quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Treino preferido

"O sertão é dentro da gente. E esse sertão não é feito apenas de aridez e provocação, mas também de veredas, de estações de alívio e beleza em meio à solidão."

Guimarães Rosa


O Kiko viu em uma entrevista da Vanessa Gianinni na Trisport e lá pelas tantas a ela é perguntado sobre "treino favorito".

Inspirado nessa pergunta, resolveu contar sobre o dele no seu Blog.

Vou puxar esse fio porque ele, ao se referir ao filme "127 Hours", fala sobre a solidão.

Eu tenho umas esquisitices pois, em um meio em que a maioria das pessoas curte treinar em grupo, gosto mesmo é de ficar só.

Porque uma das coisas complicadas de quem mora sozinho é achar um tempo para ficar realmente sozinho.

"Sozinho com o sozinho"

Não, você não entendeu mal. Na era da hiper-super-mega conexão você nunca está realmente só.

Antes, você comprava um "telefone". Agora tudo é "ACESSO". Você olha as pessoas em lugares públicos quase em estado hipnótico, digitando para uma rede em que na outra ponta está alguém que por sua vez está escrevendo para outra pessoa em um circuito infernal de MSNs.

Por isso, meu treino preferido não tem grandes paisagens ou acontece em lugares bacanas. Meu treino preferido é um ir e vir no meu bairro para ir nadar, onde resolvo minhas inquietações (ou crio outras).

Um dia o Xampa se perguntava como as pessoas conseguem realizar certas tarefas para um Ironman, tal como passar seis horas em uma bike.

No meu caso, acho que não seria totalmente errado responder que os esportes de endurance, mesmo quando extenuantes fisica e mentalmente, fazem parte do rol de fatores que me ajudam trabalhar melhor com a ansiedade.

Tenho uma dificuldade enorme para achar um certo equilíbrio em meio a tantas coisas pessoais e profissionais ocorrendo ao mesmo tempo. Por me comprometer demais, as vezes me sinto como aquele sujeito que equilibra prato chinês: coloco vários deles girando em cima de varas, umas muito distantes das outras, e depois fico correndo de um lado para outro para que não caiam.

Mas quando estou realmente sozinho parece que os pratos giram muito lentamente e, como em um sonho, posso andar entre eles sem precisar tocá-los.

As vezes aproveito para derrubar alguns, porque o motivo que me faz girá-los nem existe mais.

Levanto cedo, as 4:30 da manhã, para ir nadar três vezes por semana. Tomo uns birinights (essa mania de falar giria da terceira idade não me deixa!) e uma banana com mel.

A academia abre as seis. Então volto para a cama e como a manhã é o meu melhor período de concentração, pego aleatóriamente algo para ler, mas invariavelmente uma história inspiradora nos esportes de endurance ou uma das várias revistas de triathlon que tenho guardadas para revisitar.

São 45 minutos em que penso simplesmente no que estou lendo, da forma mais despretensiosa possível. Não tenho que fazer uma resenha, anotar nada e muito menos polemizar.

Depois, levanto, visto tudo muito rapidamente e vou para a academia nadar. São mais ou menos 20 minutos de caminhada e escolho o percurso mais demorado de forma proposital - gosto apenas de ir caminhando...

O céu escuro vai ficando azul. O ar da respiração fica visível ao se condensar. Algumas poucas pessoas estão correndo no canteiro central da Brás Leme e outras vão com passadas rápidas para o trabalho. Tem o pessoal do ponto de ônibus, tem o pessoal que fica no posto de gasolina.

Chego na academia, brinco com o rapaz que guarda o material no vestiário e vou para a piscina. As vezes, sou o primeiro a chegar. Fico de pé na borda e fico feliz só de ver a sala com uma espécie de névoa e o vapor cobrindo a água quente.

Entro devagar na água, dou as primeiras braçadas. Nado fácil, descansado. Depois vou despertando na água quase morna...

Para mim, é como um lago no topo do mundo.

Um comentário:

Xampa disse...

Tb curto os treinos solitarios. Prefiro.
Acho um saco ter que combinar coisas, com filho é meio complicado, pq o cara pode acordar as 6 da matina e estar super-afim de jogar bola na varanda e aí babou geral.
Fora que me sinto mais livre. Sei lá, curto mais.

Cara, esse negócio das seis hrs é muito mais do que apenas eu. Tem mais a ver com a familia. Acho complicado com um filho de 4 anos ficar na estrada (o que nao curto) fazendo um treino de 6 hrs. Acho egoismo ao extremo. Não tem essa de equilibrio. Não vem que não tem. A conta nao fecha.

Fora, que ando de saco cheio de nego fazer triathlon para criar problema. Quer fazer, faça, divirta-se, curta, viva o stress do corpo e da alma. Mas, lide com isso sozinho e sem valorizar. A escolha é de cada um.

E tb não aguento mais esse papo de estilo de vida. Tudo é estilo de vida. Tudo. Então pronto. É apenas outro.

To meio de sacao, sabe? Deve ser a gravidez e a realidade de coisas mais significativas na vida. Por ex: o obstetra que fez o parto do meu primeiro filho (Biel) vai fazer o parte do segundo(Julia). No começo da profissão, o cara fez parto de cachorro para ganhar dinheiro. CARA !!!! PQP !!!! E nego se valorizando porque inventou de fazer um esporte e pedalar 6 hrs no sábado. CARALHO !!! O cara inventou essa porra, lide com isso e nao enche o meu saco.

É isso. Já falei até demais.

ABS !!!!!