quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Por um ano novo com menos esperanças....

Talvez você nunca tenha ouvido falar de Neil Pasricha, sujeito que não tem muito jeito para falar em público e não faz parte da trupe de coachs de autojuda, gurus empresariais, neurocientistas, psicológos ou economistas comportamentais que se tornaram palestristas ultra carismáticos que dão as caras na Internet todo dia.

Criado no Canadá e filho de imigrantes, depois de uma trajetória como a de qualquer pessoa e um período de grande felicidade, sua vida mergulhava no cadafalso de um dia escuro que não parecia ter fim.

Em um breve lapso de tempo perdeu a esposa em um divórcio que ele não desejava e seu melhor amigo desapareceu da sua vida em razão de uma depressão fatal. Fora isso, foi apanhado no contrapé da crise econômica que viria a tomar os EUA nos anos seguintes.

Educados que somos em uma bolha de consumo superficial e vazia, quando a vida joga um tsunami no nosso colo a desorientação é tamanha que não acertamos o passo na rua.

Mas Neil Pasricha teve uma idéia simples e despretensiosa para lidar com um período de dificuldades.

Ao invés de ficar fazendo força para ter assunto no whatsapp ou descarregar no Instagram aquela "foto sensacional" do inseto que posou no parabrisa, ele percebeu que poderia compartilhar experiências sobre pequenas alegrias pela Internet, muitas delas que aprendera a valorizar a partir do olhar dos seus pais quando esses, muito pobres, se viram acolhidos em uma sociedade afluente.

Criou um blog sobre as coisas que nos deixam felizes quando não estamos pensando em ser felizes. 

Chama-se 1000 Awesome Things.   

Lendo cada post não há como não se por a pensar se não há uma contradição na nossa forma de viver.

Nosso dia a dia é um tecido de tarefas e pequenos hábitos, como fazer a barba, ir na padaria, levar os filhos na escola, ficar no trânsito, marcar consulta no dentista, trabalhar, ir para a faculdade, passar no mercado, levar a bike na oficina, corrigir provas, colocar gasolina no carro, preencher documentos, pagar as contas, ir em reuniões escolares, escrever emails...

Enquanto isso, aguardamos por algo extraordinário na vida e depositamos todas as nossas fichas em desejos pelas quais estamos separados pelo tempo.

Esse desejo se chama "esperança".

No afã dos grandes sonhos, trocamos o quinhão raro da vida no presente pelo que nos aguarda no futuro - e, na esperança de viver, não vivemos.

Obviamente, bem sei eu, não podemos abrir mão das nossas expectativas, de olhar para frente e mirar algo que seja fonte de crescimento e autorealização.

O problema é quando esquecemos todo o resto.

E "todo o resto" é justamente a nossa vida.

E, como diz o sujeito do video abaixo, "a pessoa que não pode viver significativamente hoje, não pode levar uma vida brilhante amanhã."

Assim, não se trata de se abdicar uma coisa pela outra, mas de "esperarmos" um pouco menos e abraçamos o presente um pouco mais.

Com contribuições milhares de pessoas, Neil Pasricha descortinou uma janela para um lado da vida onde não parecia ter nada para olhar.

Coisas que nos deixam felizes sem esforço e espera, como  achar o lado mais frio do travesseiro para dormir, passar o dedo no copo de vitamina, raspar o tacho de creme na panela que foi usada para fazer o recheio do bolo, ganhar uns brigadeiros porque teve aniversário e sua tia não esqueceu de você, encontrar um pedaço de torta de banana esquecido na geladeira...

Dirigir na cidade vazia, ir passando uma longa fila de semáforos que vão se abrindo sem você colocar o pé no freio,  sintonizar uma música que te faz esquecer o trânsito, ouvir rock nas alturas e espancar o ar como se fosse o baterista, evitar um congestionamento ou chegar em casa dois segundos antes do temporal desabar...

Ver o sol nascer no selim da bike, fazer uma descida em curva perfeita, começar a correr de madrugada, encontrar a raia que você gosta de nadar vazia, sentar em uma sombra no final do treino, ir para a academia tarde da noite e, do nada, aparecer aquela gata para ficar na esteira do seu lado ou ver que sobrou o tênis que a gente queria no estoque da loja e o danado ainda tá com desconto...

Fazer um amigo rir e de susto espirrar refrigerante pelo nariz, girar com a sobrinha no colo para ver quem fica mais tonto (digo, já: sou imbatível) e certas esquisitices que talvez não compartilhe com ninguém, tal como ficar perto da panela para sentir o vapor do leite esquentando o rosto ou caminhar pelas ruas a noite com o chão molhado depois da chuva...

Não fossem apenas momentos em que parece que nada nos falta, a natureza dos pequenos prazeres também fala alto sobre quem somos, de onde viemos e o que precisamos para viver.

Minha lista é um exemplo do apego de uma criança que não desistiu de mim. Ela anda comigo em pleno meio-dia, se surpreende quando vê algo novo, não chega perto de roda-gigante e sorri quando lhe dou alguma coisa que não pôde ter quando antes só existia ela.

Em troca, não me pede esperança e nem me cobra pelo futuro - apenas que a gente não perca a espontaneidade por medo ou vergonha de sermos nós mesmos.

Feliz 2014...

video

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

100 x 100

Quando eu ainda treinava com o Vinnie, uma vez ele me escreveu dizendo que todo final de ano os triatletas deveriam celebrar.

Celebrar significa fazer algo desafiador,  mas ao mesmo tempo prazeiroso, aproveitando o que foi agregado durante meses e meses de treinamento para o aprimoramento da nossa condição física.

Na última vez que fiz a São Silvestre, resolvi correr pela manhã a metragem necessária para completar uma maratona em uma dia. Dividia o esforço em duas partes e ainda correria com os amigos.

Fiquei com vontade de pedalar esse ano. Achar uma estrada bacana no Interior de São Paulo e fazer um "Audax" de 300k.

Só que, depois de quatro horas na Anchieta para percorrer quinze quilômetros de carro, fiquei traumatizado com essa coisa de pegar a estrada perto de feriado.

Por quê não esse desafio de 100 x 100 na piscina?

Do lado de casa, não dependia de carro...

E me julgava mais preparado do que para correr, por exemplo, já que antes do Dash eu estava com um volume alto, de 3 mil, e nadando todos os dias...

O problema é que eu não sabia como me arriscar nesse treino. Pensei em escrever para o Rodrigo, mas ai vai que ele "cê tá doido....".

Agora, como é a vida: e não é que ele fez a mesma coisa para comemorar o aniversário dois dias antes!!!!!!

Bom, joguei a idéia no Ironbrothers para alguém me dar uma luz e choveu post sobre o assunto.

Esse grupo é demais, nossa...

E foi lá que pesquei os parâmetros básicos, que vieram da Ana Lidia e o Marcos Faria,  já que eram os únicos que tinham feito esse desafio - aliás, o Marcos também dois dias antes do meu, e contou como foi.

A única coisa que não dava para pegar emprestado eram os parâmetros de tempo, já que esses dois são de outro planeta....

Achei mais razoável a sugestão do Marlus, que se fizesse esse treino, sairia a cada dois minutos.

Eu poderia nadar 1:45 e descansar 15 a cada 100.

Pensei "é isso!"

Nesse ritmo, seriam de 3:20 de água se tudo desse tudo certo.

Ajustei os alarmes do relógio para não me preocupar com contagem, coloquei três caraminholas e três sachês de gel na borda da piscina e às 10:10 comecei o desafio.

Até os cinco mil, estava tudo certo e conseguia manter a média sem forçar o sistema aeróbio. O ritmo era algo entre moderado e forte ou, como se queira, "ritmado".

Os braços estavam em ordem e não me via mentalmente cansado.

Mas a partir desse ponto comecei a ter problemas. A média subiu para 1:50 e progressivamente fui perdendo desempenho: 1:51, 1:53, 1:54....

Exatamente na marca dos 6.300 metros meu tempo batia a casa dos dois minutos - nadar direto não era a idéia e nem em sonho eu conseguiria.

A fim de dar um tempo para os braços, mudei de estilo. Puxei 700 metros, alternando costas e peito a cada 100.

Com os braços momentaneamente descansados, voltei a nadar Craw para 1:45 e feliz da vida.

Mas em 7.900 de novo bati na casa dos dois minutos. Os braços não estavam mais ajudando. Tentei nadar com flutuador. Nada. Colocar o palmar, então, nem pensar!

Lembrei do Marcos Faria falando sobre o pé de pato (embora eu, burro, devesse tê-lo usado antes dos meus braços ficarem fatigados, assim como ele fez).

Coloquei e achei que facilitaria muito, mas não foi bem assim - consegui voltar para  casa dos 1:50, saindo a cada 2 minutos.

Quando atingi 8.500 meus braços estava quase dormentes. Voltei para costas e peito. Mais quinhentos.

Ai, finalmente, eram apenas mil metros. Coloquei o pé de pato e fui...

Mas, nos 9.400 o "professor" que estava na piscina avisou que teria que sair porque o horário já tinha dado e eu não poderia ficar nadando sozinho.

Como atrasei um pouco e tive que nadar fora da casa dos dois minutos quando fazia costas e peito, eu realmente tinha extrapolado o planejado.

Tentei explicar o treino, pedi "pelo amor de Deus", mas sabe aqueles garotos que fazem educação física e não tem noção  do que é o esporte?

Pois é...

Ele me disse que não, que não, que não...

Que era Natal (mesmo faltando quatro dias), que também entendia já que ele "também treina e fica chateado quando não faz a planilha" (acho que ouvir isso foi o pior!) e que, enfim, não dava...

Eu sou sempre certinho, mas como é que eu iria deixar de completar?

Falei para ele avisar na portaria que não ia sair e que a responsabilidade era minha.

Ele foi embora e, bem, eu teria que apertar o passo e comecei a nadar direto.

Nem preciso descrever a dor...

Faltando 200 metros, chega o pessoal da portaria e fica discutindo para eu sair. Todos, diga-se, formandos em educação física....

Expliquei, pedi, implorei, disse que estava errado, que poderiam me multar...

É inacreditável como as pessoas são. O tempo que passei discutindo era suficiente para terminar o treino!!!

Não queriam me dar cinco minutos!

Argumentei se a academia tivesse problemas, se eu agisse da forma como eles estavam agindo comigo, quando as privadas ficassem entupidas teriam que resolver o problema "na hora".

Obviamente nem sei se aquelas privadas ficam entupidas, mas foi a primeira coisa que me veio a cabeça....

Dado que o negócio não se resolvia, virei as costas e sai nadando e o povo correndo na borda da piscina acenando para eu sair.

Meu, eu mereço? Não, fala....

Não foi a forma mais bacana de se completar um desafio desses, mas valeu a pena...

Para quem quiser, recomendo, pois não acho que estamos falando daquelas loucuras que as pessoas fazem a título da pavonice.

Há boas lições para se tirar de um treino desses.

Pra começar, subestimei a parte física do desafio quando achei que o problema de fundo seria mental.

É mental também, claro! Mas não é necessariamente o mais importante - o que pega, mesmo, é o braço.

Como iria fazer um tempo mais alto nas parciais, achei que conseguiria nadar craw o tempo todo.

É aquela coisa "se não vou sair para 1:50, pelo menos vou nadar tudo em um só estilo..."

Mal comparando, é aquele pensamento "não bato o recorde mundial, mas não ando na maratona".

Deveria ter feito como a Ana e o Marcos indicaram, ou seja, ter revezado os estilos e nadado com o pé de pato em alguns ciclos de mil metros para descansar os braços.

Fui fazer isso quando já estava quebrado...

Por isso, é bom repetir sempre, o problema não é a dificuldade física ou mental.

É o ego...

É numa dessas que me vejo tentado a mudar o nome do Blog para "Burro a Bessa", sabe? ;-)

Há pelo menos três coisas bacanas que servem de aprendizado.

Em primeiro lugar, ele agrega horas na piscina e você precisa lidar com a sua resistência mental como poucas vezes é possível nos treinos regulares.

Em segundo, como todos sabemos, nadar cansado é um aprendizado duro, mas que todo triatleta deve ter. O desafio é manter a técnica mesmo quando os braços estão exaustos - tal qual os atiradores de elite, que devem ser precisos depois de horas e horas de concentração e foco.

O terceiro é que você vai aprendendo a ser raçudo.

O treino não foi como planejado? Não vai sair tudo bonitinho?

Fio, se vira! Nada de costas, nada de peito, cachorrinho, pega o pé de pato, volta para o craw e não desiste!

Luta!

No final, vale a pena. Sempre vale...

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Ten Bucks....

Nos intervalos da minha cisma rabugenta com as coisas pouco úteis das redes sociais, algumas experiências me fazem pensar que as vezes a bobeada é minha.

Algumas coisas não explodem em cores vivas ou palavras bonitas, mas podem guardar tesouros, tais como os despretenciosos detalhes da foto de uma amiga, professora universitária, e sua turma de faculdade.

A despeito da visão romântica sobre os "professores", eu não compartilho do princípio de que se trata uma profissão diferenciada, tal com os cansativos bordões do feicêbuque que elevam esses profissionais a categoria de santos, deuses ou coisa parecida.

Como aprendi na prática, "dar aulas" é coisa completamente diferente de "ensinar" e existem muitos por ai que estão na carreira docente sem a mínima vocação para isso. Frequentam as salas de aula porque não acharam nada melhor para fazer na vida, enquanto outros (e são muitos) se tornam cúmplices de uma indústria de atestados médicos que opera da mesma forma que o crime organizado.

Portanto, não tenho paciência com aquela sabedoria empacotada de supermercado do tipo  "o único profissional que não precisa se curvar na frente do imperador do Japão...blá-blá-blá" .

Aliás, só em uma sociedade deseducada um texto desse circula tanto, já que essa informação não tem fundamento algum.
 
Por outro lado, há um tipo de gente muito especial, como aquelas que conseguiram ascender socialmente e, ao invés de continuar com a sua vidas em profissões em que poderiam ganhar mais, se voltam e estendem a mão para que outras pessoas também possam fazer essa escalada. Não se preocupam com o anonimato porque têm consciência de uma missão de vida e são capazes de tirar uma extraordinária felicidade dessa entrega.

E essas pessoas são portadoras de algo que muitos almejam, mas poucos podem ter.

Um dia, em uma reunião de trabalho, um antigo professor da Unicamp me dizia quando puxamos uma conversa de lado na hora do café, "Você sabe porque os milionários investem em ONGs, Fundações e projetos sociais? Porque não há dinheiro no mundo que impeça o que eles mais temem: serem esquecidos."

Minha amiga não precisa ter medo ser esquecida.

Alinhados com ela 47 pessoas que faziam parte da turma de administração que se formariam dois anos mais tarde. Todos egressos de um programa de bolsas para o ensino superior, na qual prestavam serviços de monitoramento em escolas pública como contrapartida do financiamento para os estudos.

Ao acaso das baixas probalidades estatísticas que dizem que os mais pobres tem poucas chances de  alcançar a faculdade, muitos ali frequentaram o curso noturno para serem os primeiros de gerações familiares inteiras a terem um diploma universitário. E o que eles conquistarão aumentará a chance de uma vida melhor para seus filhos e para os filhos dos seus filhos.

Mas não são aulas fáceis, principalmente para salas grandes que aglomeram entre 40 e 60 alunos exaustos física e mentalmente. Não  há turmas homogêneas e muitos não mostram comprometimento espontâneo.

Você pode achar uma inversão de valores, já que se pressupõe que o interesse em aprender é dos alunos.

Mas quem está lá na frente sabe que isso faz parte do trabalho.

Trabalhar em sala de aula não implica apenas em didatismo e domínio do conteúdo, mas uma enérgica aplicação de esforço físico.

Os professores reagem inconscientemente a leitura dos sinais que tiram dos rostos cansados e se viram como podem - são teatrais, dramáticos, um pouco palhaços, um pouco sérios e circulam intensamente dançando entre as carteiras.

E você não tem idéia da força necessária levantar uma classe de estudantes.

Um dos memoráveis capítulos do repassado, E.R. James Woods interpreta um exagerado professor de bioquímica em uma faculdade de medicina.

Sua aula é uma demonstração do que significa o entralaçamento da mente e do corpo na arte de ensinar. Ele se impõe por um rico repertório de gestos para mostrar as complexas amarras conceituais que nos permitem entender como interagem as moléculas fundamentais que sustentam a vida.

Ele mostra paixão.

Até que a personagem de Maura Tierney, a Abby Lockhart, lhe procura para cancelar a matricula do curso e desistir.

Alguém experiente que está de costas para o quadro negro entende que há mais coisas em jogo do que a nota final.

Pergunta ele....

"Você gosta de triatlon?"

Ops, ato falho... ; -)

"Você gosta de esportes? Patinação? Dançar? Todo mundo gosta de dançar"

Ele a rodopia com um charme desinteressado, ao mesmo tempo que lhe mostra a diferença entre decorar as coisas e pensar conceitualmente.

Mas não dá certo. Ela é muito prática e pessoas práticas se impacientam com metáforas.

Ele lhe faz uma proposta. Ele chega mais cedo na faculdade e ela pode procurá-lo.

Em três semanas, garante... ou, melhor "aposta ele", ela estará pronta para passar no exame.

"Ten Bucks"

Ela não se dá por vencida

"Gostaria de ter a sua confiança" ela diz.

Ele, "Eu tenho. Não desista".

E complementa....

"Não fosse só isso, vou lhe ensinar a lutar".

É a lição que ela lhe recorda quando ele está em uma cadeira de rodas disposto desisitir da vida.

Essa cena é inesquecível.

Ela fala sobre a importância das pontes de confiança. As vezes temos a sorte de encontrar pessoas com o dom da coragem recíproca, aquelas que, tal como no verso da poetisa Hannah Kahn, são capazes de dizer "me dê a sua mão que eu caminharei na luz da sua fé em mim".




terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Papo de Besteira

Não faz muito tempo, me vi enroscado em uma discussão sobre um texto que fiz e que algumas pessoas reconheceram na escrita de outra pessoa.

A principio, reagi mal. Eu tenho uma verve portuguesa daquelas, mas sempre que me vejo em arranca rabos o momento seguinte é de arrependimento.

Não pela pessoa, que realmente fazia por merecer as tamancadas.

Mas quem está no entorno, não. Lavar roupa suja em público é agressivo e ofende quem não gosta de bate-boca. Em fóruns de amigos, aprendi que quebra-pau é um constrangimento desnecessário.

Adotei uma atitude mais civilizada e escrevi uma reclamação para o site que hospeda os textos. A primeira resposta foi burocrática, típica das empresas que falam em atendimento preferencial e colocam um telemarketing na frente para dizer a falha não é dela, mas da terceirizada.

Insisti um pouco mais. O editor foi mais atencioso e disse acreditar tratar-se de uma coincidência - portanto, parentenses, implicitamente ele reconhecia a similaridade - fecha parênteses.

Além do que não seria possível provar nada, já que a própria autora negara tudo.

Coisa assim, "vamos acreditar que se trata de uma confusão".

De fato, não é uma questão simples. A cópia não é "corte e cola".

O que essa gente faz é pegar as referências do texto, montar um arranjo diferente e depois colocar uma conclusão.

Mas como os textos guardam o DNA dos autores, quando alguém lê segue-se aquela dúvida: "Onde foi que eu já li isso mesmo?".

Trata-se de uma luta perdida, pois é dificílimo comprovar algo no momento em que tudo na Internet é público e suscetível a interpretações.

Bem, percebendo um atitude mais sincera do editor, resolvi dar um voto de confiança e acreditei que a coisa não se repetiria.

Mas se repetiu.

Pedi um opinião sobre a descrição que fiz do 70.3 de Vegas, especificamente a segunda parte, e o texto da "blogueira" que comenta porque os triatletas fogem de provas dificeis.

De cinco, apenas um disse que a cópia seria questionável.

Escrevi novamente para o editor.

E a resposta, nenhuma.

Até certo tempo atrás, blogs eram manifestações espontâneas de pessoas que apenas queriam fazer relatos despretenciosos com cara de diário sobre treinos e provas ou eram movidos pela compulsão em escrever sobre o que lhes desse na telha.

Posteriormente, alguns atletas tentaram fazer seus blogs como forma de comunicação e espaço para marcas de apoio - poucos deram certo e, com o aparecimento das "Fan Pages" do Facebook, a coisa foi por outro caminho.

Mais recentemente, apareceu uma categoria nova no pedaço, a dos "blogueiros profissionais".

Há coisas bacanas e coisas não tão bacanas.

Enquanto alguns tem seu público por uma questão de carisma, identidade e uma mensagem consistente, outros são selfies que vêem as redes como uma vitrine comercial para aproveitar as oportunidades que estão ai.

Entretanto, como não tem experiência ou conteúdo, abusam de textos copiados ou se apóiam em uma pauta superficial que lembra bastante os programas domésticos de aconselhamento feminino, com posts que têm a profundidade de um pires: "você faz triathlon e seu namorado não te apóia?" ou "você se sente mal trocando a balada por treinos?".

Infelizmente, qualquer coisa hoje tem leitores na Internet.

As vezes alguém diz:

"Hoje treinei com o cabelo molhado"

334.456.456 curtidas.

"Tenho uma familia linda, todos me apóiam e só tenho a agradecer".

345.456.455.346.495.450.765.941 curtidas

"Ele é lindo, me compreende e está sempre ao meu lado nos momentos mais difíceis" ( acompanha foto do cachorro)

10 983.454.546.657.578.094.645.238.623.089.303.856.453.456.054.592.323

Como essa audiência esses selfies oferecerem a sua rede de contatos como moeda de troca para angariar "apoios" de lojas e marcas.

Depois entopem o Facebook e o Instagram com fotos que lembram os quadros de Picasso, nas quais posam como modelos ao lado de potes de suplementos e marcas de roupa.

Alguns sites que têm patrocinios de lojas on line aproveitam a onda e dão espaço esse tipo de blogueiro como uma forma de obter conteúdo gratuíto.

O resultado dessa associação de interesses é que, a cada click no texto, como mágica aparecem suplementos no armário de um e reais no bolso do outro.

Dentro do "modelo de negócio", nada ai é ilegítimo.

Agora, alguém me perguntou se eu quero contribuir com a terceirizada?

Não tenho e nunca pedi "apoio" a ninguém. Não compartilho marcas de suplementos, você não me vê comentando sobre material esportivo, não faço propaganda da minha assessoria, não falo sobre lojas e não quero necas de desconto em oficina para ter a obrigação de falar de alguma.

Não recebo brindes, amostras grátis ou uniforme de confecções. Mesmo escrevendo no site do MundoTri, compro a Revista como qualquer outro outro.

Sabe por quê? Porque sou um amador sem nada de especial e acho piada montar um currículo de resultados sem resultado nenhum.

Se falarmos em "formador de opinião", ai a coisa é pior ainda, já que sou um fracasso até para convencer a minha sobrinha que ela tem que estudar inglês.

O Blog é apenas um passatempo para noites de insônia ou uma linha de diálogo com os participantes do maior grupo de amigos do triathlon brasileiro, o Três Meios.

A exceção do Edú, todos os outros são imaginários.... ;-)

Portanto, não é um campeão do Ibope, mas tem alguns leitores cativos (minha mãe lê sempre, eu acho) e desde de cedo decidi que não montaria um bazar de amigos para vender tapawer.

Se estamos entrando no mundo das "webcelebridades" em que pessoas que escrevem na internet têm mais benefícios que atletas (amadores ou profissionais) com uma lista de serviços prestados pra mostrar, então alguma coisa está errada.

Muito errada.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Dash 113

Depois do 70.3 de Vegas tinha me decidido que, em termos de provas, 2013 já tinha acabado.

Não tinha hipótese. Nenhuma. No way....

Faltando coisa de 30 dias para o Dash 113 estava lá eu com a inscrição na mão.

Sentiu a firmeza? ;-)

O Rodrigo achou que a gente não precisava mexer na planilha "relax" do segundo semestre, já que havia a bagagem e treinos de manutenção relativamente calibrados para o final do ano.

E também dei uma "maria vai com as outras" porque, no fundo, eu queria ir.

Quando olhei a lista de inscrição estava lá um turma que interage muito pela Internet, mas que se encontra pouquíssimas vezes.

Nem vou me aventurar a escrever o nome das pessoas todas, porque certamente vai ficar gente de fora e não vou me perdoar depois...

Outra coisa era dar um tempo no trabalho - um tiquinho de folga na loucura.

Funciona pra mim como uma imersão de três dias em que eu consigo deixar um pouco os problemas para trás - mesmo que colocando outros na frente, já que participar de um meio-iron, bem...

Participar de um meio-iron....dói!

Pois não adianta dizer que a gente faz inscrição para "curtir a prova".

Eu já sabia que seria sofrido.

Estou nadando todo dia, mas fazendo treinos curtos de corrida na esteira e muito rolo, pois bike, mesmo, só três treinos longos no final de semana entre setembro e a prova.

O resultado foi um misto dessa preparação, uma displicência que me não deixa e um pouco de azar.

Nadei 1.900 metros para coisa de 33 minutos, mas mais importante que o tempo foi o fato de ter me sentido bem nadando no bolo. A gente treina muito em piscina ou em águas abertas com pouca gente e, é óbvio, não há como simular uma largada de triathlon com aquele aperto e a pancadaria geral.

Até a primeira bóia foram todos juntos e, a partir dai, a natação começou a fluir. O mar estava flat, não havia correnteza, a sinalização era boa e o percurso tinha apenas uma perna.

Meu problema começou quando fui tirar o Wetsuit. Desde de quando comprei o meu, não cortei a borracha na altura do tornozelo, deixando-o mais curto. Quando vou tirar é uma dificuldade impressionante.

Preguiça, óbvio. Já era para eu ter resolvido isso faz tempo, só que fico sempre adiando porque a próxima prova ainda está longe e assim vai....

Fiquei lá esperneando no chão tentando soltar as pernas. Quando finalmente consegui, tive vontade de ficar pulando em cima dela e depois dar uma bica naquela #@#$%$#...

Mas eu tinha que me mandar para a estrada.

O pedal é ótimo. É um trecho bem conhecido para quem já fez o Iron de Florianópolis.

E rápido, sem dúvida.

Há predomínio dos trechos planos, poucos rolling hills e uma ou outra subida.

Vento? Tem.

Mas pedalar e reclamar do vento é quase o mesmo que nadar e ficar falando mal da água.

Agora, é fácil?

Depende. Para quem faz força, garanto que não é.

Tive um contratempo quando o shift que regula o câmbio foi para o espaço e pedalei boa parte da prova no Big Gear, na relação mais pesada.

Tudo bem, eu já estava pedalando assim. Mas sabe o que atrapalha?

A gente perde a concentração tentando entender o que aconteceu, depois tenta resolver o problema puxando algo aqui e ali e, finalmente, fica pensando se em algum momento a coisa vai piorar.

Consequentemente, o ritmo de prova cai.

Passei em um posto e achei um mecânico, o Adriano, que me ajudou com a resolver o problema rapidamente. Dali em diante, tentei um prova de recuperação, pois tinha como meta tentar algo em menos que 2:30.

Consegui 2:26. O percurso tinha 88k e achei de bom tamanho.

Sai para correr com as pernas soltas, mas no último terço o ritmo caiu bastante porque eu estava sem preparo para fazer a prova no ritmo que gostaria e devo ter perdido muito sal também, já que minha roupa estava branca. E sentia meu corpo quente como nunca senti....

Os dois últimos quilômetros doeram demais. Fiquei pensando ali, naquele momento, que bom que não estava em um Iron....

Fechei a meia em 1:46 e a prova em 4:55, o que deu um oitavo lugar na categoria.

Em termos de resultado, foi bacana, pois qualquer coisa nessa distância em menos de cinco horas me deixa feliz.

Mas também soou um alerta: tenho que treinar mais até maio e deixar de ser tão displicente.

Sobre a displicência, o Rodrigo fica uma arara com isso.

E, de fato, ele tem razão - sempre acho que uns minutinhos aqui, outros ali, não fazem diferença.

Mas fazem. Quando consultei os resultados, vi que poderia ter uma classificação muito melhor se simplesmente tivesse tirado a roupa de borracha mais rapidamente.

Isso é reflexo da minha mentalidade, da dificuldade de mudá-la.

Eu tenho 14 provas com a distância de meio-iron e, a grande maioria delas, com um tempo na casa das 5:20.

Na minha categoria esse tempo não torna você uma pessoa competitiva.

Entretanto, quando eu passei a fazer a prova em menos de 5 horas isso se tornou algo mais próximo da realidade.

O problema é que isso não entra na minha cachola amadora. Então não me esforço para dar conta dos detalhes que podem fazer a diferença.

Sobre a prova....

Houve erros em pontos simples: faltou água em alguns postos e copos em outros (teve gente que pediu para beber refrigerante no gargalo da garrafa) e a coca-cola tinha gás.

Os cones na corrida tinha um trajeto confuso em vários pontos e a gente batia cabeça aqui e ali com quem vinha na direção contrária. Também fiquei cismado com os carros, pois havia cruzamentos sem ninguém da organização para orientar os motoristas.

Foram fornecidos três chips. O que ficava na perna rodava o tempo inteiro no tornozelo e incomodou. 

A cada volta na corrida, recebiamos espátulas para colocar no braço. Eu nunca tinha visto aquilo e não tinha idéia de como funcionava. Fiquei segurando até ver que descobrir que ao bater no braço ela se transformava em uma pulseira.

Parece bobagem, mas quando falta oxigênio no cérebro, acender fósforo parece tão difícil quanto resolver um cubo mágico.

Bom, seria legal ter também uma equipe para ajudar a tirar o Wet.

Não houve separação entre o tempo da T1 e da natação e os tempos dos penalizados (não sei se de todos eles) foi somado ao total - o que distorce um pouco as médias por categoria.

Mudaram algumas coisas que estavam previstas e houve alguns problemas de comunicação, tal como o cancelamento das largadas por ondas e a disposição das bóias no mar.

Mexer no regulamento é uma possibilidade prevista no próprio regulamento, mas as informações devem ser claras.

Quando, por exemplo, pedi para me ajudarem a tirar o wet, o staff me informou que não era permitido - só que o regulamento da prova não diz se é ou não é.

Mas o que me deixou mais cismado foi não ter visto a fiscalização na segunda parte do pedal, o que gera dúvidas se a quantidade de penalizações foi justa ou não.

A organização falava em desclassificação para a elite e cartões de advertência e desclassificação para amadores - mas vi alguns pelotões (grandes e pequenos) e nas duas vezes que me lembro de ter cruzado com o pro-masculino, eles estavam agrupados.

Já entre as meninas,  tive impressão oposta.

Agora, os pontos positivos: preço, kit excelente, jantar de massas muito bom, exposição sobre a prova no Congresso técnico didática e detalhada.

Vale o elogio pelos aplicativo criado para celulares, assim como foi positivo o uso do Penalty Box e o teste antidoping, pois tecnologia e provas limpas tem uma caminho bacana e certamente serão um diferencial importante.

O evento lembra um pouco Pucon no que se refere as facilidades de locomoção em torno do Hotel e o percurso todo dá gosto de fazer.

Mas talvez o ponto mais forte do Dash 113 é que ele pode ser o laboratório de testes ideal para quem planeja fazer o Iron em Florianópolis. Você terá uma amostra do ambiente da prova, vai entender melhor o percurso e poderá ainda se inteirar rede de serviços que terá ao seu dispor durante o tempo que ficará por lá.

Agora é tocar a agenda de 2014. A próxima é o Internacional de Santos.

Não, minto.

A próxima é arrumar essa %$#@#$ do wetsuit