quinta-feira, 16 de outubro de 2014

O "Pré-Sal" dentro de você....

Em todas as descrições que já fiz em relação aos treinos para um Ironman, esse apresenta duas novidades: leva em consideração que já realizei um IM esse ano, em Florianópolis e estou lidando com um mudança de padrão alimentar radical.

Os treinos seguem o roteiro de uma preparação para o IM, que pode ser dividido em quatro períodos.

O primeiro é basicamente um período de treinos livres que se iniciam entre 30 a sessenta dias depois do Ironman. Não há uma programação e o atleta escolhe os seus treinos.

O segundo período tem como objetivo concatenar a volta as atividades, mas de forma ainda leve. Há um longo de bike e treinos uma ou duas vezes por dia. A idéia é começar a religar o seu corpo.

O terceiro é o certamente o principal deles. Os treinos durante a semana são relativamente curtos (não confundir com "leves"), e os longos começam com uma natação de 3k na sexta-feira, de quatro a cinco horas de pedal no sábado ou um longo de corrida de 2:45 no domingo.

O quarto período, bem mais curto é o polimento. Fisicamente, não é "molezinha", mas  o duro mesmo é a parte psicológica. Como escrevi em outros posts, você se sente cansado durante a fase três e parece que não vai ter força para fazer a prova, só que quando chega o polimento a sensação é que você não deveria ter parado de treinar, que poderia ter feito mais e, de quebra, ainda está gordo.

Uma merda.... :-(

Convenhamos, não é um bicho papão quando se olha o quadro todo. Mas quem vê um pouco de longe, tira a média de um triatleta pelo pico de treinos que ele faz para um Ironman nessa última fase -  e a gente vive um pouco dessa fama de "homens de ferro" o ano todo.  ;-)

Embora muitos tenham conhecimento sobre esse período de preparação, vale dizer que o que mais impressiona não é tanto o volume no dia a dia, mas a capacidade de dar sequência a treinos curtos e longos com um fôlego só  - você faz um pedal de 150 km no sábado, corre coisa de 29 km no domingo e, segunda-feira....descansa? Não. Segunda-feira você pula na água as seis horas da matina, dá uma corrida leve a noite e na terça já começam treinos curtos e mais puxados na esteira, no rolo e na piscina até o próximo final de semana.

Eu já conheço essa rotina, mas a transição para a dieta Low-Carb me trouxe situações novas em que a experiência não ajuda tanto - e as vezes não há muito para quem apelar.

Se é possível dizer há uma tsunami de informações sobre a dieta para quem deseja, por exemplo, perder peso e mudar seus hábitos alimentares, no caso da prática esportiva ainda estamos longe do acúmulo de conhecimento nesse mesmo patamar - há apenas alguns poucos livros e blogs com depoimentos pessoais.

A gente vai tateando no escuro.

O grande interesse que essa dieta desperta para quem faz provas de longa distância tem a ver com o acesso aos estoques de energia que estão disponíveis no seu corpo.

Se fiz a lição de casa direito, as moléculas gordura carregam mais energia que os carboidratos em uma relação próxima a 2:1 (9 Kcal/g de energia contra 4 Kcal/g) e representam um reservatório de energia bem maior - os estoques de gordura disponíveis em nosso corpo podem prover 40.000 mil calorias contra 2.000 dos carboidratos.

Mais: segundo alguns autores, a cetose pode oferecer ao atleta desempenho físico melhor em dois aspectos: aumento da capacidade aeróbica e resistência muscular, o que seria particularmente importante em provas de endurance.

Entretanto, qual o caminho para acessar o "Pré-Sal" dessa fabulosa reserva energética?

Não conheço resposta diferente daquela dada pelo empirismo: adaptação.

As nuances se referem apenas a forma como essa adaptação pode ser provocada.

Alguns autores defendem uma combinação de estratégias de condicionamento fisiológico e alimentação sem que você seja obrigado a seguir uma dieta Low-Carb, como treinos em jejum ou exercícios fortes seguidos de atividade física moderada com algumas horas de intervalo sob condição de baixos estoques de carboidratos.

Para os que seguem a dieta, o acesso a essas reservas se dá em algumas etapas.

Nos primeiros dias há uma adaptação do seu corpo. É possível sentir dores de cabeça, fraqueza e um pouco de tontura. O efeitos são passageiros e duram, talvez, de dois a três dias.

Já do ponto da prática esportiva, a adaptação é mais demorada e a fase inicial desse processo é dura de lascar. Minha primeira semana de treinos foi a mais difícil entre todas que sou capaz de lembrar.

Aós quatro semanas após o inicio da dieta, minha condição já melhorou e me pus a testar algumas coisas  - consegui fazer dois longos de 5 horas de bike apenas com água e capsulas de sal e dois longos de 2:45 na mesma condição. Os dois treinos foram realizados com variação de ritmo constante (fácil+moderado/forte+forte).

Mas vale dizer que não dou pirueta sem rede de segurança - tinha um estoque de gel comigo e fique atento a todos os sinais do meu corpo.

Após esse esforço, ingeri uma bebida com carboidratos e proteínas na proporção 4 x 1 (aquela, você sabe) e uma colher de mel, pois é necessário recompor os estoques de glicogênio depletados após a atividade física. Essa recomposição não altera o estado de cetose (agradeço o esclarecimento ao Estevão Borges Jorge, do Grupo Running/Endurance Paleo Low Carb).

Até o momento, perdi medidas e não houve perda de massa muscular maior que aquele que experimentei em outros anos. Também não tive queda do sistema imunológico, cujo gatilho é uma herpes perto do lábio.

Mas, com tudo isso, é bem possível que eu faça a prova pagando o preço de uma adaptação que ainda não está completa. Algumas pessoas apontam que esse processo pode levar mais de três meses.

Mas o quê fazer durante a prova de Ironman tal como será Fortaleza?

Ainda estou coletando algumas informações para traçar a minha estratégia, que ficará para o próximo post.

É possível adiantar dois pontos: o primeiro, que está fora de questão a supressão completa dos carboidratos. Os treinos que fiz sem eles fazem parte do processo de adaptação - na prova a idéia é outra.

O segundo ponto é um pensamento do Peter Attia que não me sai da cabeça: mais importante do que você vai escolher para ingerir durante a prova é dieta antes dela, pois é nesse período que se constrói a chamada "eficiência enérgica" e o balanço de carboidratos e gordura ideal para você.

Se interpreto corretamente,  a necessidade de carboidratos não é uma aritmética abstrata entre o que é consumido e o que é gasto em calorias durante o tempo que dura o esforço físico em um Ironman - se isso estiver correto, as contas que fazemos na ponta do lápis na mesa da nutricionista são "chutes" podem superestimar nossa necessidade de carboidratos.

Confere produção?

Caminhando para os "finalmente", gostaria de guardar dois pontos.

O primeiro, é que esse relato não tem pretensão de ser uma cartilha para pessoas que pretendem fazer uma experiência desse gênero em provas de triathlon ou Ironman. O manejo de informações de saúde não devem ser objeto de publicidade, promoção pessoal e, portanto, consulte um profissional da área de nutrição que seja da sua confiança, seu técnico ou um médico antes de mexer uma agulha.

Bom, mas abre um parênteses aqui.

Os adeptos das dietas cetogênicas são céticos em relação ao trabalho de grande parte dos nutricionistas, muitos dos quais apenas repetem fórmulas derivadas de hábitos consagrados. Realmente, é frustrante quando se nota que muitos nutricionistas precisam de uma maior atualização em relação a temas novos, e não sabem rebater argumentos de pessoas que descobrem coisas sozinhas em sites especializados na Internet.

Eu sempre achei que valeria mais ser orientado por especialistas que estudaram quatro anos do que por pessoas que estudam o assunto por interesse próprio - mesmo aquelas com senso critico e inteligência aguçada.

Mas depois que descobri que o Rodrigo Constantino é realmente economista, escreve o que escreve e fala o que fala, achei que isso era uma bobagem....;-)

Falando sério...

Há camadas de complexidade sobre esse assunto e dificuldades adicionais quando não há familiaridade com os conceitos. Descobri textos que discutem a dinâmica da bioquímica humana nesse regime, mas são quase ininteligíveis para leigos ou exigem muita pesquisa para uma compreensão.

Nesse ponto é que se põe a nu os limites do autodidatismo.

Fecha o parênteses.

O segundo é que relatos pessoais tem a cara do dono e, por vezes, esse torce as palavras para que a situação pareça mais favorável do que ela realmente é. Por quê? Porque consciente ou inconscientemente ele deseja que a dieta dê certo e carrega o samba enredo apenas com as coisas positivas.

Vale sempre ser critico e desconfiado.

Afinal, isso aqui, não esqueçamos, é um Blog.



quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Ponto de retorno....


Meu antigo técnico dizia que quando se termina um Ironman é bom a gente não treinar e muito menos falar em triathlon por um tempo.

As vezes esse "por um tempo" toma largura maior porque não há muita coisa no presente que não tenha sido descrita em outros textos que estão nesse blog, pois a vida no triatlhon é relativamente cíclica.

Escrever só vale a pena quando há algo diferente que pode ser contado.

Ou preciso pensar em reinventar esse espaço. Não sei....

De qualquer forma,  parei agora para escrever dois posts: o primeiro para descrever um pouco como foram os últimos meses e, o segundo, como está a preparação para o próximo Ironman.

Depois de Florianópolis,  retomei aos treinos de forma muito lenta e irregular - e sem vontade nenhuma. Acho que pela primeira vez pensei em desistir, pois a isso se somava uma reflexão difícil, encardida, sobre o destino que dou ao meu tempo.

Noves fora nada, me perguntei o seguinte: fazemos o que fazemos por busca de realização pessoal ou é apenas a incapacidade de parar, porque já andamos tanto que só nos resta continuar seguindo em frente?

Se você acha que estou questionando o "amor ao triathlon", tal como católicos e evangélicos experimentam em algum momento o desvio da sua fé, certamente não sou uma boa leitura.

Porque, assim como não existe geração, também não acredito em "motivação espontânea".

E, muito aqui entre nós,  desconfio que são justamente os mais românticos, aqueles que afirmam de pé junto seu amor todo santo dia, os primeiros a ficarem pelo caminho quando é necessário prender a respiração, aguentar e seguir em frente.

E como enfrentar a dura rotina do triathlon sem nenhuma força interior para transpor os obstáculos do dia a dia e cheio de dúvidas?

Reconheço que existem muitos que se atiram nos treinos com prazer e há aqueles que conseguem combiná-los com uma convivência social sadia e gratificante. Para outros, ainda, correr significa um "descanso da loucura", parafraseando uma linda frase de Guimarães Rosa ("Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso da loucura").

Mas o meu perfil é um pouco mais para aqueles solitários, compulsivos e com leve tendência psicopata que pensam o seguinte: se é para treinar, então vamos treinar "duela a quien duela"

Que, no caso, sou eu mesmo.

Os treinos nos últimos meses envolveram uma batalha física e mental entrelaçada e dura como nunca. E eu perdia quase todo dia.

Não foram poucos os momentos em que simplesmente não queria estar ali e desejava que o tempo passasse logo - podiam ser os tiros curtos de esteira, um Time Trial ou um vai e vem em piscinas de 25 metros.

E nem era o caso de dar como desculpa uma planilha apinhada de treinos pesados.

Pelo contrário, a programação para o segundo semestre não era nada complicada - uma hora por dia, esforço de fraco a moderado, sendo que apenas em três dias da semana os treinos eram em dois períodos.

Mas não estava dando.

Eu, que sou vespertino, não tinha ânimo para sair da cama pela manhã. Ao longo do dia, estava letárgico e sem energia. Depois do trabalho, me sentia exausto para ir para treinar. Só em pensar em pegar o carro e dirigir no final de semana para pedalar me deixava desolado.

Por outro lado, a alimentação degringolou. Eu estava perdendo o jogo para uma cadeia de hábitos errados. Quando treinava pela manhã, achava que tinha licença moral para comer porcaria ou evitar o treino a noite, afinal era uma compensação mais que merecida porque naquele dia tinha feito pelo menos uma parte da planilha.

Como estava no período pós IM e no inverno, a explicação lógica residia naquelas relações de causa e efeito que estão a mão para qualquer justificativa - perder o controle da alimentação depois do Iron é "normal" e o frio acaba reforçando a necessidade de calorias adicionais.

Então, vamos encarar isso como uma fase.

Só que a fase não passava.

Bem, o Rodrigo me cobrou porque não escrevi para ele. Mas sabe quando você não abre o guarda-chuva na rua porque acha que só tem uns pingos e dá para chegar em casa sem se molhar muito?

Coisa assim.

Foi então que ele estabeleceu uma pequena meta - apenas cumprir os horários e os treinos da planilha uma única semana.

That's it.

Ele é esperto. Plagiando o Antonio Prata, o diagnóstico dele era o seguinte: o problema não estava no carburador, mas no motor de arranque.

Então vamos era dar um tranco e deixar que a questão hormonal passe a agir como um auto-reforço para o carro começar a andar novamente.

Enquanto isso....

Em um dia da semana no mês de agosto, o Xampa combinou uma pizza aqui em São Paulo com um grupo de amigos e fomos lá colocar o papo em dia.

Ai o Xampa começa a falar da dieta Low-Carb, sobre a qual eu já tinha lido, mas apenas superficialmente. Lembrava de um artigo décadas atrás, na Triathlete Magazine, acho eu, depois esqueci completamente.

Recordei a conversa dias depois porque alguma coisa tinha despertado minha curiosidade. Resolvi pedir para mais informações. Ele me enviou vídeos, blogs e livros - coisa dos amigos que são realmente grandes amigos.

Pedi também algumas dicas para o Rodrigo, que me enviou um conceito minimalista do que ele pensa: a figura com um prato com duas cores, metade com vegetais, metade de proteína.

E um copo de água. ;-)

Pessoas diferentes, estilos diferentes.....

Na verdade, existem vários tipos e modalidades de dieta Low-Carb ou, como quiserem, dietas cetogênicas. Sem a pretensão de explicar um tema para a qual não tenho competência e que você mesmo pode encontrar pesquisando na Internet, vou fazer uso de uma pequena introdução tão somente para que você entenda esse post, não mais que isso.

O objetivo básico das dietas Low-Carb é a normalizar os níveis de insulina por meio da redução do consumo de carboidratos (massas, pães, açucares e até frutas adocicadas).

Grosseiramente falando, quando você ingere alimentos de alto índice glicêmico há um aumento da glicose no sangue e, consequentemente, liberação de insulina para que seu corpo possa utilizá-la nos músculos, nos órgãos ou armazená-la na forma de gordura. Mas com a queda da glicose, gerada justamente pela ação da insulina, você sentirá fome e todo o ciclo se inicia novamente.

Quando há um limite na ingestão de carboidratos, o corpo troca a matriz energética e começa a metabolizar gordura. Consequentemente, os níveis glicose no sangue ficam mais estabilizados e desaparecem os picos de insulina que transformam seu desejo por comida em um montanha russa.

Mas isso não significa o sacrifício adicional de evitar bolos, doces de leite, brigadeiros, tortas entre outros?

Na verdade, não.

Ao cabo de tudo, você enfim descobre que aquela vontade de atacar a geladeira de madrugada, se entupir de sorvete ou avançar no chocolate atrás da vitrine não estava vinculada a necessidade do seu paladar - era apenas um impulso decorrente de um ciclo hormonal descompensado.

O rompimento dos picos de insulina desata os mecanismos associam o prazer de um doce com o vicio por mais doces.

No meu caso, não foi fácil dar o chute inicial. Como a maioria das pessoas que pode estar lendo esse blog, eu fui condicionado que "gordura é ruim" e me privei de experimentá-la durante toda a vida, já que desde de fiotinho pratico esportes e isso continua até hoje.

Depois de superado o medo de comer bacon pela manhã, não há como descrever a experiência libertadora das paranóias que me tiravam o prazer de comer e manter o peso. Mais interessante ainda foi a sensação de saciedade e bem-estar, como se eu entregasse ao meu corpo algo que ele sempre  precisasse e sempre ignorei.

No início, é normal algumas adaptações e muitos exageros  - me senti um pouco mais tranquilo depois de ver uma palestra do Fabio Mollica no Camp da minha assessoria, em Guaratinguetá.

Para ter uma ação mais efetiva do ponto de vista da redução do meu peso para o IM de Fortaleza, optei por uma abordagem High Fat.

Existem outras.

Futuramente, pretendo ajustá-la tal como o Rodrigo a entende, isto é, menos de gordura animal e lacticínios em troca de frutas e alimentos de maior valor nutritivo - embora jamais pretenda abrir a guarda para voltar ao antigo modus operandi da alimentação High Carb.

Mas o mais importante é que minha vontade de treinar e a minha disposição mental voltaram rapidamente, tanto nos treinos regulares como nos longos nos finais de semana. Lembro indo para o Riacho e um pingos batendo no parabrisa - bem, em nenhum momento senti vontade de dar meia volta.

Esse ponto de retorno pode estar vinculado ao estratégia do coach ou tem explicação na dieta?

As duas coisas?

Ou tudo não passou de coincidência?

Eu conto uma história, mas nem sempre quem passou por tudo tem o melhor ângulo.

Mas o importante é entender que esse tipo de experiências não é "só uma fase".

Pensar assim pressupõe um mecanismo de regulação que estabiliza automaticamente nosso humor.

Seguindo esse raciocínio, o remédio é esperar o tempo passar.

Isso pode ser um equívoco.

Você percebe melhor as coisas observando aqueles que convivem com distúrbios crônicos de motivação associados a problemas orgânicos. A convivência com esse quadro dá a eles uma vantagem valiosa, pois desenvolvem uma percepção aguçada das nuances da sua disposição física, mental e emocional.

Para a maioria de nós, entretanto, as questões são um tanto obscuras e nos falta um "gatilho" que nos ponha em alerta em relação ao nosso balanço bioquímico. Um pouco desnorteados, achamos que a falta de motivação é uma questão de...."motivação".

Ou, para os românticos, da falta de "amor". ;-)

Logo faço um outro post sobre os treinos e o que estou pensando em fazer no IM de Fortaleza.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

O todo não é a soma das partes - o vácuo no Ironman 2014

Inegavelmente, o personagem mais importante do Ironman 2014 foi o vácuo, suplantando de longe o feito do Igor Amorelli, primeiro brasileiro a vencer a prova na categoria masculina.

A repercussão de vídeos e fotos em perfis na Internet deu-se de forma viral e todos fomos arrastados para o centro de uma discussão com os punhos levantados. Se o estopim da crise teve início entre as participantes da elite feminina, em um curto espaço de tempo alcançaram também a elite masculina e em um rastro de pólvora bateu na porta dos amadores.

Dentro desse último grupo, a questão gerou um tremendo mal estar, não apenas em relação aos que alcançaram as vagas para Kona, mas também entre aqueles que conseguiram bons resultados de forma geral. Em alguns casos, atletas de assessorias se viram na obrigação de se explicar, já que pessoas com o mesmo uniforme foram identificadas por um jogo de equipe.

Nesse clima tenso, vários amigos passaram a indicar sites de empresas que fotografaram o evento para atestar idoneidade e alguns (poucos) enviaram arquivos com dados de seus medidores de potência para o Max.

Enfim, instalou-se algo como um sistema de caça as bruxas que deixa a inquisição no chinelo.

Uma crise de confiança que nos levou a questionar profundamente um problema cuja grita é geral faz tempo: o sistema de fiscalização do IM Brasil é ineficaz porque não pune ou é seletivo no momento de distribuir penalidades.

De pouco adianta dizer que há um recorde de atletas penalizados se alguns réus confessos andam por ai distribuindo tapas e beijos nas redes sociais e nada acontece.

Entretanto, vou me arriscar onde está todo mundo vendo o que parece o óbvio.

No meu entender, muito se fala do vácuo, mas pouco se entende da dinâmica do ciclismo dentro do IM de Florinópolis.

E sem a compreensão dessa dinâmica, as imagens captadas por fotos e vídeos curtos jogam mais poeira nos olhos do que clareza sobre o que de fato acontece lá dentro.

No fundo, o vácuo é inerente as situações de prova de um Ironman e em algum momento todos vamos estar dentro dele, querendo-se ou não.

Para não falar dos outros, vou falar de mim mesmo.

Passei por várias situações no IM de 2014 e que estão sendo retratadas nas redes.

Entrei em agrupamentos transitórios que se formam em função da geografia ou do desenho do percurso, principalmente nas áreas adjacentes aos túneis, zonas neutras, afunilamento dos cones e retorno - mas as fotos não tem legendas.

Outra situação em que me vi inserido foram os grandes agrupamentos involuntários que parecem um "buraco negro" tamanho a força como te engolem. As pessoas não se conhecem e, quando você vai para a ponta querendo fugir, sua atitude é interpretada como a de um novo puxador de ritmo. No momento em que você cede, o grupo te coloca para dentro automaticamente como que lhe retribuindo um favor.

Eu apareço em um video dentro de um deles - e ninguém saberia se eu não falasse em razão da baixa qualidade das imagens.

Como estávamos contra o vento, eu não tinha meios de sair como fiz da primeira vez que os encontrei. O pelotão me bloqueava. Só consegui me ver livre depois de um tombo provocado pela ação de uma moto que levava um fiscal.

Também tive que lidar com agrupamento menores. Você está pedalando, ultrapassa um grupo de três ou quatro ciclistas. Esses pegam o seu ritmo, vem atrás e te ultrapassam novamente - só que não abrem. Você deixa que eles se afastem diminuindo um pouco, mas volta a alcancá-los e tudo acontece novamente da mesma forma.

Esses grupos são os que mais me estressam. É um desgaste daqueles.

Agora, alguém vai dizer que eu "fiquei na roda" e que me beneficiei do vácuo?

No caso dos atletas competitivos que estão na busca por posições, essas situações os colocam no fio da navalha. Como a regra que diz que o ciclista ao ser ultrapassado deve recuar não funciona, vários lutam com se estivessem em um disputa. Conheço amigos que são contra o vácuo, mas são pegos pela fiscalização em situações desse tipo.

Obviamente, não estou naturalizando um posicionamento que depende de escolhas pessoais e muito menos dando atestado de idoneidade para os que deliberadamente se valem do vácuo para fazer o seu resultado.

Existem também grupos que agem por combinação, escolta preparada por técnico(a)s e há uma turma grande de caráter duvidoso que depois da prova admite que pegou vácuo, mas o fez porque o da frente estava fazendo o mesmo.

Só que isso nós já sabemos.

Estou dizendo outra coisa: é pouco olhar todas as fotos e vídeos, mesmo que elas captem situações reais de vácuo no momento em que são feitos.

O que conta é a dinâmica de uma prova de 180k, não o ato isolado retirado do contexto.

Vácuo faz parte do IM de Florianópolis e o problema não são os três minutos em que você fica dentro dele, mas o quanto ele favorece seu resultado final.

É o todo que dá sentido e permite interpretar as partes.

E estamos fazendo o inverso.

Nesse sentido, dentro dessa loucura talvez a única coisa que tenha feito sentido foi a proposta feita pelo Max. Se é possível de ser implementada ou não, isso é outro assunto, mas nos deixaria menos vulneráveis a uma fiscalização caolha e olhares discriminatórios.

Do meu ponto de vista, é isso: podemos continuar com grunhidos, comentários ofensivos em redes e achar que esse post é oportunista porque o autor disse que pegou vácuo e agora se bandeou para o outro lado.

Ou podemos lidar com a verdade de uma forma decente e parar de jogar o lixo no quintal do vizinho.

sábado, 31 de maio de 2014

Ironman 2014


Escrever uma história na qual somos os próprios personagens aumenta bem a chance de um texto cheio de cascas de banana.

Não se trata apenas de falar sobre a distância entre o que ocorre e a nossa percepção - problema maior é o quão nossas lembranças podem ser seletivas, pois já sabemos que o eu que passou por uma experiência não é o mesmo que reflete e escreve sobre ela.

Para mim, nesse Ironman a coisa mais marcante foi a experiência da dor. Mas uma dor que não pode ser descrita como aguda, tal como um corte profundo, ou um incomodo insistente e constante.

Apenas uma dor.

Daria ibope se escrevesse que se trata de uma dor redentora, aquela que antecede a uma grande realização pessoal e purifica nossa alma depois de um grande esforço e uma brutal demonstração de força de vontade.

Mas não foi assim que aconteceu comigo. Não me orgulho disso.

Gostaria de terminar um Iron rindo, vibrando de punhos fechados ou exausto chorando por outras emoções.

Acho que muitos de nós convivemos com uma "angústia de realização" que suplanta o orgulho de superar a dor - quando o esforço cessa, a primeira sensação não é de alívio físico, mas uma inquietação: "poderia ter sido melhor".

Minha prova em 2014 tinha uma meta - alcançar o pórtico à luz do dia.

Nas semanas que antecederam a prova, especificamente no período de polimento, minha ânsia de antecipar mentalmente as dificuldades me fez sofrer por antecipação - coisa que ninguém comenta sobre as ambiguidades do processo de "mentalização".

Eu estava com medo de uma natação problemática. De longe, nadar é o que me deixa mais desconfortável dada a necessidade de combinar esforço, respiração e uma certa paciência para seguir lentamente entre as bóias e a praia. Sei que não vou ficar no mar, mas nos momentos mais críticos padeço do  esforço cego e da sensação de afogamento em razão da respiração descoordenada.

Nos dias que antecederam a prova, entretanto, trocando figurinhas com a Ana Oliva, ganhei dicas que tiveram um ótimo encaixe mental: se situe no seu grupo, não estresse com a pancadaria e foque nos seus movimentos.

Na largada, alinhei meus pensamentos, não deixei que o confronto com outros nadadores me irritasse e parei de pensar o quão longe estavam as bóias. Eu simplesmente aceitei as coisas como elas eram e pensei apenas no que estava fazendo.

Outra coisa importante foi ter nadado com o chamado "nado manco" ou "braçada esticada" com a respiração dois por um, tal como o Vinnie Santana tinha exposto em um video do MundoTri.

Conversando com o Rodrigo sobre o assunto dois meses antes da prova, ele achava que estávamos  em cima da hora para uma mudança de técnica - mas eu já tinha feito uns ensaios na piscina e, quando entrei no mar, foi um ato totalmente involuntário.

Percebi que tinha conseguido conciliar uma técnica de natação e uma estratégia mental que me levava para frente de forma consistente. A respiração pausada e o foco nos movimentos evitavam que me sentisse afogado e ansioso com a passagem do tempo.

Sai da água para 1:08 - dez minutos mais rápido que meu último IM. Depois fiquei sabendo que nadamos mais de 3.800 metros e achei o resultado ainda melhor.

Para a etapa do pedal, esperava um ótimo desempenho tirando por média os treinos de base na Ciclovia do Rio Pinheiros e no Riacho Grande. Vindo de um tempo de 5:22 no IM do Texas no ano passado, minha expectativa era um pedal dez minutos mais rápido.

Pedalei com cadência baixa como gosto e me senti forte nos primeiros 90k, fazendo algo próximo a 36km/hora. Apostava em uma primeira volta mais rápida para evitar máximo possível o vento naquela área próxima aos túneis.

No retorno da segunda perna, entretanto, o jogo mudou e as peças no tabuleiro foram rearranjadas bruscamente - as rajadas entraram forte e, creio eu, um pouco mais cedo do que o esperado.

Eu tinha feito a aposta a errada e meu corpo sentiu as consequências imediatamente.

Do ponto de vista mental, também foi uma lástima. Ao invés de me concentrar em cada pedalada, comecei a fazer uma espécie de "mentalização negativa", sofrendo por antecipar os trechos duros pelos quais ainda teria que passar.

A média caía e comecei a pedalar sem ritmo.

Quebrei.

Agora, escrevendo, não dá para não achar  graça das coisas que passam pela cabeça naqueles momentos. Você começa pensando "Hoje eu vou para Kona", uma hora depois "Nunca mais faço inscrição para essa porra de prova" e, 45 minutos mais tarde, "Fura agora pneu desgraçado, fura!" ;-)

E ai entramos na história dos pelotões. Vou apenas dar meu depoimento e deixar esse assunto para outra oportunidade se tiver algo novo para dizer. Já falei sobre o assunto em várias situações e a repetição continua dos mesmos argumentos fica com cara de sermão.

E também não vou citar nomes, pois as pessoas que montaram esse circo estão expondo de forma pública suas visceras umas às outras. 

Primeiro, vi três pelotões grandes,  fortes e organizados. Várias pessoas encaixadas dentro deles que juntas abriam vantagem com uma velocidade surreal, principalmente quando os apanhava no contra-fluxo vindo em direção oposta a minha. Era um povo que estava fazendo outra prova.

Infelizmente, muitos conhecidos e conhecidas.

Em seguida, havia pelotões de atletas mais fracos e oportunistas que foram se agrupando aleatoriamente. Eram bastante desorganizados, inconstantes e colocavam outros triatletas para dentro por gravidade. 

Fui engolido por um deles e tive que fazer força para sair, mas quando fui beber água em um retorno chegaram novamente - até que, um pouco adiante, a moto que levava o fiscal parou bem na frente enquanto outra vinha em linha reta contra o pelote.

Presencie um strike memorável e, caso estivesse lá dentro, não teria conseguido parar e sair ileso.

E, finalmente, menos visíveis e comentados, foram os pequenos agrupamentos com quatro ou cinco pessoas que entravam nos trechos mais estreitos marcados pelos cones e pedalavam juntos o tempo todo.

Eram menos eficientes que os grandes e fortes, mas mais eficazes se comparados com esses que acabei de descrever. Em teoria, funcionam bem para triatletas medianos no pedal façam tempos muito bons. Agrupavam amigos e pessoas de uma mesma assessoria - o que não significa, vamos deixar bem claro, que todos que estavam com o mesmo uniforme estavam com jogo de equipe.

Os pelotes atrapalham quem está com a cara do vento em pelo menos duas situações: quando somos obrigados a diminuir o ritmo para passarem ou, ao contrário, quando fazemos um esforço maior que o programado para deixá-los para trás.

Só que os pelotes explicam muito pouca coisa do meu desempenho.

A verdade é que estava perdendo o jogo para mim mesmo.

Percebi que não chegaria antes do anoitecer. Tive que repensar a prova que queria fazer e, mais importante, a prova que tinha condições de fazer.

Naquela condição, um tempo abaixo de onze horas seria uma vitória e tanto, embora estivesse desconfiado que correr depois uma maratona seria quase impossível. Os dois Irons do Texas me vieram a mente como um pesadelo porque neles me faltou força para correr. 

No retorno de Canasvieiras o vento arrefeceu e consegui recolocar um pouco a casa em ordem. Fechei para 5:28 e uma cadência média de 62 rpms/minuto.

Na transição me sentei por dois minutos, não senti nenhum sinal de esgotamento e minhas pernas estavam soltas. Comi dois pedaços de bolo com refrigerante e estava na prova novamente.

Fiz os primeiros 21k quilômetros na parte mais difícil da corrida me sentindo forte e com um pace excelente, pouco abaixo de 5 minutos para cada quilômetro.

Gostei demais do novo percurso da maratona. Não sei se é impressão minha, mas ficou menos travado e as subidas e descidas longas são ótimas para um bom ritmo.

Mas a partir do quilômetro 30 comecei a perceber as dificuldades e, faltando apenas seis para terminar, me vi encrencado.

Perdi a passada da corrida e meu joelho começou a doer como nunca tinha doido, sendo que ficava pior quando eu andava nos postos e retomava a corrida. Tentei novamente me concentrar na respiração pausada, acertar o pace de forma decente e não pensar na distância.

Mas a verdade é que eu não tinha trocados para pagar o restante da prova. Correr fraco se tornou algo para a qual eu precisava fazer um esforço tremendo e uma vontade avassaladora de parar não saia da minha cabeça.

E nesse momento lembro perfeitamente do apoio das pessoas que estavam dentro da prova fazendo, elas próprias, uma bela corrida, mas sempre doando uma palavra de incentivo todas as vezes que nos cruzávamos. Cito de cabeça o Guto e o Julio em meio a vários outros que não conseguia identificar porque não tirava os olhos do chão.

Fora da prova, não posso deixar de mencionar o Mauricio Letzow e o Orlando Castilho, que perceberam aquele momento critico e me apoiaram sempre que nos encontrávamos no percurso. Com o meu coach dentro da prova, fiquei amparado por essas duas figuras sensacionais.  Ambos agiram sem olhar a cor da minha camisa e por um estilo de camaradagem que nos lembram valores cada vez mais esquecidos.

Nesse sentido, pensando alto, não deixa de ser curioso com o IM pode ser um evento cheio de contradições. Em certos momentos você está de frente com o tipo mais cru de deslealdade e, em outros, vê gestos de companheirismo e solidariedade que calam fundo na alma da gente.

Já indo para a parte final, algumas pessoas apontavam "apenas" dois quilômetros mas, ainda assim, a vontade de parar era como uma bigorna na minha cabeça. Meu estoque de vontade não existia mais.

Nosso cérebro não tem odômetro e não faz diferença para ele se estamos a 20 quilômetros ou 20 metros do portal. Olhava as luzes que iluminavam a arquibancada ao lado pórtico e pareciam inalcansáveis como as estrelas.

Totalmente atordoado, sem expressar nenhum tipo de comemoração, fechei a maratona para quatro horas e a prova em 10:49.

Um pouco aliviado pelo resultado abaixo de onze horas, mas frustrado por ter feito uma prova tentando amenizar os danos colaterais de uma estratégia equivocada.

Mas é assim. O Ironman é uma prova cheia de armadilhas e cobra muito caro pelos erros.

As vezes fico pensando que, se há toda uma sabedoria convencional disponível para quem vai para sua estréia em um IM, dai para cima o desamparo é geral.

Não importa o número de Irons que uma pessoa tenha, a experiência da prova não se acumula facilmente - quando dizemos que "cada Iron é um Iron", implicitamente assumimos que os eventos passados fornecem um parâmetro fraco para olhar o futuro - corrigimos os erros de um IM para descobrirmos outros no próximo.

Acertamos nossa nutrição para descobrir que temos que ajustar nosso bike fit. Ajustado o bike fit, melhoramos nosso pedal para, em seguida, percebemos que isso de nada adianta se não conseguirmos correr depois de um esforço maior na bike - e quando tudo se encaixa e nos tornamos mais rápidos, temos que mudar novamente a nutrição....

Uma espiral de ajustes que lembra o dilema de resolver um quebra cabeça tridimensional chamado Cubo de Rubik - também conhecido como "cubo mágico". Você tem que montar seis faces alinhando simultâneamente todas as cores de uma vez só.

São 43 252 003 274 489 856 000 combinações possíveis. 

Mas um Ironman não é um jogo de encaixe com uma solução matemática e não há nele nenhum algoritmo que nos aponte a melhor maneira de realizá-lo.

Ele é o resultado de um balanço confuso entre perícia e acaso. Um jogo imperfeito para um cara que não tem como vencer todas as vezes e que busca apenas um dia raro, inesquecível e verdadeiro.

E o sol no horizonte.


terça-feira, 8 de abril de 2014

Long Distance Caiobá 2014

Desde de 2009 sou uma figurinha fácil no Long Distance Caiobá.

O Vinnie já dizia que é o melhor evento do gênero para o check-list final do Ironman e, sendo uma prova relativamente menos desgastante, encurta a recuperação e possibilita o retorno mais rápidos aos treinos.

Dadas todas as mudanças que ocorreram no calendário do triahlon de longa distância esse ano e a realização do 70.3 de Brasília no mesmo dia,  confesso que fiquei um pouco curioso sobre o que aconteceria com o Long Distance Caiobá.

De imediato, o esperado: a prova ficou menor, com cerca de 1/3 dos inscritos na prova da Latin Sports.

Mas quando cheguei na cidade, fui encontrando triatletas que fazem parte um time de peso - Cristiano Santos, Marcelo Penna, Phillphe Gondré, Joachin Doedin, Fernando Cesário e tantos outros, muitos deles com uma parada duríssima nas suas respectivas categorias.

Nesse sentido, o Long Distance pode ter perdido em número participantes, mas em termos de competitividade a prova surpreendeu quem esperava uma fuga dos amadores de ponta para o 70.3 de Brasília.

Outra coisa interessante foi que a prova ficou ainda mais comunitária. Um amigo acostumado ao padrão Latin Sports me perguntava: não tem que deixar a bike na transição um dia antes? Não tem sacola? Não tem marcação? Não tem número na toca?

Não, não tinha nada disso. Tinha apenas uma coisa chamada "triathlon", disse brincando para ele...

Não fui ao congresso técnico e não sei como os atletas foram avisados sobre isso, mas em certos trechos da orla carros e corredores compartilharam o mesmo espaço.

Embora a via fosse apertada, os motoristas me pareceram cuidadosos e aquilo não atrapalhava a corrida.

E não notei reclamações dos atletas e nenhum tipo de estresse.

Alguém explica?

Talvez estejamos acostumados a ver as provas tais como passageiros de cruzeiros marítimos ou de assentos na primeira classe de vôos internacionais, em que você entra em um lugar controlado para se sentir totalmente seguro e ser mimado por mordomias de todo tipo. Achamos que temos direito porque pagamos e pagamos caro.

Seguimos o roteiro desenhado pelas empresas, que não se limitam a nos vender uma infra-estrutura para nadar, pedalar e correr, mas ainda se servem de toda parafernália midiática ligada ao tema "superação" para nos sentirmos dentro de uma aventura - mas talvez elas nada mais façam do que aguçar nossos instintos sanguinários de consumidores de shopping center.

E quando descobrimos que esse ambiente é uma fantasia que só existe no folder da prova, ficamos transtornados. Mas, azar: quem mexe com emoções tem que estar ciente de que os resultados podem ser explosivos.

E como na Internet amor e ódio fluem rapidamente, o estrago é feio.

Obviamente, não estou defendendo o outro extremo, como provas sem fiscalização, piso esburacado, falta de água ou condições mínimas de segurança.

Porque não acho que precisamos ficar entre escolhas extremas.

Na minha opinião, o 70.3 de Brasília de certa forma ajudou o Long Distance de Caiobá, pois redimensionou a prova de Curitiba para o número de atletas que ela realmente pode comportar.

A "pancadaria" na natação se limitou ao retorno da primeira bóia e os pelotões simplesmente sumiram - o que me frustou um pouco, já que não me deram a oportunidade de xingar ninguém. ;-)

Bom, mudando um pouco de assunto...

Em relação ao desempenho, eu não estava muito animado. Tive uma lesão no músculo posterior da coxa duas semanas antes do Internacional de Santos e passei quase um mês sem correr. Fui voltando aos poucos, sem intensidade e aumentando gradativamente o volume a fim de ganhar confiança novamente.

Mesmo curado, estava com aquelas dores musculares típicas de quem passa muito tempo fora de uma atividade e volta a fazer treinos um pouco mais pesados.

Nesse sentido, a prova seria basicamente um treino de luxo para testar o que precisava ser testado para o Iron. E, como sempre, sem polimento.

Com tudo isso mantive minhas expectativas em um patamar realista e me programei com o Rodrigo para fazer uma prova típica de um atleta maduro, consciente e dentro das minhas possibilidades, já que o mais importante é o IM em Floripa.

Isso só da boca para fora, lógico, porque chegando lá a gente esquece tudo isso e dá o que pode e o que não pode para fazer o resultado...

O coach fica doido da vida mano..... ;-)

Mas comecei muito desanimado, porque a minha natação não foi boa - na primeira das duas voltas a correnteza me afastou dos nadadores e sai mais de cem metros longe do pórtico para fazer o primeiro retorno.

Consequentemente, na segunda perna perdi a confiança e fiquei mais preocupado em não perder o rumo do que em nadar - o sol estava exatamente em cima da segunda bóia e nos cegava completamente. Resultado: nadei para 38:19 (com a transição - acho eu....)

Sai para o pedal um pouco desconfiado da minha coxa esquerda, que estava dolorida nos dias anteriores.

Mas sem essas dores, os treinos de intensidade e big gear no rolo, assim como os longos na Ciclovia do Pinheiros,  me deixavam mais confiante para exigir um pouco mais no pedal.

Fechei a bike na casa dos 2:18 e me senti feliz em cima do selim, principalmente pelo torque que os treinos me deram para pedalar contra o vento.

Na corrida, era uma incógnita. Meu objetivo ali era tentar a meia em menos de 2 horas, com um pace entre 5:00 ou 5:30.

Entretanto, quando sai para correr não senti as dores na coxa - mas não abusei. Fiz a primeira volta mais tranquilo correndo naturalmente, sem olhar para o relógio e tentando me sentir relativamente confortável.

O resultado me surpreendeu um pouco, pois fechei para 1:39.

Mas teve um lado negativo também:  minha corrida confortável refletia mais meu receio de sofrer do que as dores musculares.

Esse, por hora, é o meu sinal de alerta para o IM de Florianópolis - estou um pouco assombrado pelo medo de sofrer e não estou sabendo lidar com isso mentalmente.

Bem, ao final, o tempo total foi de 4:37.

Ano passado perdi a premiação do quinto lugar por dois segundos. Esse ano, com 25 minutos a mais de prova, consegui meu primeiro pódio.

Não acredito em justiça ou destino. Mas acho interessante essas ironias.

Foi bacana subir no pódio, principalmente pelo sorriso largo do Marcelo Penna quando me viu lá em cima e apontou pra mim, pela força que o Luciano Focá e o Clodoaldo me deram na corrida enquanto os dois davam um show a parte, e pela farra que o Allan e a turma que estava com ele fizeram quando me viram com o troféu na mão.

Voltei para São Paulo com insolação e cheio das dores. Mas valeu por tudo.

Foi uma reconciliação com uma prova que em anos anteriores envolveu uma disputa desleal na elite e mais ainda entre os amadores que se amontoaram em pelotões. Como esquecer a tensão e todo bate-boca em torno das punições?

Sem esses problemas, foi possível ver Caiobá de outro jeito.

É como se a gente tirasse a maquiagem para descobrir que a prova, mais simples, fica mais bonita - a praia mansa é um achado para se nadar, o pedal é rápido, intenso e belíssimo e a corrida é um vai e vem de amigos que se encorajam mutuamente.

E tudo isso sempre esteve lá, mas por miopia ou vaidade as coisas mais importantes sempre são as mais difíceis de serem reconhecidas.

Tal como me fez lembrar o Allan, que passando por mim com o rosto sofrido, aponta para o céu e diz sorrindo "Bessinha, olha que dia lindo".

Foi lindo....

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

As coisas que morrem....

Um dos problemas ao se escrever durante muito tempo é o receio de se tornar repetitivo. E corremos esse risco quando não mudamos ou não permitimos que a realidade a nossa volta mude.

De certa forma, não há muito a se acrescentar sobre o Internacional de Santos de 2014 que já não tenha sido dito tão bem em outros blogs, fóruns de discussão ou nas páginas das revistas eletrônicas.

O que posso dar é apenas um curto depoimento pessoal.

Entrei na água na terceira bateria e, ao ver uma onda monstruosa se formando na minha frente, pela primeira vez na vida senti medo.

Medo como nunca tive antes.


As fotos das ondas que você viu na Internet não refletem o que aconteceu nos momentos mais críticos no mar.


Mesmo com uma certa experiência em águas abertas, estava apenas alguns graus abaixo da sensação de pânico que vi algumas pessoas experimentarem enquanto eram removidas pelos caiaques.

O Internacional de Santos vive uma agonia.

É uma prova cheia de defeitos, todos facílimos de serem reconhecidos – as distâncias não são padronizadas, a logística falha, a expo é menos que um feirinha e o kit é uma sacola com todo tipo de amostras grátis que ninguém precisa. Os voluntários são mal treinados, o controle do tráfego é precário e a população vê os atletas como intrusos que roubam a tranqüilidade da cidade.


Mas é igualmente fácil  lembrar dos grandes nomes do triathlon mundial que passaram por ali e como consolidou-se ao longo do tempo um evento pela qual uma geração compartilha com outra a experiência do triathlon brasileiro. Ela está cravada em uma cidade que é berço de uma elite competitiva e renovada de talentos, e também de uma turma politizada e bacana de ciclistas e triatletas com profundas raízes no esporte amador paulista.


Sempre digo que a área de transição é um lugar sagrado pela experiência de integração que ela nos proporciona. Você pode ficar feliz pelo número de acessos do seu blog ou pela quantidade de “curtidas” que seus comentários levam no Facebook, mas nada se iguala a repetição de acenos, abraços e atitudes de companheirismo na área de transição de uma prova de triathlon.

E a área de transição do Internacional de Santos é uma experiência única.

Mas a vários anos há um fosso entre as nossas expectativas e a capacidade que a prova tem de realizá-las.  Ao voltarmos lá ano após ano, pagamos o preço de conviver com uma contradição que não pode ser resolvida, pois queremos que nada mude e sabemos que tudo tem que mudar.

Espremida até a última gota por um homem personalista e obtuso que parece viver para destruir a tradição que ele mesmo ajudou a construir, o Internacional é uma prova extemporânea que agoniza em uma cidade que não a deseja mais.


Fico pensando na cena da demolição do Novo Cinema Paradiso, no filme de mesmo nome, quando os personagens que viveram intensamente a experiência daquele cinema em uma pequena cidade da Sicília presenciam, envelhecidos e conformados, as paredes da sala de projeção indo ao chão para darem lugar a um estacionamento.

No domingo o tempo de uma era ruiu sobre si mesmo. Tal como sentiram os moradores daquela pequena cidade italiana, parece que nos resta apenas o cansaço.


E uma dor que não dói.

Porque, de alguma forma, as coisas morrem dentro da gente antes de morrerem por fora.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Porque não me ufano...

Acho que ninguém vai esquecer essas semanas pela de intensa discussão sobre os roubos de bike na USP.

Como é de praxe, o rebuliço foi parar nas redes sociais e teve repercussão na mídia, alcançando os jornais e a televisão em horário nobre.

Ficamos "ali" com os rolezinhos em termos de "assunto da semana".

Mas confesso que fiquei desanimado com o que andei lendo nessas redes.

Porque a gente pedala em grupo, corre junto, nada no mesmo lugar e ficamos todos enfurnados nas mesmas comunidades de discussão do Facebook.

Tudo bacana quando a conversa é triathlon. 

Saiu disso, a gente nota nitidamente que pouca coisa nos une além do esporte.

Quero acreditar que uma parte das pessoas que vão na USP esta preocupada com a questão da segurança, mas sempre dou de cara com uma outra turma, que não é pequena, que coloca a bike em primeiro lugar.

A vida das pessoas? Bem, espera-se que não seja necessário matar ninguém, mas danos colaterais nem sempre são possíveis de evitar...

Do contrário, o que explica a contratação de PMs que fazem bicos para escolta armada dentro da cidade universitária? É possível imaginar um tiroteio na bolinha? Como alguém em sã consciência ameaça a própria vida e a dos outros dentro de um campo universitário?

Acho irônico que, em casos extremos, assaltantes e assaltados sejam grupos idênticos no que há de pior na insensibilidade humana.

Quando ladrões matam pessoas porque estão querendo um relógio é muito comum ouvir "que seres são esses, que se brutalizaram a ponto de matar por coisa tão insignificante????".

Mas o sujeito que coloca uma área em risco por conta da bike é diferente em quê? 

Quando li  "se um policial matasse um sujeito que roubou a minha bike, acho que eu seria agradecido" e ninguém em um fórum de mais de 700 pessoas deu um pio, parei para pensar.

Afinal, que mensagem estamos passando para as pessoas?

Eu não vou na USP para engrossar esse caldo de cultura reacionário de malufista enrustido que vota em cabo da Rota ou vibra quando a policia vem fazer seu show na Cracolândia com gente doente.

Eu tenho cá minhas dificuldades para entender a selvageria que vem da classe média paulistana que adora o discurso "bandido bom é bandido morto".

Primeiro, porque eu não sei em que isso diminui a violência. As pessoas deveriam claramente dizer que não estão interessadas em justiça, mas na busca de uma vingança pessoal.

Segundo, pela raiz cínica nesse discurso.

Se estamos realmente preocupados com a bandidagem, que tal começarmos a discutir se nessa categoria estão incluídos triatletas e ciclistas que andam na bolinha e trazem equipamento de fora sem recolher imposto de importação?

Ou contrabando não conta? 


sábado, 18 de janeiro de 2014

O que os rolezinhos podem nos ensinar....

Nesse sábado, o Daniel Blóis e o Marcello Doretto nos deram ciência de que mais três bikes foram roubadas na USP.

A desfaçatez é tamanha que os rapazes usam motos e passeiam pelo campus sem serem incomodados, até escolherem a melhor vitima.

As relações da USP com a sociedade paulista são um enrosco antigo.

Trata-se de um laço de três pontas.

 A USP se vê na cidade de São Paulo como o Vaticano se vê em Roma.

Um Estado à parte....

A universidade é um dos poucos espaços de lazer na cidade e recebe milhares de cidadãos - cidadãos que a sustentam com impostos. Mesmo assim a comunidade uspiana não se presta a tirar o olho do umbigo para acolher pessoas que lá não estudam com infra-estrutura decente e segurança.

Isso está ligado ao imobilismo da Reitoria e a resistência os alunos, que olham o mundo pela ótica de um  esquerdismo infantil ou temem a PM, dado que é notório que no campus existem redes associadas ao consumo de drogas de consumo casual.

E pelo menos em relação a esse terceiro ponto, ela está certa.

Porque a segunda ponta, a policia de São Paulo, é uma das mais despreparadas, letais e autoritárias do mundo. É uma policia que desperta um sentimento de desconfiança e isso não vem do nada.

A terceira ponta são os atletas.

Antecipando minhas desculpas pela indevida generalização, alguns são patéticos - usam um discurso genérico que vai do "esse pais é uma @#$@&" até o dito "mensalão".

"Mensalão"????????

Me desculpem, a responsabilidade pela Segurança Pública em São Paulo é da alçada de pessoas com nome e endereço e a classe média paulistana, que repete seu voto a vinte anos nesse Estado, não quer assumir que também tem culpa no cartório.

Ai, quando a coisa aperta, parece que a coisa não é com ela.

Podemos discutir se os "rolezinhos" são farra sem seriedade ou um movimento mais consciente da periferia, mas essa meninada dá um nó na classe média paulistana, que se acomodou no sofá para maldizer a corrupção nossa de todos os dias, mas não faz absolutamente nada para se engajar de forma ativa nos problemas da cidade.

Dia 1 de fevereiro o China, figura das mais queridas, está convidando todo mundo para uma manifestação na USP.

Vai ser na Bolinha, as 9:00 da manhã.

Eu vou.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Por um ano novo com menos esperanças....

Talvez você nunca tenha ouvido falar de Neil Pasricha, sujeito que não tem muito jeito para falar em público e não faz parte da trupe de coachs de autojuda, gurus empresariais, neurocientistas, psicológos ou economistas comportamentais que se tornaram palestristas ultra carismáticos que dão as caras na Internet todo dia.

Criado no Canadá e filho de imigrantes, depois de uma trajetória como a de qualquer pessoa e um período de grande felicidade, sua vida mergulhava no cadafalso de um dia escuro que não parecia ter fim.

Em um breve lapso de tempo perdeu a esposa em um divórcio que ele não desejava e seu melhor amigo desapareceu da sua vida em razão de uma depressão fatal. Fora isso, foi apanhado no contrapé da crise econômica que viria a tomar os EUA nos anos seguintes.

Educados que somos em uma bolha de consumo superficial e vazia, quando a vida joga um tsunami no nosso colo a desorientação é tamanha que não acertamos o passo na rua.

Mas Neil Pasricha teve uma idéia simples e despretensiosa para lidar com um período de dificuldades.

Ao invés de ficar fazendo força para ter assunto no whatsapp ou descarregar no Instagram aquela "foto sensacional" do inseto que posou no parabrisa, ele percebeu que poderia compartilhar experiências sobre pequenas alegrias pela Internet, muitas delas que aprendera a valorizar a partir do olhar dos seus pais quando esses, muito pobres, se viram acolhidos em uma sociedade afluente.

Criou um blog sobre as coisas que nos deixam felizes quando não estamos pensando em ser felizes. 

Chama-se 1000 Awesome Things.   

Lendo cada post não há como não se por a pensar se não há uma contradição na nossa forma de viver.

Nosso dia a dia é um tecido de tarefas e pequenos hábitos, como fazer a barba, ir na padaria, levar os filhos na escola, ficar no trânsito, marcar consulta no dentista, trabalhar, ir para a faculdade, passar no mercado, levar a bike na oficina, corrigir provas, colocar gasolina no carro, preencher documentos, pagar as contas, ir em reuniões escolares, escrever emails...

Enquanto isso, aguardamos por algo extraordinário na vida e depositamos todas as nossas fichas em desejos pelas quais estamos separados pelo tempo.

Esse desejo se chama "esperança".

No afã dos grandes sonhos, trocamos o quinhão raro da vida no presente pelo que nos aguarda no futuro - e, na esperança de viver, não vivemos.

Obviamente, bem sei eu, não podemos abrir mão das nossas expectativas, de olhar para frente e mirar algo que seja fonte de crescimento e autorealização.

O problema é quando esquecemos todo o resto.

E "todo o resto" é justamente a nossa vida.

E, como diz o sujeito do video abaixo, "a pessoa que não pode viver significativamente hoje, não pode levar uma vida brilhante amanhã."

Assim, não se trata de se abdicar uma coisa pela outra, mas de "esperarmos" um pouco menos e abraçamos o presente um pouco mais.

Com contribuições milhares de pessoas, Neil Pasricha descortinou uma janela para um lado da vida onde não parecia ter nada para olhar.

Coisas que nos deixam felizes sem esforço e espera, como  achar o lado mais frio do travesseiro para dormir, passar o dedo no copo de vitamina, raspar o tacho de creme na panela que foi usada para fazer o recheio do bolo, ganhar uns brigadeiros porque teve aniversário e sua tia não esqueceu de você, encontrar um pedaço de torta de banana esquecido na geladeira...

Dirigir na cidade vazia, ir passando uma longa fila de semáforos que vão se abrindo sem você colocar o pé no freio,  sintonizar uma música que te faz esquecer o trânsito, ouvir rock nas alturas e espancar o ar como se fosse o baterista, evitar um congestionamento ou chegar em casa dois segundos antes do temporal desabar...

Ver o sol nascer no selim da bike, fazer uma descida em curva perfeita, começar a correr de madrugada, encontrar a raia que você gosta de nadar vazia, sentar em uma sombra no final do treino, ir para a academia tarde da noite e, do nada, aparecer aquela gata para ficar na esteira do seu lado ou ver que sobrou o tênis que a gente queria no estoque da loja e o danado ainda tá com desconto...

Fazer um amigo rir e de susto espirrar refrigerante pelo nariz, girar com a sobrinha no colo para ver quem fica mais tonto (digo, já: sou imbatível) e certas esquisitices que talvez não compartilhe com ninguém, tal como ficar perto da panela para sentir o vapor do leite esquentando o rosto ou caminhar pelas ruas a noite com o chão molhado depois da chuva...

Não fossem apenas momentos em que parece que nada nos falta, a natureza dos pequenos prazeres também fala alto sobre quem somos, de onde viemos e o que precisamos para viver.

Minha lista é um exemplo do apego de uma criança que não desistiu de mim. Ela anda comigo em pleno meio-dia, se surpreende quando vê algo novo, não chega perto de roda-gigante e sorri quando lhe dou alguma coisa que não pôde ter quando antes só existia ela.

Em troca, não me pede esperança e nem me cobra pelo futuro - apenas que a gente não perca a espontaneidade por medo ou vergonha de sermos nós mesmos.

Feliz 2014...


segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

100 x 100

Quando eu ainda treinava com o Vinnie, uma vez ele me escreveu dizendo que todo final de ano os triatletas deveriam celebrar.

Celebrar significa fazer algo desafiador,  mas ao mesmo tempo prazeiroso, aproveitando o que foi agregado durante meses e meses de treinamento para o aprimoramento da nossa condição física.

Na última vez que fiz a São Silvestre, resolvi correr pela manhã a metragem necessária para completar uma maratona em uma dia. Dividia o esforço em duas partes e ainda correria com os amigos.

Fiquei com vontade de pedalar esse ano. Achar uma estrada bacana no Interior de São Paulo e fazer um "Audax" de 300k.

Só que, depois de quatro horas na Anchieta para percorrer quinze quilômetros de carro, fiquei traumatizado com essa coisa de pegar a estrada perto de feriado.

Por quê não esse desafio de 100 x 100 na piscina?

Do lado de casa, não dependia de carro...

E me julgava mais preparado do que para correr, por exemplo, já que antes do Dash eu estava com um volume alto, de 3 mil, e nadando todos os dias...

O problema é que eu não sabia como me arriscar nesse treino. Pensei em escrever para o Rodrigo, mas ai vai que ele "cê tá doido....".

Agora, como é a vida: e não é que ele fez a mesma coisa para comemorar o aniversário dois dias antes!!!!!!

Bom, joguei a idéia no Ironbrothers para alguém me dar uma luz e choveu post sobre o assunto.

Esse grupo é demais, nossa...

E foi lá que pesquei os parâmetros básicos, que vieram da Ana Lidia e o Marcos Faria,  já que eram os únicos que tinham feito esse desafio - aliás, o Marcos também dois dias antes do meu, e contou como foi.

A única coisa que não dava para pegar emprestado eram os parâmetros de tempo, já que esses dois são de outro planeta....

Achei mais razoável a sugestão do Marlus, que se fizesse esse treino, sairia a cada dois minutos.

Eu poderia nadar 1:45 e descansar 15 a cada 100.

Pensei "é isso!"

Nesse ritmo, seriam de 3:20 de água se tudo desse tudo certo.

Ajustei os alarmes do relógio para não me preocupar com contagem, coloquei três caraminholas e três sachês de gel na borda da piscina e às 10:10 comecei o desafio.

Até os cinco mil, estava tudo certo e conseguia manter a média sem forçar o sistema aeróbio. O ritmo era algo entre moderado e forte ou, como se queira, "ritmado".

Os braços estavam em ordem e não me via mentalmente cansado.

Mas a partir desse ponto comecei a ter problemas. A média subiu para 1:50 e progressivamente fui perdendo desempenho: 1:51, 1:53, 1:54....

Exatamente na marca dos 6.300 metros meu tempo batia a casa dos dois minutos - nadar direto não era a idéia e nem em sonho eu conseguiria.

A fim de dar um tempo para os braços, mudei de estilo. Puxei 700 metros, alternando costas e peito a cada 100.

Com os braços momentaneamente descansados, voltei a nadar Craw para 1:45 e feliz da vida.

Mas em 7.900 de novo bati na casa dos dois minutos. Os braços não estavam mais ajudando. Tentei nadar com flutuador. Nada. Colocar o palmar, então, nem pensar!

Lembrei do Marcos Faria falando sobre o pé de pato (embora eu, burro, devesse tê-lo usado antes dos meus braços ficarem fatigados, assim como ele fez).

Coloquei e achei que facilitaria muito, mas não foi bem assim - consegui voltar para  casa dos 1:50, saindo a cada 2 minutos.

Quando atingi 8.500 meus braços estava quase dormentes. Voltei para costas e peito. Mais quinhentos.

Ai, finalmente, eram apenas mil metros. Coloquei o pé de pato e fui...

Mas, nos 9.400 o "professor" que estava na piscina avisou que teria que sair porque o horário já tinha dado e eu não poderia ficar nadando sozinho.

Como atrasei um pouco e tive que nadar fora da casa dos dois minutos quando fazia costas e peito, eu realmente tinha extrapolado o planejado.

Tentei explicar o treino, pedi "pelo amor de Deus", mas sabe aqueles garotos que fazem educação física e não tem noção  do que é o esporte?

Pois é...

Ele me disse que não, que não, que não...

Que era Natal (mesmo faltando quatro dias), que também entendia já que ele "também treina e fica chateado quando não faz a planilha" (acho que ouvir isso foi o pior!) e que, enfim, não dava...

Eu sou sempre certinho, mas como é que eu iria deixar de completar?

Falei para ele avisar na portaria que não ia sair e que a responsabilidade era minha.

Ele foi embora e, bem, eu teria que apertar o passo e comecei a nadar direto.

Nem preciso descrever a dor...

Faltando 200 metros, chega o pessoal da portaria e fica discutindo para eu sair. Todos, diga-se, formandos em educação física....

Expliquei, pedi, implorei, disse que estava errado, que poderiam me multar...

É inacreditável como as pessoas são. O tempo que passei discutindo era suficiente para terminar o treino!!!

Não queriam me dar cinco minutos!

Argumentei se a academia tivesse problemas, se eu agisse da forma como eles estavam agindo comigo, quando as privadas ficassem entupidas teriam que resolver o problema "na hora".

Obviamente nem sei se aquelas privadas ficam entupidas, mas foi a primeira coisa que me veio a cabeça....

Dado que o negócio não se resolvia, virei as costas e sai nadando e o povo correndo na borda da piscina acenando para eu sair.

Meu, eu mereço? Não, fala....

Não foi a forma mais bacana de se completar um desafio desses, mas valeu a pena...

Para quem quiser, recomendo, pois não acho que estamos falando daquelas loucuras que as pessoas fazem a título da pavonice.

Há boas lições para se tirar de um treino desses.

Pra começar, subestimei a parte física do desafio quando achei que o problema de fundo seria mental.

É mental também, claro! Mas não é necessariamente o mais importante - o que pega, mesmo, é o braço.

Como iria fazer um tempo mais alto nas parciais, achei que conseguiria nadar craw o tempo todo.

É aquela coisa "se não vou sair para 1:50, pelo menos vou nadar tudo em um só estilo..."

Mal comparando, é aquele pensamento "não bato o recorde mundial, mas não ando na maratona".

Deveria ter feito como a Ana e o Marcos indicaram, ou seja, ter revezado os estilos e nadado com o pé de pato em alguns ciclos de mil metros para descansar os braços.

Fui fazer isso quando já estava quebrado...

Por isso, é bom repetir sempre, o problema não é a dificuldade física ou mental.

É o ego...

É numa dessas que me vejo tentado a mudar o nome do Blog para "Burro a Bessa", sabe? ;-)

Há pelo menos três coisas bacanas que servem de aprendizado.

Em primeiro lugar, ele agrega horas na piscina e você precisa lidar com a sua resistência mental como poucas vezes é possível nos treinos regulares.

Em segundo, como todos sabemos, nadar cansado é um aprendizado duro, mas que todo triatleta deve ter. O desafio é manter a técnica mesmo quando os braços estão exaustos - tal qual os atiradores de elite, que devem ser precisos depois de horas e horas de concentração e foco.

O terceiro é que você vai aprendendo a ser raçudo.

O treino não foi como planejado? Não vai sair tudo bonitinho?

Fio, se vira! Nada de costas, nada de peito, cachorrinho, pega o pé de pato, volta para o craw e não desiste!

Luta!

No final, vale a pena. Sempre vale...

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Ten Bucks....

Nos intervalos da minha cisma rabugenta com as coisas pouco úteis das redes sociais, algumas experiências me fazem pensar que as vezes a bobeada é minha.

Algumas coisas não explodem em cores vivas ou palavras bonitas, mas podem guardar tesouros, tais como os despretenciosos detalhes da foto de uma amiga, professora universitária, e sua turma de faculdade.

A despeito da visão romântica sobre os "professores", eu não compartilho do princípio de que se trata uma profissão diferenciada, tal com os cansativos bordões do feicêbuque que elevam esses profissionais a categoria de santos, deuses ou coisa parecida.

Como aprendi na prática, "dar aulas" é coisa completamente diferente de "ensinar" e existem muitos por ai que estão na carreira docente sem a mínima vocação para isso. Frequentam as salas de aula porque não acharam nada melhor para fazer na vida, enquanto outros (e são muitos) se tornam cúmplices de uma indústria de atestados médicos que opera da mesma forma que o crime organizado.

Portanto, não tenho paciência com aquela sabedoria empacotada de supermercado do tipo  "o único profissional que não precisa se curvar na frente do imperador do Japão...blá-blá-blá" .

Aliás, só em uma sociedade deseducada um texto desse circula tanto, já que essa informação não tem fundamento algum.
 
Por outro lado, há um tipo de gente muito especial, como aquelas que conseguiram ascender socialmente e, ao invés de continuar com a sua vidas em profissões em que poderiam ganhar mais, se voltam e estendem a mão para que outras pessoas também possam fazer essa escalada. Não se preocupam com o anonimato porque têm consciência de uma missão de vida e são capazes de tirar uma extraordinária felicidade dessa entrega.

E essas pessoas são portadoras de algo que muitos almejam, mas poucos podem ter.

Um dia, em uma reunião de trabalho, um antigo professor da Unicamp me dizia quando puxamos uma conversa de lado na hora do café, "Você sabe porque os milionários investem em ONGs, Fundações e projetos sociais? Porque não há dinheiro no mundo que impeça o que eles mais temem: serem esquecidos."

Minha amiga não precisa ter medo ser esquecida.

Alinhados com ela 47 pessoas que faziam parte da turma de administração que se formariam dois anos mais tarde. Todos egressos de um programa de bolsas para o ensino superior, na qual prestavam serviços de monitoramento em escolas pública como contrapartida do financiamento para os estudos.

Ao acaso das baixas probalidades estatísticas que dizem que os mais pobres tem poucas chances de  alcançar a faculdade, muitos ali frequentaram o curso noturno para serem os primeiros de gerações familiares inteiras a terem um diploma universitário. E o que eles conquistarão aumentará a chance de uma vida melhor para seus filhos e para os filhos dos seus filhos.

Mas não são aulas fáceis, principalmente para salas grandes que aglomeram entre 40 e 60 alunos exaustos física e mentalmente. Não  há turmas homogêneas e muitos não mostram comprometimento espontâneo.

Você pode achar uma inversão de valores, já que se pressupõe que o interesse em aprender é dos alunos.

Mas quem está lá na frente sabe que isso faz parte do trabalho.

Trabalhar em sala de aula não implica apenas em didatismo e domínio do conteúdo, mas uma enérgica aplicação de esforço físico.

Os professores reagem inconscientemente a leitura dos sinais que tiram dos rostos cansados e se viram como podem - são teatrais, dramáticos, um pouco palhaços, um pouco sérios e circulam intensamente dançando entre as carteiras.

E você não tem idéia da força necessária levantar uma classe de estudantes.

Um dos memoráveis capítulos do repassado, E.R. James Woods interpreta um exagerado professor de bioquímica em uma faculdade de medicina.

Sua aula é uma demonstração do que significa o entralaçamento da mente e do corpo na arte de ensinar. Ele se impõe por um rico repertório de gestos para mostrar as complexas amarras conceituais que nos permitem entender como interagem as moléculas fundamentais que sustentam a vida.

Ele mostra paixão.

Até que a personagem de Maura Tierney, a Abby Lockhart, lhe procura para cancelar a matricula do curso e desistir.

Alguém experiente que está de costas para o quadro negro entende que há mais coisas em jogo do que a nota final.

Pergunta ele....

"Você gosta de triatlon?"

Ops, ato falho... ; -)

"Você gosta de esportes? Patinação? Dançar? Todo mundo gosta de dançar"

Ele a rodopia com um charme desinteressado, ao mesmo tempo que lhe mostra a diferença entre decorar as coisas e pensar conceitualmente.

Mas não dá certo. Ela é muito prática e pessoas práticas se impacientam com metáforas.

Ele lhe faz uma proposta. Ele chega mais cedo na faculdade e ela pode procurá-lo.

Em três semanas, garante... ou, melhor "aposta ele", ela estará pronta para passar no exame.

"Ten Bucks"

Ela não se dá por vencida

"Gostaria de ter a sua confiança" ela diz.

Ele, "Eu tenho. Não desista".

E complementa....

"Não fosse só isso, vou lhe ensinar a lutar".

É a lição que ela lhe recorda quando ele está em uma cadeira de rodas disposto desisitir da vida.

Essa cena é inesquecível.

Ela fala sobre a importância das pontes de confiança. As vezes temos a sorte de encontrar pessoas com o dom da coragem recíproca, aquelas que, tal como no verso da poetisa Hannah Kahn, são capazes de dizer "me dê a sua mão que eu caminharei na luz da sua fé em mim".




terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Papo de Besteira

Não faz muito tempo, me vi enroscado em uma discussão sobre um texto que fiz e que algumas pessoas reconheceram na escrita de outra pessoa.

A principio, reagi mal. Eu tenho uma verve portuguesa daquelas, mas sempre que me vejo em arranca rabos o momento seguinte é de arrependimento.

Não pela pessoa, que realmente fazia por merecer as tamancadas.

Mas quem está no entorno, não. Lavar roupa suja em público é agressivo e ofende quem não gosta de bate-boca. Em fóruns de amigos, aprendi que quebra-pau é um constrangimento desnecessário.

Adotei uma atitude mais civilizada e escrevi uma reclamação para o site que hospeda os textos. A primeira resposta foi burocrática, típica das empresas que falam em atendimento preferencial e colocam um telemarketing na frente para dizer a falha não é dela, mas da terceirizada.

Insisti um pouco mais. O editor foi mais atencioso e disse acreditar tratar-se de uma coincidência - portanto, parentenses, implicitamente ele reconhecia a similaridade - fecha parênteses.

Além do que não seria possível provar nada, já que a própria autora negara tudo.

Coisa assim, "vamos acreditar que se trata de uma confusão".

De fato, não é uma questão simples. A cópia não é "corte e cola".

O que essa gente faz é pegar as referências do texto, montar um arranjo diferente e depois colocar uma conclusão.

Mas como os textos guardam o DNA dos autores, quando alguém lê segue-se aquela dúvida: "Onde foi que eu já li isso mesmo?".

Trata-se de uma luta perdida, pois é dificílimo comprovar algo no momento em que tudo na Internet é público e suscetível a interpretações.

Bem, percebendo um atitude mais sincera do editor, resolvi dar um voto de confiança e acreditei que a coisa não se repetiria.

Mas se repetiu.

Pedi um opinião sobre a descrição que fiz do 70.3 de Vegas, especificamente a segunda parte, e o texto da "blogueira" que comenta porque os triatletas fogem de provas dificeis.

De cinco, apenas um disse que a cópia seria questionável.

Escrevi novamente para o editor.

E a resposta, nenhuma.

Até certo tempo atrás, blogs eram manifestações espontâneas de pessoas que apenas queriam fazer relatos despretenciosos com cara de diário sobre treinos e provas ou eram movidos pela compulsão em escrever sobre o que lhes desse na telha.

Posteriormente, alguns atletas tentaram fazer seus blogs como forma de comunicação e espaço para marcas de apoio - poucos deram certo e, com o aparecimento das "Fan Pages" do Facebook, a coisa foi por outro caminho.

Mais recentemente, apareceu uma categoria nova no pedaço, a dos "blogueiros profissionais".

Há coisas bacanas e coisas não tão bacanas.

Enquanto alguns tem seu público por uma questão de carisma, identidade e uma mensagem consistente, outros são selfies que vêem as redes como uma vitrine comercial para aproveitar as oportunidades que estão ai.

Entretanto, como não tem experiência ou conteúdo, abusam de textos copiados ou se apóiam em uma pauta superficial que lembra bastante os programas domésticos de aconselhamento feminino, com posts que têm a profundidade de um pires: "você faz triathlon e seu namorado não te apóia?" ou "você se sente mal trocando a balada por treinos?".

Infelizmente, qualquer coisa hoje tem leitores na Internet.

As vezes alguém diz:

"Hoje treinei com o cabelo molhado"

334.456.456 curtidas.

"Tenho uma familia linda, todos me apóiam e só tenho a agradecer".

345.456.455.346.495.450.765.941 curtidas

"Ele é lindo, me compreende e está sempre ao meu lado nos momentos mais difíceis" ( acompanha foto do cachorro)

10 983.454.546.657.578.094.645.238.623.089.303.856.453.456.054.592.323

Como essa audiência esses selfies oferecerem a sua rede de contatos como moeda de troca para angariar "apoios" de lojas e marcas.

Depois entopem o Facebook e o Instagram com fotos que lembram os quadros de Picasso, nas quais posam como modelos ao lado de potes de suplementos e marcas de roupa.

Alguns sites que têm patrocinios de lojas on line aproveitam a onda e dão espaço esse tipo de blogueiro como uma forma de obter conteúdo gratuíto.

O resultado dessa associação de interesses é que, a cada click no texto, como mágica aparecem suplementos no armário de um e reais no bolso do outro.

Dentro do "modelo de negócio", nada ai é ilegítimo.

Agora, alguém me perguntou se eu quero contribuir com a terceirizada?

Não tenho e nunca pedi "apoio" a ninguém. Não compartilho marcas de suplementos, você não me vê comentando sobre material esportivo, não faço propaganda da minha assessoria, não falo sobre lojas e não quero necas de desconto em oficina para ter a obrigação de falar de alguma.

Não recebo brindes, amostras grátis ou uniforme de confecções. Mesmo escrevendo no site do MundoTri, compro a Revista como qualquer outro outro.

Sabe por quê? Porque sou um amador sem nada de especial e acho piada montar um currículo de resultados sem resultado nenhum.

Se falarmos em "formador de opinião", ai a coisa é pior ainda, já que sou um fracasso até para convencer a minha sobrinha que ela tem que estudar inglês.

O Blog é apenas um passatempo para noites de insônia ou uma linha de diálogo com os participantes do maior grupo de amigos do triathlon brasileiro, o Três Meios.

A exceção do Edú, todos os outros são imaginários.... ;-)

Portanto, não é um campeão do Ibope, mas tem alguns leitores cativos (minha mãe lê sempre, eu acho) e desde de cedo decidi que não montaria um bazar de amigos para vender tapawer.

Se estamos entrando no mundo das "webcelebridades" em que pessoas que escrevem na internet têm mais benefícios que atletas (amadores ou profissionais) com uma lista de serviços prestados pra mostrar, então alguma coisa está errada.

Muito errada.