segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Devagar também é pressa


Quando você vai acumulando provas de Ironman na sua vida, dificilmente projeta um resultado que não seja um tempo menor ou um lugar melhor na categoria.

Quase ninguém cogita apenas terminar mais um. Parece que uma vez que deixamos para trás nosso batismo de fogo e nos mostramos capazes de dar conta da distância, nosso objetivo dai para frente é seguir subindo uma escada.

Porque, de certa forma, avaliamos que uma vez que tiramos o brevê do primeiro Ironman, estamos aptos para qualquer outro.

Podemos incrementar uma coisa aqui, outra ali para dar conta da especificidade de uma prova, mas de maneira geral, pode mandar que a gente mata a bola no peito e põe na rede sem deixar ela cair.

A partir da minha segunda participação no IM do Texas, essa visão de boleiro ficou totalmente zicada.

Para muitos que estão melhorando sua performance ao longo do tempo, pode ser frustrante, mas há certas provas que nos jogam para um nível de dificuldade que pensávamos ter superado a muito tempo.

No fundo, todos nós temos a tendência de super estimarmos nossas potencialidades e sermos mais otimistas do que a realidade permite - a única diferença é que existem pessoas discretas e outras com facebook. ;-)

E, entre os mais calejados, isso pode ser ainda mais acentuado, pois a experiência de várias provas e o acúmulo de anos de treinos nos dão ainda mais confiança.

Consequentemente, não vemos as cascas de banana que se espalham pelo caminho de uma prova complexa, tal como será o Ironman Fortaleza.

E eu não sei muito bem como tirá-las da frente, pois no meu caso a dita "experiência" parece um catálogo de erros em que sempre cabe mais um.

Mas o que é mais evidente para mim é que qualquer coisa que possa lhe dar minutos de desempenho carrega em si a possibilidade de tirar horas do seu resultado final.

Por exemplo,  é preciso muita conta para saber quantos minutos um capacete aero pode economizar no cômputo geral, mas nem precisa pensar muito para saber o tamanho do rombo que ele vai deixar na sua prova se ele não te ajudar a regular a temperatura do corpo. 

Outra coisa é o ritmo. Para a maioria, a prova será muito lenta e sofrida, sendo que será necessário se conformar com um pace próximo ou mesmo acima de 6:30 min/Km.

Pode parecer pouco, mas uma cadência de corrida mais lenta e constante traz resultado melhor do que fazer a prova com ritmo de voo de galinha, com longos períodos andando e tentativas frustradas de retomar a corrida.

Quando as condições do clima são muito duras, a melhor estratégia é fazer a prova de forma muito contida, programar paradas bem pensadas e tentar minimizar os efeitos negativos do calor.

Nesse sentido, seu desempenho será tanto melhor quanto menor forem as pausas por quebra ao longo do dia.

E seja qual for o resultado, não se puna.

Existem certas coisas para as quais não existe preparação. Em 2013 no IM do Texas a sensação térmica  de 42 ºC bateu forte na maratona e tirou a possibilidade de centenas de triatletas, treinados ou não, terem sua chance na corrida.

Não havia sequer Plano B.

Tudo que tinhamos era uma multidão nos empurrando com um incansável "keep going".

É difícil aceitar. Passada a prova, muitos ainda ficarão se torturando, pensando no que fizeram de errado, mas na verdade não havia nada de errado porque nada poderia ser feito.

Caso você consiga moderar seus impulsos, adequar seu esforço em meio a expectativas realistas e aceitar o que o melhor possível também é medida de desempenho, certamente já terá dado um passo gigantesco para ter sucesso na prova.

Boa sorte a todos!!!!

3 comentários:

Rafael Pina Pereira disse...

Cara, bem isso ! Maior retorno, maior risco :-)

"Mas o que é mais evidente para mim é que qualquer coisa que possa lhe dar minutos de desempenho carrega em si a possibilidade de tirar horas do seu resultado final.
"

Acertou no ponto: faça o melhor possível no dia que o sucesso está garantido !

Boa prova !!!

Abraço

3 ATHLON NA VEIA disse...

Perfeito, Vagner.
Já concluí isso há um certo tempo. O difícil é achar o ritmo ideal a ser aplicado "naquela prova". Talvez a experiência um dia me aponte isso, mas ainda não consegui. Já terminei provas longas me arrastando por ter me excedido assim como terminei outras (bem poucas, talvez uma...rsrsrs) com a sensação de que poderia ter apertado mais a porca.

Deise jancar disse...

Vagner

Que o texto sirva de carapuça para tantos afobados e que se comportam como superiores.

É muito difícil alguem retratar as dificuldades e a performance não alcançada/ desejada. Muitos se envergonham ate mesmo de voltar à esse TRIMUNDO , apos um excelente resultado.

O dia de prova é uma festa surpresa.