumbis incansáveis dos filmes de mortos-vivos, saca? Como eles não morrem jamais por já estarem mortos, é fatal que em algum momento eles voltem a te alcançar....;-)

E fazem isso porque acham que você, quando os ultrapassa, está no jogo deles e assume a cabeça do pelote para puxar o ritmo. Quando cansa, o grupo te coloca "para dentro" como se estivesse lhe retribuindo o favor. Tudo até certo ponto de forma automática e involuntária.

Louco, né?

Tudo bem que eu reclamei. E ai foi pior....

Um deles ficou bravo comigo e disse que não tinha o que fazer pois foi engolido pelo pelotão e não podia "perder tempo".

Ou seja, ele se julgava vitima por ser "obrigado" a tirar vantagem dos outros!!!

Tadinho....

Em certo momento vi um fiscal, talvez o próprio Célio, e abri os braços e chamei a atenção dele apontando para o grupo atrás.

Ele veio e desbaratinou o agrupamento dando tempo para fugir daqueles fantoches de triatletas - que voltaram a se agregar mais a frente.

Outra coisa interessante foi a divulgação dos nomes dos atletas penalizados.

A princípio eu não gosto muito de discussões que fulanizam os problemas.

Mas nesse caso eu concordei.

A divulgação de listas pode ser pontualmente injusto ao expor publicamente pessoas que não estavam fazendo uso desse tipo de prática. Mas no meu entender as coisas andam tão fora de controle que as injustiças individuais, embora possam ser dolorosas, não suplanta a necessidade de uma coerção dura contra esses atletas - na prática do vácuo está tão massificado que os acertos no atacado são infinitamente maiores que os erros no varejo.

Só que o problema não se resume a jogar uma rede no mar e ver quantos bagrinhos caem nela.

Pois uma coisa são os zumbis que agem como ladrões de galinha e vão parar no caderninho do Célio.

Outra, uma turma que brinca de PCC para organizar Rinha de Galo dentro das provas.

E isso está em outro "nírvel" de armação.

Nesse jogo há pessoas no chamado "andar de cima" que vêem as regras não como convenções de comportamento que estabelecem limites para cada competidor, mas sim obstáculos a serem vencidos assim como o próprio jogo.

O melhor não é necessariamente aquele que ganha por sua condição atlética, mas o indivíduo capaz de infringir o regulamento sem ser apanhado pela rede de fiscalização.

Em Caiobá presenciei uma atleta estava sendo levada por três ciclistas. Quando me aproximei e pedi passagem pela esquerda, o sujeito que estava na retaguarda disparou um comando para os da frente "Abre!".

Eu olhêêêêêiiii aquiiiiiilo e pensei, "Será que eu estou ouvindo o que eu estou vendo?" ;-)

Depois, em um jogo de cena muito feio, as falastronas e os falastrões jogam a responsabilidade dos pelotes nas costas do organizador: uma hora é a pista que é muito estreita, outra o circuito que é muito curto e há muitos atletas ou o problema mesmo é que não existe ordem de largada por categorias.

Para certos grupos esse tipo de disputa nas provas de longa distância parece que incorpora normas de conduta típica do crime organizado, sobretudo no que diz respeito ao silêncio que a maioria dos triatletas se auto impõem para evitar discutir o assunto de forma muito barulhenta.

Enquanto isso, no "andar de baixo" os ladrões de galinha são expostos sem dó nas mídias sociais tais como delinqüentes em jornais da imprensa marrom.

Muito eventualmente escapa um bate-boca na Facebook, mas são discussões em que ninguém tem razão por falta de credibilidade de ambas as partes. Já em outros momentos,  a abordagem é superficial e se misturam  no mesmo bolo pessoas que eventualmente receberam penalização por uma contingência da prova com outras que tem prática sistemática de vácuo.

Mas colocarmos muito luz sob a cabeça dos atletas não resolve inteiramente o problema.

Então vem cá, deixa eu perguntar: até quando a gente vai fingir que as assessorias não tem nada a ver com isso, hein?

As escoltas masculinas para as meninas, marcadores de pace, monitoramento sobre o número máximo de advertências que um atleta pode tomar a fim de otimizar o uso da roda de outro atleta sem que o dito (ou a dita) seja desclassificada e outros expedientes que são impróprios para menores de 18 anos...

Quem organiza esse pacote de benefícios para "atletas platinum"?

Por quê os técnicos se colocam como pessoas acima de qualquer suspeita mesmo quando seus atletas são sistematicamente punidos ou desclassificados?

Por quê quando um(a) atleta é pego(a) sobre a assessoria nada se fala?

E, desculpe, ninguém vai me convencer que a prática do vácuo é individual e de responsabilidade exclusiva de quem participa diretamente da prova e ponto final.

Porque as assessorias e seus respectivos técnicos, se não promovem ou pactuam com atitudes desleais, no mínimo sabem.

Se me disserem que "não sabem" então pecam por omissão.

Envolver as assessorias e seus treinadores com esse problema seria uma forma compartilhar responsabilidades para termos provas mais decentes, pois obrigaria que elas ficassem atentas para o tipo de atleta que estão formando e estipulassem limites para tolerar práticas espúrias.

Claro que existem assessorias exemplares lideradas por gente de valor que comanda seus times dentro de uma filosofia de trabalho moralmente irrepreensível.

E acho que todos conhecem. Informação é uma coisa que circula rapidamente porque o mundo do triathlon é muito pequeno.

Mas não convém ter uma atitude para os ladrões de galinha e outra diferente para às "familias sicilianas" em que se transformaram algumas assessorias que fazem jogo de equipe em esportes individuais.

Melhor ser genérico do que fingir que esse problema não existe.

Cobrar mais das pessoas em termos de atitudes e conscientização ajuda; exigir mais fiscais de prova, idem, mas dar maior responsabilidade para as assessorias é um passo importante para derrubar esquemas que levam atletas à conquistas sem mérito.

Para finalizar, que tal os patrocinadores e apoiadores desses e dessas atletas ficassem um pouco mais atentos onde estão expondo seu nome e também contribuíssem com o esforço coletivo para um triathlon mais limpo?


12 comentários:

Emiltri disse...

Sem palavras. Faz um tempo que me distanciei das provas longas, e este foi um dos motivos. Só não imaginava que a coisa anda beirando o crime organizado.
As regras de longa distancia precisam de ajustes urgentes. Estão um pouco ultrapassadas. Mas estes ajustes não devem ser usados para beneficiar que trapaceia.
Os organizadores deveriam suspender o infrator pelo resto do ano...

Fernando Asdourian disse...

Sensacional o texto

Heikki Kovalainen Brasil disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Davi Almiro disse...

Vagner, concordo com você sobre a questão das assessorias, já presenciei isso em treinos e provas, olha posso afirmar com certeza,tem técnico que incentiva, na cara dura mesmo, o uso do vácuo. Como você mencionou eles calculam o "risco", de seu aluno ser pego no "funil" da fiscalização, para muitos faz até parte da estratégia de prova e pouco se fala sobre isso...

Luis Fernando Oliveira disse...

Cara, deixa eu te contar. Eu fui pra Caiobá, fiz a prova, fiquei medianamente puto com o vácuo (achei melhor do que Penha), melhorei meu tempo do ano passado, treinei pro IM, revi alguns amigos, me diverti. É o que eu busco.

Pode ser que seja só o fato de eu não ter ambições de pódio ou vaga pra Kona, mas eu acho que o ambiente é bom, que triatletas em geral são pessoas interessantes e simpáticas (ainda que levemente desajustadas) e que este é um esporte interesante.

Haja dissonância! Chego de volta em casa, ligo o FB e vejo uma avalanche de mensagens sobre o tipo de canalha que estava em Caiobá, um bando de gente que só quer roubar, traidores do "velho espírito do tri". Acho que fui no Caiobá errado. Ou melhor, no Caiobá certo.

Andre Cruz disse...

Eu acho que tem que expor o nome do cara, da assessoria, o cpf e tudo.


Rafael Pina Pereira disse...

Mais um mega texto...

"Quando eu ultrapassava o grupo novamente, os caras vinham atrás de mim tais como aqueles zumbis incansáveis dos filmes de mortos-vivos, saca? Como eles não morrem jamais por já estarem mortos, é fatal que em algum momento eles voltem a te alcançar....;-)"

Definiu perfeitamente a desgraceira que eu vi no 70.3 de miami...

Isso é uma praga. E os esquemas organizados, outro dia teve uma provinha local, aceitava revezamento, aí um super nadador saiu em primeiro geral. O ciclista ficou lá enrolando até aparecer um atleta sozinho e puxou o cara o ciclismo inteiro... a prova era com vácou, mas PROIBIDO entre gênero e categorias... e o cara do revezamento lá rebocando o que se saiu 'campeão'... triste...

Caioba nao tem desculpa, tem espaco de sobra....

Falou !

Rafael

LODD disse...

Cara,

Não vou me alongar nem dar depoimento pessoal...

Só tenho que dizer sobre o teu texto: SIMPLESMENTE GENIAL!

Abs

LODD

3 ATHLON NA VEIA disse...

É Vagner, isso é terrível.
A esperança é a última que morre (mas morre) portanto vou (vamos?) continuar tentando render o máximo, fazendo provas limpas e estragando meu humor com esse tipo de atletas e suas assessorias.

Cintia disse...

Vagnera, escrevi uma bíblia! :)
Concordo e descordo. Acho que vácuo é igual a dopping, tem em todos os lugares, e sempre haverá. Isso vem do caráter... Como você mesmo afirmou, você já vem citando esse problema na maioria dos seus posts. O problema não está nas pessoas que fazem o seu uso, mas sim, no sistema de penalização, principalmente nos circuitos nacionais. Se tivessem uma penalização eficaz, o cara não iria pensar em fazê-lo.
Fiz uma vez o Ironman Brasil, e nunca mais vou fazer. Fiquei chocada quando uma moto veio chamar minha atenção no sul da ilha, quando eu estava pedalando sozinha na direita, ninguém na frente, e ninguém atrás. Tinham alguns atletas me ultrapassando, e no meio do meu primeiro Ironman tive que explicar para um fiscal que aquilo não era vácuo, e sim ultrapassagem, tinham pessoas me ultrapassando a esquerda. E olhei pro meu lado direito, onde dá pra ver quem está na sua frente na outra pista, e haviam dois pelotes enormes com a negada forte.
As organizações das provas deveriam investir em fiscais conscientes. E é um absurdo não penalizar os atletas profissionais, eles são os nossos maiores exemplos. Eles competem por dinheiro, a fiscalização em cima deles deveriam ser ainda mais forte.
Acho que as sugestões feitas pela reportagem do MundoTri são válidas, sim. Largar em ondas é uma opção. Mudar o percurso também. Acredito que um percurso pequeno contribui para a formação de pelotes. E muitos atletas do bem são engolidos pelos pelotes. Não adianta você deixar passar ou se matar pra ultrapassar, pois a manada vai te alcançar, se não a que você ultrapassou, a outra de trás.
Acho que é muito mais válido, os atletas escolherem melhor suas provas, e boicotarem as provas, onde a fatifaria rola solta. Mesmo sabendo que não temos muitas opções.
E acho que quem está sempre competindo já sabe quem são os verdadeiros vaqueiros, os que só andam na roda de outras. Não acho que divulgando o nome, e expondo o cara ao ridículo, irá mudar alguma coisa. Quem pega vácuo, vai continuar pegando vácuo. Do mesmo jeito que quem usa substâncias proibidas para melhorar seu desempenho, vai continuar fazendo. Não há penalização eficaz no triathlon.

Beto Nitrini disse...

Muito bom! Sensacional Vagnão.
Sem mais comentários.

Abraço!

Jorge Ramiro disse...
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